Cultura

O bosque dos inconsoláveis | Joana Ruas

Foto de Sebastian Unrau na Unsplash

O homem não existe fora do humano. A única luta pela qual vale a pena lutar é a que se trava para que se cumpra o humano naqueles a quem a humanidade foi roubada. Não se lhe dedica uma obra para alcançar a imortalidade da obra mas para alcançar a existência humana para que esta se não perca na irrealidade.

 

Poucas horas depois do Presidente Ford dos EUA e do seu secretário de Estado Henry Kissinger terem deixado Jacarta, a 7 de Dezembro de 1975, a Indonésia invadiu Timor. A guerra contra o povo timorense enquadra-se nas guerras movidas contra as populações, guerras tecnológicas que se caracterizaram pelo massacre de populações desarmadas e pelo genocídio. A Indonésia de Sukarno que com o seu prestígio erguera em Bandung a bandeira dos não-alinhados, com o general Suharto regredira ao nível das potências colonizadoras, tornando-se uma inimiga do progresso e do desenvolvimento dos seus povos. Portugal, enquanto potência administrante, cortou relações diplomáticas com a Indonésia, apresentou queixa nas Nações Unidas e requereu uma reunião urgente do seu Conselho de Segurança. Houve várias resoluções. Apesar de perder votantes, a Resolução da Assembleia Geral de 28 de Novembro de 1977, mantém a condenação da invasão indonésia. Na fase seguinte, vence o senso comum realista da arte de não decidir do Conselho de Segurança em que imperava um consenso claro entre as cinco potências, membros permanentes desse Conselho, acerca do interesse estratégico da Indonésia como potência regional. 

 

Os Estados Unidos nomeiam como seu Representante Permanente  junto da ONU,  Daniel  Moynihan que no seu livro, «A Dangerous Place», relata  o sentido da sua missão sobre Timor Leste: «Os Estados Unidos queriam que as coisas corressem da forma como correram e agiram nesse sentido. O Departamento de Estado quis que a ONU fosse totalmente ineficaz em qualquer medida que tomasse. A tarefa foi-me confiada e levei-a a cabo com assinalável sucesso». 

 

 Causa espanto e medo como pessoas relevantes se sentem orgulhosas do seu sucesso que permitiu que sem darem um tiro se tornassem responsáveis pela morte de milhares de pessoas inocentes. Isso significa que nos nossos tempos as pessoas são avaliadas pelo seu sucesso, sabe Deus se a poder de abjeções e não por seus princípios e boas obras. Como nos tempos negros da servidão tudo está armadilhado para anular qualquer pessoa, povo ou acontecimento. Também o observador permanente do Vaticano na ONU, monsenhor Filippo, estando no conhecimento dos massacres ocorridos no território ocupado, imitando os governos australianos e americano, manteve a esse respeito um rigoroso silêncio. O apoio de grandes potências mundiais e regionais à invasão e ocupação do território e a descaracterização dessa agressão através dos meios de comunicação social, levou a que durante cerca de 24 anos o Conselho de Segurança das Nações Unidas deixasse o processo adormecido só voltando a pronunciar-se 23 anos depois. 

 

Apesar do esforço dos militares do MFA para a concretização do processo de descolonização interrompido, Portugal não estava na altura em condições de o levar a cabo pois eram extremamente poderosos os países cujas forças apoiavam a política anexionista da Indonésia: os Estados Unidos da América, a Austrália, o Japão e o Reino Unido. Contudo, Portugal não abandonou Timor-Leste e a 31 de março de 1976, a nova Constituição Portuguesa vinculou Portugal à responsabilidade de promover e garantir a sua independência. O Portugal democrático saído da alvorada de Abril, tomou sobre si a tarefa do resgaste da dignidade humana do povo timorense lutando nos fora internacionais pela causa da sua libertação e pela sua independência.

 

Os militares indonésios, uma vez senhores do território, proclamaram que os timorenses não eram pessoas mas gado humano, cobras votados ao extermínio.  Fechado ao exterior, era  total a obscuridade sobre o  que se passava no território. Foi pela voz do clero católico que a partir dos anos 80 ficámos a saber que o povo timorense estava a ser vítima de um genocídio. A denúncia chegou ao mundo pela voz do Administrador da Diocese de Díli, D. Martinho da Costa Lopes, que em Díli, no dia 13 de outubro de 1982, na homilia da procissão em honra de N.ª Sr.ª de Fátima e perante uma numerosa assistência de 12 a 15 mil pessoas, exigiu das autoridades indonésias o respeito dos direitos humanos dos timorenses, acusando a série de massacres ocorrida em 1981 em Santo António de Lacluta, de 500 timorenses, de  mulheres grávidas e de crianças e ainda de 80 por cento dos letrados ali levados sob prisão. O massacre de civis ocorreu depois dos guerrilheiros do Destacamento de Ligação Nacional, quando cercados pelo exército indonésio no Monte Aitana , terem dado  o corpo às balas, para não terem que disparar sobre os seus compatriotas indefesos, obrigados a cercá-los integrados nos chamados «cercos de pernas». Este massacre foi transcrito em 1983 pelo Prof. Barbedo de Magalhães segundo o testemunho de um missionário católico. O episódio do «cerco de pernas» e o massacre de Lacluta, ficou , pela mão do historiador José Mattoso, que aqui recordo, registado no seu livro que tem o sugestivo título de A Dignidade. Nesse memorável 13 de outubro, perante o povo, D. Martinho da Costa Lopes, declarou,: «Sinto a necessidade irreprimível de contar ao mundo inteiro sobre o genocídio que está a ser praticado em Timor para que, quando morrermos, pelo menos o mundo saiba que morremos de pé».  

 

Quem é este povo que ousou, perante um dos maiores e mais apetrechados exércitos do sudeste asiático, erguer a bandeira da resistência e proclamar a independência? Tratados com o desprezo de uma casta militarizada perante o seu gado humano, quem eram estes homens e mulheres excecionais que ao preço das suas vidas ousaram, na sua metade de uma ilha, isolados do mundo por terra, mar e ar e tendo para sua defesa apenas as armas que tinham de arrebatar  dos arsenais inimigos? Foi com esta pergunta na mente e com muita mágoa no coração que iniciei a escrita dos 5 livros que sob o título genérico de A Pedra e a Folha narram a luta de resistência travada em Timor-Leste pela colonização portuguesa e durante a ocupação indonésia do território. Depois da morte em combate da liderança histórica, apesar dos massacres e dos campos de concentração, o povo maubere quis  partilhar com os seus líderes um  calvário de ferro e fogo. Ao heroísmo das elites timorenses que ousaram proclamar a independência, correspondeu-lhe o do povo que debaixo de bombas e sujeito a sucessivos massacres, tendo-lhes resistido, sobreviveu. Para os que decretaram o fim da história, a dura resistência que opôs o povo timorense às potências hegemónicas que governam o mundo, a aparição da verdade contida  na sua longa resistência  restaura o acesso deste povo votado ao extermínio  à sua condição de pertença não só à espécie humana mas também a uma comunidade que com uma longa história continuava a fazer a sua história.

 

Inconsolável como todos os povos que sentiram sobre si o decreto e a espada do extermínio, na enorme prisão a céu aberto em que haviam transformado o território, uma língua torna-se necessária quando é um factor de dinamização e também de desenvolvimento social e moral. Com o território invadido, o português tornou-se num vínculo bastante forte e língua de comunicação da Resistência. 

 

Para uma abordagem literária deste período da história timorense tive que vencer o despotismo dos cânones literários  e não menos velhos preconceitos. Para um pacifismo que tudo consente , a guerra não pode ser pensada e escrita como outrora o fizeram escritores e poetas como George Sand, Victor  Hugo, Kleist, Goethe , Schiller e Tolstoï entre muitos outros. Tem sido através da literatura, sobretudo do romance que se tem tentado recoser os rasgões do passado nas memórias feridas pela desumanização.

 

No processo de escrita deste livro, procurei o testemunho do sobrevivente que pela sua importância ganha um estatuto muito especial. Ao  escritor, por sua vez,  tendo uma vista do conjunto, falta-lhe  no entanto a perceção  intuitiva da experiência. Fui, pois, várias vezes à República Democrática de Timor-Leste, recolher testemunhos  de homens e mulheres concretos e desvendar o modo como se desempenharam na história coletiva. Foi ao recolher os testemunhos que  de súbito, nos olhos que se baixavam, nas gargantas que se esforçavam por conter o soluço inconsolável que lhes estava encravado no peito, que me senti perante alguém que expunha perante mim o terrível desprezo a que estivera sujeita. As suas vidas consideradas irrelevantes como a dos animais a abater, esse atentado às suas vidas tinha que ser ocultado aos outros para parecerem  iguais a nós, os humanos. O aviltamento das pessoas estava também no número impresso no braço. Dividido o «eu» perderam-se na incomunicabilidade de si para si. Em muitos locais se tentava através da linguagem alcançar a comunicação do indizível. Perante este horizonte de solidão eterna e indelével, perante o incomunicável, restou-nos muitas vezes o silêncio. Para mim essa impossibilidade tinha de ser franqueada. O soluço obscuro  feito rumor profundo, essa morte coletiva que nos chega da noite dos tempos estava encravado na carne e  tinha que ser comunicado, tinha que ser solto para que algo de funesto se perdesse e algo de vital fosse achado. Vencida a tentação do que é cientificamente correto, com o seu aparato tecnológico de registo, foi com um pensar aberto e uma escuta afetiva dos acontecimentos privados e dos factos históricos, foi enfim  num darmo-nos  cada um de nós nas palavras, que aprendi a colher a flor dos  sentimentos e das emoções e recolher  os testemunhos necessários a esta narrativa. O meu mérito, se o houve, foi ter interpretado esse soluço obscuro, incurável, de uma humanidade destinada arbitrariamente ao extermínio. Percebi o que aquele testemunho tímido me dizia: num mundo de regras que se não cumprem, de terríveis omissões, de governantes sem ética, todos nós somos sobreviventes.

 

Os mortos que em vida foram heróis e que estão representados nesta obra, atravessaram rapidamente os pontos de intersecção do processo histórico e teria sido necessário que uma mão os tivesse fixado logo que se tivesse apercebido do alcance da sua gesta. Algo deles ficou para nós oculto e a menos que as línguas dos que com eles privaram se desatem, algo deles ficou perdido para sempre. É extrema a dificuldade de abarcarmos a complexidade das vidas dos que viviam então uma época heroica através dos breves traços achados no testemunho oral ou escrito dos sobreviventes pois o seu destino ainda surge aos olhos de alguns dos seus conterrâneos como um fracasso ou como uma ressurreição fulgurante na História.

 

Precisei do contributo dos poetas para a abordagem da guerra de genocídio que os timorenses sofreram resistindo. Rilke é considerado «o poeta do Humano». Na primeira Elegia de Duíno, Rilke descreve o instante crucial em que a alguém, face a um perigo mortal, sabe que nem homens, nem anjos lhe acodem porque essa é a sua natureza: «Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias  dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua natureza mais potente. Pois o belo apenas é o começo do terrível que só a custo podemos suportar, e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha destruir-nos. Todo o Anjo é terrível. Por isso me contenho e engulo o apelo deste soluço obscuro.» Da primeira Elegia de Duíno do poeta Rainer Maria Rilke (1875-1926) recolhi a expressão universal de quantos povos pertencem ao bosque dos inconsoláveis: «o soluço obscuro» que separa os afligidos dos outros e também de si próprios. Esta obra de Rainer Maria Rilke, foi considerada uma das  mais complexas dos tempos modernos pois exprime a inquietação pelas  transformações ocorridas na Europa e no Mundo pela guerra de 14/18, no campo da ciência, da tecnologia e da cultura. A Guerra de 14/18, a primeira tecnológica, mobilizou exércitos, populações, economias e os impérios coloniais dos Estados europeus, do Japão e dos Estados Unidos da América. O mundo da cultura não acompanhou a marcha dos regimes ditos democráticos na vereda das guerras coloniais. A carnificina dos campos de batalha desta  guerra  provocou uma imensa comoção entre os intelectuais e os artistas que integraram as hostes combatentes. Pela primeira vez na história das guerras a maior parte dos soldados não regressou a casa, e muitos foram os que não tiveram sepultura. A partir deste contexto, o soldado foi despido da sua pertença aos vivos logo  que chamado às armas. Para o estatuto da cidadania, as responsabilidades continuaram a ser públicas mas as dores continuaram a ser  privadas. Com a derrocada do mundo antigo e o nascimento de um espirito novo, a angústia da inteligência perante o futuro levou a que de um lado e do outro dos povos em guerra, os escritores, poetas e artistas tivessem poucos traços em comum como se vivessem em dois mundos diferentes e mesmo em duas épocas. Uns procuravam obstinadamente tudo o que numa Europa em devir seria ainda parte universal e perene enquanto outros se abismavam na contemplação do que ainda invisível se vinha afirmando. Havia o sentimento de que cada  homem está só num mundo  por outros «interpretado», e oposto ao mundo vivido.

 

Termino com o que Nino Konis Santana disse na carta  que escreveu a David Alex.: «As nossas alegrias, as nossas tristezas, a nossa dor, os nossos sofrimentos são também vossos, e é tudo isso que nos forja na luta e que constitui a coesão da nossa unidade, tornando inquebrantáveis os laços fraternos que nos ligam e nos unem na vida e na morte».

 

 

Fotografia de Joana Ruas

Nota biográfica: Joana Ruas  nasceu  na Quinta do Pinheiro em Freches. A sua vida literária teve início em 1976 com a publicação de  Poema do Êxtase no magazine de poesia e desenho dirigido por Herberto Helder, NOVA 2. A sua poesia está dispersa por jornais, antologias e revistas. Inicou a sua obra romanesca com o romance Corpo Colonial; O Claro Vento do Mar; A Pele dos Séculos.  Das Estações entre Portas, uma obra de ficção foi publicada na Escrituras Editora de S.Paulo. Trabalhou durante  anos  na escrita de uma obra  em 5  volumes  com o título genérico de A Pedra e a Folha , uma  metonímia que sintetiza os cem anos de Resistência Timorense —de  finais do século XIX até à Independência , numa luta de resistência nas montanhas e nas florestas de que A Batalha das Lágrimas e Crónicas Timorenses constituem o 1º e 2º volume . Sextante publicou o 3º volume, Os Timorenses (1973-1980). Foi editado pela Âncora o 4º volume, Os Timorenses (1980-1988)

 

Participou em colóquios e congressos entre os quais se conta o Colóquio Rilke, o Congresso Internacional sobre a Guerra Colonial, a 8ª Bienal  Internacional do Livro do Ceará ;no Colóquio Internacional António Salvado «O Caminho se faz por entre a vida» De temática timorense constam os textos: Lifau, Berço da Nacionalidade Leste Timorense do livro Timor-Leste e Portugal: Cinco Centúrias de Relacionamento  uma iniciativa do Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica; participou no I Congresso de Psicanálise de Língua Portuguesa-Violência, Memória e Identidade com o texto «Sobreviver, a sabedoria das bordadoras timorenses: a vida é feita , umas vezes a cheio e outras a desfiado» posteriormente editado pela Revista TRIEB da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro. Entre as suas obras contam-se textos sobre obras de autores portugueses como Baptista Bastos, Fernando Namora, Natália Correia, Herberto Helder, e de autores estrangeiros como José Ángel Leyva,  José Geraldo Neres, Vasco Cabral e  Stendhal. Publicou nas revistas  electrónica brasileira Agulha do poeta  Floriano Martins, Triplov de Maria Estela Guedes e na revista electrónica mexicana  La Otra 26 dirigida pelo poeta e escritor José Ángel Leyva, na revista ibero-americana de cultura Devir, dirigida por Ruy Ventura e Nuno Matos Duarte.

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