
Sobre tangos e contos
Gosto de ouvir tangos; gosto de ler e escrever contos. Era uma questão de tempo para que os deuses fizessem confluir esses dois prazeres. Isso afinal aconteceu, e o resultado é Tangos & Contos.
Os tangos
Descobri os tangos em algum momento de minha infância, pelo rádio. É, havia programas com tangões e bolerões, meus pais escutavam, eu também. Dessa fase, ficaram apenas trechos musicais e alguns versos, tipo Adiós muchachos, compañeros de mi vida…. Muito tempo depois, já adulto, os reencontrei. A começar por Garufa, ouvido em um inferninho paulistano. Eu tinha pouco mais de 30 anos.
Bem mais tarde, com o apoio do You Tube e do Spotfy, revi todas as composições que entram neste livro e muitas mais. São, na grande maioria, tangos brabos, da pesada. Alguns me surpreenderam: o conhecidíssimo La cumparsita, por exemplo, não menciona a própria (já o meu conto…). Seja como for, há muita coisa boa.
Os contos
Foi divertido escrever contos tangueados. E. mais ainda, ver como cada um deles trilhava seu próprio caminho.
Alguns nasceram praticamente perfeitos, Atena surgindo, armada de lança e escudo, da cabeça de Zeus. Foi o caso de O ex (Malevaje), tive apenas de psicografá-lo, ou quase isso.
Outro conto que nasceu quase pronto foi Palavrões (El choclo). Ouvi o tango com Suzana Rinaldi, li a letra, deparei-me com um lunfardo brabo e escrevi. Sem o menor esforço. Saiu um conto bem-humorado, um dos poucos assim do livro.
Outros deram bem mais trabalho. Mina (Mano a mano) surgiu como praticamente uma paráfrase desse tangão clássico. Culpa das imagens extraordinariamente vívidas do original, como a do gato maula brincando com o ratón… Essas figuras estão no meu texto, mas, depois de umas duas mãos de tinta, creio haver-me descolado dos versos de Celedonio Flores musicados por Carlos Gardel. O suficiente, pelo menos, para assinar o conto sem ter de encarar uma acusação de plágio.
Noites de Pompeya (Sur) também me fez suar a camisa. Para começar, senti que era quase uma heresia brincar com os versos magníficos de Homero Manzi. A solução foi mover um casal por um continuum presente-passado-presente, e fazê-lo se amar recorrendo às imagens inesquecíveis de Sur.
Na grande maioria dos textos, eu tinha uma noção razoavelmente precisa noção de como desenvolver o conto e qual o limite aceitável de irreverência para com o original.
Outras produções, porém, proclamaram sua autonomia desde as primeiras linhas. Uma delas foi Ángel (Cuesta abajo). Eu sabia apenas que iria explorar a lancinante estrofe inicial. De repente, passei a escrever um texto sobre um anjo – caído, porém anjo. O resultado foi um conto estranho e poderoso.
Houve outros fenômenos. Eu dava os últimos retoques em Gorri, recém-escrito, quando uma amiga me perguntou, pelo MSG, se eu tinha algum conto sobre dança, para entrar em uma revista literária. Terminei a revisão e mandei o conto pra ela, por email. Resultado: Gorri foi publicado antes de entrar neste pdf.
Houve também o fenômeno El último organito. Os versos mágicos de Homero Manzi inspiraram-me nada menos que cinco contos: O ciclo, Os pálidos, Morrer de amor, As moças do realejo e Conversa de equinos. O primeiro a surgir, O ciclo, também seguiu caminhos próprios e sombrios. Minha ideia era fazer do velho cego, “que fuma, fuma y fuma, sentado en el umbral”, um gênio do bandoneón, explorado pelos netos, que o arrastam, todas as noites, para encantar plateias e enriquecê-los. Seria um bom conto triste. Mas o texto pegou o freio entre os dentes e me flagrei escrevendo uma história de terror. Quando uma produção se declara independente, melhor não contrariá-la. Pelo resultado final, acho que valeu a pena.
Houve ainda o fenômeno A media luz. O tango não entrou inicialmente na seleção porque, na minha ignorância musical, achava que era um bolero(!). Depois, rendeu três contos, de estilos bem diferentes.
E houve, afinal, o fenômeno La Cumparsita. Foi um dos tangos de minha infância, dos quais me ficaram trechos musicais. Confesso, porém, que não conhecia/não recordava a letra. Ao checar, vi, como observei antes, que la cumparsita só aparece no título. Senti-me traído – e soltei os cachorros. Juro, não sei por que utilizei a linguagem que aparece no conto Cumparsa. Mas sei que o resultado, bem divertido, me lavou a alma. Confiram e, tanguistas ortodoxos, não me odeiem, nem me chamem de contista fiodeumaégua ou coisa pior.
Para terminar, O último dia, da canção de Piazzolla Balada para mi muerte. Eu havia decidido não enveredar por esse caminho: na minha opinião, seria como emendar composições de bossa-nova em um álbum sobre sambas-canções. Mas a letra e a música falaram mais alto, e o conto nasceu. Um bom final para o volume.
Bom, é isso aí. Espero que este livro desperte ou aguce o prazer de ouvir um bom tango e ler um bom conto – ou, no mínimo, razoável. Porque, parafraseando o almirante romano Pompeu, o Grande, o poeta português Fernando Pessoa e o compositor baiano Caetano Veloso, ouvir tangos é preciso, escrever e ler contos tangueados é preciso, viver não é preciso. Mas é bom demais.
Cadu Matos
*
Malevaje
Tango de 1928. Letra de Enrique Santos Discépolo, música de Juan de Diós Filiberto.
Decí, por Dios, ¿qué me has da’o
Que estoy tan cambia’o?, no sé
Más quién soy
El malevaje extraña’o
Me mira sin comprender
Me ve perdiendo el cartel
De guapo que ayer brillaba en la acción
¿No ves que estoy embreta’u
Vencido y mania’o
En tu corazón?
Te vi pasar tangueando, altanera
Con un compás tan hondo y sensual
Que no fue más que verte y perder
La fe, el coraje, el ansia ‘e guapear, eh
No me has deja’u ni el pucho en la oreja
De aquel pasa’u malevo y feroz
Ya no me falta pa’ completar
Más que ir a misa e hincarme a rezar
Ayer, de miedo a matar
En vez de pelear, me puse a correr
Me vi a la sombra o fina’u
Pensé en no verte y temblé
Si yo, que nunca aflojé
De noche angustia’u
Me encierro a llorar
Decí, por Dios, ¿qué me has da’u
Que estoy tan cambia’o?
No sé más quién soy
Te vi pasar tangueando, altanera
Con un compás tan hondo y sensual
Que no fue más que verte y perder
La fe, el coraje, el ansia ‘e guapear
No me has deja’u ni el pucho en la oreja
De aquel pasa’u malevo y feroz
Ya no me falta pa’ completar
Más que ir a misa e hincarme a rezar
*
Malevaje
O ex
Eu a vi passar, tangueando altaneira. Usava um vestido vermelho, colado, com uma grande fenda lateral, que revelava uma perna lindíssima, perfeita. Tangueava com um cafajeste boa pinta e se esfregava nele como uma gata no cio. Eu a vi, e me apaixonei.
Acompanhei-a com olhos suplicantes. Ela percebeu, dirigiu-me um sorriso sedutor e quase me derreti. Teria sido melhor mesmo, virar líquido e escorrer por algum bueiro de Buenos Aires. Um fim mais digno.
Chamava-se Graziela. Depois do tango veio falar comigo, e me encantei mais e mais. Fomos para um hotel barato e trepamos a noite inteira.
Nos dias seguintes, tirou tudo o que eu possuía. Não que fosse muito, para começar, mas sempre havia alguma coisa. O dinheiro transformou-se em perfumes e vestidos caros; objetos do quarto que eu alugava foram penhorados e a grana também sumiu. Tirou-me até mesmo o cigarro da orelha, o que sempre trago de reserva, vai que um maço acaba de madrugada e fico na fissura! Falou, rindo, que queria experimentar, acendeu, deu duas tragadas e jogou fora, disse que era forte demais. E eu com um sorriso bobo estampado na face, achando-a encantadora, linda, maravilhosa…
Mas o pior é que ela roubou-me a pose, a dignidade. Eu, um guapo respeitado e temido na noite portenha, mais respeitado que temido, era conhecido como pugilista. Estava sempre disposto a sair na porrada com algum compadrito tanguero, a tornar seu rosto tão feio quanto o meu, mais feio que o meu. Isso, quando não o desfigurava para sempre com o meu punhal… Pois bem, depois de Graziela, perdi a ânsia de guapear, passei a ter medo que algum soco quebrasse (mais uma vez!) meu nariz e ela me achasse medonho, não me quisesse mais. Passei a evitar brigas sempre que podia, e ontem à noite, pela primeira vez, fugi de um homem que me provocou.
E, claro, Graziela partiu quando meu dinheiro acabou. Partiu altaneira, com a postura com que tangueava; ao me vir na rua, à porta do cabaré que frequentava, não fingiu não me conhecer. Em vez disso, olhou-me friamente, como que desafiando-me a abordá-la. Não tive coragem. Olhei-a em silêncio e fui embora para o meu quarto, ele está pago por uns 15 dias. Depois, não sei como vai ser.
E assim, tornei-me um ex. Ex-guapo, ex-pugilista, ex-castigador de señoritos, ex-malandro portenho, ex-amante de Graziela. Hoje, vago pelas ruas sem rumo, sem destino. Não sei mais quem sou.
(in Tangos e contos: 2025)
Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.










