
O colar pendia ali, sobre a escrivaninha, depois de partido, desta vez de forma irremediável. O fecho já se tinha partido antes, mas encontrara-se por ali um jeito de o fazer continuar a funcionar. Agora tinha sido a meio. O fio parecia queimado – ou talvez podre, pelos anos que tinha, pelo uso que lhe fora dado. Jazia agora ali, tentando arranjar remédio. O fio era algo estranho, parecia orgânico, pertencente às pedras que o compunham. Era como se tivesse morrido.
Impensável deitá-lo fora. O colar tinha duplo valor: as pedras, grandes, com apenas um rolado primitivo, eram de um coral intenso e vivo. Entre as pedras de coral havia pequenas missangas negras, cujo material desconheço. O outro valor era sentimental. O colar já, já com muito uso, tinha-me sido oferecido pela prima velha, quando me perdi no tempo e no espaço, na casa de Asterix em que ela vivia, com lareira acesa em pleno agosto, nevoeiro vindo do pequeno lago nas traseiras, rosas Chanel no terreno, como ela lhes chamava, maçãs caídas sobre a relva para se transformarem em cidra carrascã. O colar contava uma história, a minha e a dela, a história da viagem que me aproximou dela, a história das nossas antepassadas que nos fizera unir em amizade.
O vazio do telefone, das cartas, do mail. Há quanto tempo eu não sabia dela? Não atendia o telefone, não respondia a uma carta, nem mesmo a um mail, e nas redes sociais – apesar da dificuldade que a prima velha tinha com a internet. Mas havia os meios tradicionais, e esses também continuavam mudos. O silêncio absoluto. E o colar partido.
Olinda Pina Gil
Olinda Pina Gil, mestre em Ensino pela Universidade Nova de Lisboa, é atualmente professora de Português no Ensino Básico e Secundário, mas reúne diversas experiências profissionais no currículo. Estreou-se na escrita no “DnJovem”, suplemento do “Diário de Notícias”. Foi 3º prémio do concurso literário “Lisboa à Letra” em 2004, na categoria de prosa.
Tem diversos contos publicados em ebook. Colabora com frequência em coletâneas e diversas publicações. Pertence à Direção da ASSESTA – Associação de Escritores do Alentejo.
Publicações:
Contos Breves, 2013, ed, de autor;
Sudoeste (2016, 2014 em ebook), Coolbooks (Porto Editora)
Sobreviventes (2017, 2015 em ebook), Coolbooks (Porto Editora)
O Príncipe e o Lobo, 2022, ed. de autor










