Cultura

O humanismo estético de Couto Corrêa Filho | Rossini Corrêa

Uma cultura só alcança a idade adulta e percorre as esferas da maioridade quando, nas artes, letras, ciências e demais manifestações do espírito humano, conquista consciência de si e para si. Este processo aquisitivo justifica e legitima a crítica, como atividade elucidativa superior da prática intelectual, em todos e quaisquer hemisférios dos múltiplos quadrantes da humana experiência. Nela, as águas e as cores da razão e da emoção conversam entre si, em uma dialogia em que a potência explicativa se transfigura na dialética do ato, com a razão crítica iluminando caminhos e fronteiras da emoção criativa.

 

Tamanha, entretanto, a significação da crítica, em sua visceral laboração autônoma e colaborativa, que também se transforma em emoção reveladora da razão das razões que motivaram os possíveis horizontes inventivos, dos infinitos caleidoscópios criativos nas artes, letras, ciências e enésimas manifestações do humano espírito. Se é certo que grandes figuras, titãs da criatividade existiram, conjugando criação e critica, Rousseau e Goethe permaneceram como exceções e as duas retas seguiram independentes e paralelas na modernidade.

 

Se Machado de Assis contribuiu para difundir a atitude avaliativa na inteligência brasileira, na cultura maranhense Frederico José Corrêa, com Um Livro de Crítica, explicitou o propósito de discernir, ao examinar a produção literária à sua volta. Os maranhenses firmaram constância na matéria, do que foi reflexivo exemplo Graça Aranha, com A Estética da Vida e Espírito Moderno, essenciais para a busca da emancipação do pensamento brasileiro.

 

A Geração de 30, reunida no Cenáculo Graça Aranha, sob o magistério de Antônio Lopes, projetou para o Brasil a sua capacidade analítica de julgamento, estampada no Diário Completo, de Josué Montello, em A Fantasia Exata e Morte da Memória Nacional, de Franklin de Oliveira, nos Ensaios Escolhidos e em O Laboratório Poético de Cassiano Ricardo, de Oswaldino Marques, em Camilo no Maranhão e Outros Ensaios, de Antônio de Oliveira e, sem ser exaustivo, em Graça Aranha e Outros Ensaios e Distrito da Confusão, de Odylo Costa, filho, este, passando da dimensão literária à crítica política. Sobre Franklin de Oliveira, em confidência dirigida a Arlete Nogueira da Cruz e Nauro Machado, José Guilherme Merquior confessou tê-lo como um dos três maiores críticos literários do século XX. 

 

Não foi diferente com a Geração de 45, posto que, nela, a cultura maranhense projetou para a inteligência brasileira o seu maior crítico de artes de todos os tempos: Ferreira Gullar. Folhas aos ventos, a semeadura gullariana foi de Teoria do Não Objeto a Uma Voz entre a Natureza e a Cultura, passando por Cultura Posta em Questão: Vanguarda e Subdesenvolvimento, Sobre arte: uma luz do chão, Etapas da Arte Contemporânea, Indagações de Hoje, Argumentação Contra a Morte da Arte, Corpo a Corpo com a Linguagem, Relâmpagos, Experiência Neoconcreta e, para ser econômico, Arte Contemporânea Brasileira.

 

O principal herdeiro de todo o legado exposto, com certeza, é o poeta, ator, galerista, curador de arte e artista visual Couto Corrêa Filho, cujas águas e cores estão emendadas com as de Ferreira Gullar, na compartilhada capacidade de dizer o ver. É que a fenomenologia da percepção, tanto coutiana quanto gullariana, se encontra estribada no amor conjunto pela filosofia, em que os dois, mais do que eruditos, se tornaram sabedores.

 

Couto Corrêa Filho é a consciência de si e para si das artes visuais maranhenses. Tinha absoluta razão o poeta Nauro Machado, ele mesmo o crítico de Província: o Pó dos Pósteros, ao considerar antológicas as leituras do coutiano oficio de dizer o ver, servidas por uma capacidade perceptiva aguda, na qual o conhecimento técnico se conjuga com a sutileza reveladora da emoção. 

 

Reclamava – e com procedência – o poeta de Nau de Urano, que os textos críticos em questão recebessem a forma perduradoura do livro, como testemunho da maturidade de pensamento a que chegou a reflexão estética na cultura maranhense. Bem haja!, como sentenciam os nossos ancestrais portugueses. Assim seja. 

 

Na melhor tradição de Tagore – “Adormeci e sonhei que a vida era alegria; despertei e vi que a vida era serviço; servi e vi que o serviço era uma alegria” – na faina alegre do serviço Couto Corrêa Filho é o ponto crítico de intercessão entre o pretérito e o vindouro, o histórico e o emergente, enfim, a tradição e o futuro, por meio da Confraterna de Couto, vitorioso salão de artes visuais que organiza anualmente. 

 

Assim, nos doze trabalhos de Hércules realizados em favor da cultura maranhense, apoiado por esforços puramente privados, Couto Corrêa Filho empresta o melhor do seu idealismo à causa do espírito, a única que, ao refiná-lo no plano da razão sensível, pode tornar o ser, real e belamente, humano. Neste sentido, a existência coutiana é um apostolado estético a serviço do mais profundo humanismo. Bem haja!, mais uma vez e para sempre, entre luzes e cores.

 

O humanismo estético de Couto Corrêa Filho

Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.

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