Política

29ª Cimeira Ibero-Americana e a necessidade de reforçar a cooperação entre países ibero-americanos | Wesley Sá Teles Guerra

Foto de Mikael Kristenson na Unsplash

A Cimeira Ibero-Americana de 2024, realizada em Cuenca, Equador, ficou marcada pela baixa presença de líderes latino-americanos. O evento reuniu principalmente figuras europeias, como o rei Felipe VI da Espanha, o presidente de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, e o chefe de governo de Andorra, Xavier Espot Zamora. Este cenário atípico, de uma predominância europeia em um encontro tradicionalmente intercontinental, é reflexo de diversas conjunturas, incluindo o encontro do Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico (APEC) no Peru e uma iminente reunião do G20 no Brasil.

 

A baixa adesão dos líderes latino-americanos levanta questionamentos sobre o futuro da Cimeira e o papel da Secretaria-Geral Ibero-Americana (SEGIB), a entidade organizadora, que enfrenta o desafio de revigorar este fórum, criado em 1991 para promover os laços e a cooperação entre países da América Latina e da Península Ibérica. A SEGIB, composta por 22 países, opera em um contexto de mudanças políticas e econômicas significativas, o que inclui as tensões regionais na América Latina e o impacto da política dos Estados Unidos na região, que pode ser exacerbado após as eleições presidenciais americanas.

 

A Importância da Cooperação Sul-Sul e Triangular

 

Nos últimos anos, a SEGIB tem dado especial atenção à promoção da cooperação Sul-Sul e triangular, como evidenciado pela recente convocatória de projetos de cooperação entre países ibero-americanos e os PALOP (Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa). Esta iniciativa é apoiada pelo Fundo de Cooperação Triangular Portugal/América Latina/África, graças a um convênio assinado com o Instituto Camões, busca conectar América Latina, África e Península Ibérica em torno de temas como educação, saúde, igualdade de gênero, mudanças climáticas e transformação digital.

 

A convocatória da SEGIB selecionou seis projetos de cooperação triangular que envolvem países ibero-americanos e africanos, fortalecendo a troca de experiências e a criação de soluções inovadoras para desafios comuns. Para a presidente do Instituto Camões, Florbela Paraíba, a convocatória “é um instrumento para a coesão destas três áreas diversas que enfrentam desafios comuns.” Além disso, o secretário-geral da SEGIB, Andrés Allamand, enfatizou o papel de Portugal como ponte entre a América Latina e o mundo lusófono e destacou a relevância da proximidade linguística entre o português e o espanhol como um facilitador para a integração e cooperação.

 

Desafios para a SEGIB e a Cimeira Ibero-Americana

 

Embora a SEGIB desempenhe um papel significativo na promoção da cooperação regional, a Cimeira enfrenta um contexto desafiador. A ausência de muitos líderes latino-americanos em Cuenca expôs tensões diplomáticas regionais, como a ruptura das relações do México com o Equador devido à invasão da embaixada mexicana em Quito. Além disso, os desafios de segurança e a crise energética que afetam o Equador, somados ao crescente impacto do narcotráfico no país, refletem as dificuldades comuns enfrentadas por muitos países da região.

 

Essas questões regionais são agravadas pela influência de eleições americanas nas dinâmicas políticas da América Latina. Em tempos de polarização global, onde o cenário político nos Estados Unidos pode impactar a estabilidade e a diplomacia regional, é essencial que os países ibero-americanos fortaleçam seus laços e adotem uma postura coesa. A cooperação promovida pela SEGIB, com suas iniciativas voltadas para o fortalecimento econômico e social, é fundamental para contrabalançar as influências externas e consolidar uma agenda comum para a região.

 

Necessidade de um Novo Fôlego para a Cooperação Ibero-Americana

 

A 29.ª Cimeira evidenciou a necessidade de reavivar a integração ibero-americana. Como ressaltou o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, o próximo encontro, previsto para daqui a dois anos em Espanha, poderá marcar o início de um novo ciclo para a comunidade ibero-americana. Esta renovação dependerá de uma abordagem estratégica que reforce a relevância das cúpulas e a atratividade do evento para todos os países membros.

 

Diante da fragmentação e das divergências políticas na América Latina, a SEGIB pode desempenhar um papel essencial ao promover a cooperação multilateral que favoreça a paz, a segurança e o desenvolvimento sustentável. Fortalecer as alianças entre os 19 países latino-americanos e os três europeus, bem como manter e expandir a cooperação com África através de parcerias triangulares, são caminhos que podem oferecer à região uma maior resiliência diante dos desafios globais.

 

Conclusão

 

A 29.ª Cimeira Ibero-Americana em Cuenca serviu como um lembrete da importância de uma maior integração entre os países ibero-americanos. Através de projetos de cooperação Sul-Sul e triangular, a SEGIB tem demonstrado o potencial da comunidade ibero-americana para abordar problemas compartilhados de maneira inovadora e colaborativa. No entanto, para revitalizar a cúpula e torná-la mais relevante, será necessário renovar compromissos e estratégias que enfrentem os desafios atuais da região, especialmente diante das mudanças políticas globais e regionais.

 

A SEGIB, com seu histórico de promoção de valores de solidariedade e cooperação, pode liderar essa renovação e consolidar um espaço onde os países ibero-americanos compartilhem uma visão conjunta para o futuro. Essa coesão e renovação são essenciais para garantir que a Cimeira Ibero-Americana continue sendo um pilar de integração e desenvolvimento para a Ibero-América, promovendo uma presença mais forte e assertiva da região no cenário internacional.

 

 

Fotografia de Wesley Sá Teles Guerra

Wesley Sá Teles Guerra, poliglota e hispano-brasileiro, escritor, professor e internacionalista. Gestor do Fundo de Triangulação e Cooperação Internacional Portugal, América Latina e Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa na Secretaria Geral Ibero-Americana. Autor dos livros “Cadernos de Paradiplomacia,” “Paradiplomacy Reviews: the Rise of the Subnations, Cities and Smartcities” e “Manual de Sobrevivência das Relações Internacionais”. Fundador do CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais e membro de diversas instituições internacionais tais como REPIT, IAPSS e European Consortium for Political Research (ECPR). Especialista em Relações Internacionais, Paradiplomacia, Cooperação Internacional, Gestão de Projetos Europeus e Gestão de Smartcities. Mestre em Políticas Sociais com Especialização em Migrações pela Universidade da Corunha, Mestre em Gestão de Smartcities e Doutorando em Sociologia e Transformações da Sociedade Contemporânea.

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