Cultura

No reino de Fundanga VII: Soça/Tebol | Xico Simonini

Foto de Javad Esmaeili na Unsplash

 

Xico Simonini

A Classe Dominante difunde a ideia de que

as chances são iguais para todos e de que pelo

trabalho e poupança é possível “subir na Vida”. 

 

     Este é o papo de seis simples Súditos, uns não tão simples quanto os outros: Brasilino (o Vassalo que começou a sacar onde está a sacanagem do Sistema); Doutor Roberto (o Capitalino, aquele cara que perpetua a sacanagem e que “só dá bom dia porque bom dia volta amanhã”); Boris Borrão (o Corifeu das sacanagens do Capitalino, salário estratosférico e que, ao deixar de ser útil, tomará certeiro pé na bunda); Zemaria (o Jornalista aguerrido e quase independente); Pepê (o Operário, o homem que mata no peito, baixa no chão e manda pro fundo da rede); Babaquino (o Vassalo que é babaca, babaca, mesmo).

 

     Um tanto quanto atordoado, interrogava o Súdito Brasilino: – Quem sou eu nessa? Onde tô? Tô jogando em qual Time? No meu ou no do adversário? Tô marcando gol contra as minhas próprias redes? Qualé, ô bicho?

 

     Arrogante, exclama o Doutor Roberto:

     – Eu sou o Dono do Espetáculo – a Burguesia Capitalista. O proprietário dos Meios de Produção – dinheiro, terras, máquinas e outros babados tais e quais. Eu sou eu mais eu e muito mais eu! O jogo é jogado do jeito que eu determino, o estádio é meu, a bola me pertence, compro os direitos federativos dos jogadores, o árbitro apita conforme meus Interesses, o ingresso custa meus desejos. Qual é o papo? Afinal, eu trabalho e Deus ajuda a quem trabalha – In God We Trust.

 

     Alienado, achando-se insubstituível, Boris Borrão procura justificar: – Eu sou o Treinador – pertenço à Classe Média Alta ou Pequena Burguesia. Pós-graduado na Folha University, PhD no Estadão School e pós-doutorado em The Globe. Meu salário é pago pelo Doutor Roberto. Luta de Classes e greve nem pensar! Organização social, sindical e popular necas de pitibiribas. “Isto é uma veergooonha!!!” Juntos chegaremos lá. Somos todos Iguais perante Deus e perante os homens. Contribuo com campanhas do agasalho, do quilo, da padroeira, do Natal e o escambau. Minha esposa faz caridade de todos os jeitos. Sou homem sério e cônscio das minhas responsabilidades. É bem verdade que, de quando em vez, dou meus pulinhos fora. Uma cerquinha aqui, outra cerquinha ali. Afinal, ninguém é de ferro! Tô com o Doutor Roberto pro que der e vier. Uma hora consigo montar meu próprio Time.

 

     Crítico, prega, com seus discursos inflamados e escritos gritados, o subversivo documentado e juramentado, neste e noutros Reinos, o companheiro e camarada Zemaria:

     – Eu sou o Analista do Jogo – a Classe Média Baixa ou Descrente na Burguesia. Alô! Alô! Galera querida, da minha terra querida! Eu sou o Comentarista! Aquele que subverte e que já sacou como foi elaborada a International Board do Capital x Trabalho. O resultado é manipulado permanentemente… Manhas e artimanhas criadas… Um pênalti aqui… Um árbitro comprado ali… As regras modificadas acolá… A bandidada ganhando sempre…

    

      Confiante, por sua vez, diz Pepê:

      – Eu sou o Jogador – a Classe Operária. O Assalariado Pleno, carteira assinada. Vendo minha Força-de-Trabalho. Integro o Time, sou titular e recebo ordens de todos – do técnico, do preparador físico, do árbitro, do dono-do-jogo, da madame do dono-do-jogo. Limpo o cocô e enxugo o xixi do cachorrinho da madame do Doutor Roberto. Impõem a tática, estabelecem salários, luvas e bichos. Sofro pressão permanente da Galera e da Imprensa. Enfrento até um tal de Exército de Reserva que eu não entendo bem o que possa ser. Tô sempre levando gol entre as pernas, mas, um dia, como faz o companheiro e camarada Zemaria, ainda grito, a plenos pulmões, Jogadores do Mundus Horrendus, uni-vos!

 

     Perdido, completamente, neste papo, com cara de goleiro frangueiro, fala Babaquino:

      – Sô o tar de Lumpen. Nus campu de futibor da Vida nóis é o gandula, o pipoquero, o sorvetero ou o sarsichero. O Lumpen ou o Marginalizado. Esses nomi qui intelectuá goista de botá ni nóis! Tenho uma purção di colega – biscatero, puta, subimpregado, camelô, catadô de paper e lata, eticetra e tar… Pois, quem tá c’oa razão é os Home mesmo, uai! É ês qui pode dá imprego pra nóis. Êis são caridoso mesmo! Greve, Sindicato e essas coisa toda só servi pra trapaiá. Os Home pode até num querê ajudá nóis, se nóis bubiar, e nem Deus, credo in cruiz, gosta dessas coisa. Tenho fé in Deus qu’Ele num vai botá ni nóis! Tô defendeno o meu até os Home achá qui eu mereço ganhá um imprego de verdade. Aí, nóis entra no Time, nem qui fô pra batê uma bolinha nos interval di jogo. Com o Esquema de Jogo da Sociedade Capitalista explicado, Brasilino tira suas sábias conclusões:

     – Quer dizer que o jogo é jogado assim? A Classe Média Alta e os Marginalizados, unidos, fazem o Jogo Capitalista, como se eles fossem Capitalistas. Caceta dos caraio! Então tem gente marcando gol contra seu próprio Time, sem perceber! Quanto à Classe Média Baixa e a Classe Operária, podem fazer o jogo para seus Times, se organizados, conscientes e lutadores. Vão acabar ganhando, num primeiro momento, os Marginalizados e, a seguir, a Classe Média Alta. Vão ganhar o campeonato. Vão democratizar o jogo. Ora, se vão!

 

     Em sendo assim… Pergunta, concluindo, Brasilino:

     – Neste injusto e louco Esquema de Jogo da Sociedade Capitalista, Liberal, Neoliberal ou seja lá o diabo do nome que se queira dar a esta empalação, onde é que entra mesmo o In God We Trust? Ou num trásti, cambada de Filhos da Mater et Magistra?

Fotografia de Xico Simonini

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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