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Chuva de mãos para ladrões de sinos | Alice Caetano

É à noite que os ladrões de sinos actuam. Em determinadas noites, precipitam-se e começam a desaparafusar as asas dos sinos, durante a fase dos galos. 

A noite tem três fases: a primeira é a fase em que se ouvem os cães a ladrar sob a neblina, a segunda é a fase dos galos cantarem ao despique e, rente à madrugada, é a terceira fase, quando os pássaros, nas semi-sombras, cantam a incandescência. 

Os ladrões, embebidos em águas de ganância, sobem às torres das igrejas, cortam as cordas, embrulham os badalos em cobertores castanhos e vão desaparafusando… então, começam a fazer descer os sinos muito devagar, para que nenhum som possa sair do bronze campanil, mas, os galos cantam muito alto, perturbando a sua atenção e logo falham o empreendimento.

Os ladrões de sinos são apanhados em flagrante e ficam todos de castigo. Cortam-lhes as mãos e eles só vão poder comer como se fossem cães, ou porcos, debruçados sobre as malgas e os gamelos. 

Começam a rezar a São Heriberto para que faça chover mãos sobre os seus pulsos vazios.

A inquietação é tanta que nunca acaba. Não há meio de choverem as mãos. As horas do tempo vão ficando insustentáveis. Há um fruto que dói dentro do peito dos ladrões de sinos, como se fosse um fruto baptismal a ser lancetado. Pudessem eles voltar atrás e trabalhariam na fase dos cães, porque, os cães, afinal, possuem uma recôndita essência sagrada e fiel. Os galos não, são uns snobs fecundadores, persuasores, e capazes de fazer vacilar o mais forte dos discípulos. 

Corações agitam-se, quando a tempestade marginal das mãos se inicia. Só dura durante o ensaio da libertação das almas selvagens e logo cessa. Nem todos são contemplados. Alguns despedaçam a germinação do sol com os cotos e com o desespero. Ninguém aceita permanecer mutilado sem ruir por dentro. Mesmo os imorais, que deveriam ser duros, possuem um pouco de céu debaixo das pálpebras e choram. 

Na fase dos pássaros, já os ladrões de sinos estão em desordem total. Então, os pássaros cantam uns para os outros e purificam-se na sua irmandade profunda. Os pássaros são sempre alegres, trazem auroras nos bicos e Poemas nas asas iluminadas. Os ladrões de sinos ainda não aprenderam a suavidade das aves da aurora. Olham tanto para o alto e não os vêem, ouvem tantos cânticos nocturnos e não os distinguem. Penso que os ladrões de sinos se habituaram a ser caçados e depois a esperarem pela chuva penitencial. Há quem nunca aprenda com os erros! É que, os sinos, nem sequer foram feitos para ser roubados! 

 

Fotografia de Alice Caetano

Alice Caetano: Formação académica: Curso professores do 1º ciclo pela Universidade de Aveiro.

Licenciatura em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de ciências da Educação de Lisboa.

Profissão – professora do Primeiro Ciclo.

Livros publicados:

Poesia: “Depois do Ninho, a Água”; “Transmutações”.

Prosa poética: “Maçã de Zinco”.

Poesia, teatro e conto – “Espelho Convexo” (recomendado por Francisco Louçã).

Histórico-Biográfico: “Palco Sombrio – Guiné – Guerra Colonial e Actos Cénicos”  (recomendado por Francisco Louçã).

Livros em coautoria:

“Arranja-me um Emprego – crónicas e poesia para salvar o dia” – Editora Versbrava.

“Orgânico – Cinco Poetas, a mesma causa” (livro com carácter social) – Edição de autor.

“Xafir e a Feiticeira do Pântano” (infantil) – Alfarroba Publicações.


Participação na Antologia da Moderna Poética Portuguesa.

Participação em iniciativas do Movimento Democrático de Mulheres – MDM – com textos temáticos.

Membro do júri do Concurso “Aveiro Jovens Criadores”.

Poemas traduzido para italiano e publicados nas revistas Emergenza Climatica e Articoli Liberi.

Publicada pelo Jornal literário “RelevO” de Curitiba.

Realização de programas de rádio local de âmbito literário.

Escrita de prefácios em diversos livros de poesia.

Colunista na imprensa regional com artigos de opinião e crónicas políticas.

Segunda vencedora do 1º concurso de literatura polaco-português.

Distinguida pela Direcção Regional de Cultura do Centro como mulher de destaque no panorama cultural da Região Centro.

Elemento da Direcção do Grupo Poético de Aveiro.

Elemento do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal Manuel Alegre em Águeda.

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