
Entre o silêncio sofisticado de Ana Salazar e o grito bordado de Zuzu Angel, este artigo propõe uma reflexão sobre a “Moda” como linguagem política, lugar de memória e reinvenção da identidade feminina no espaço lusófono.
Esta crónica nasce da confluência entre a minha história e as histórias de mulheres que me atravessaram — que habitaram os meus caminhos, que deixaram marcas invisíveis em mim, e moldaram, em silêncio ou em grito, a forma como vejo o mundo.
“Mulheres em Construção” é uma tentativa de dar voz a essas presenças, que se fazem gesto, escolha e ausência. Cada palavra que escrevo é uma forma de honrar a multiplicidade e a constante transformação que é ser mulher.
Neste texto, a moda serve como fio condutor — não a moda efémera das vitrines, mas aquela que costura identidade, memória e resistência. Ana Salazar, de Portugal, e Zuzu Angel, do Brasil, são dois nomes que nos ajudam a pensar “o vestir” como um ato político, o corpo como espaço de afirmação e a criação como forma de luta.
Em tempos e contextos diferentes, ambas desafiaram padrões e redesenharam a silhueta do feminino com os tecidos do seu tempo.
Ana Salazar: O Silêncio que Veste
Há nomes que não seguem o tempo — redesenham-no. Ana Salazar é um desses nomes. Nos anos 80, quando Portugal tentava o encontro, depois de décadas de ditadura, Ana Salazar emergiu com uma estética que parecia um manifesto: cortes geométricos, cores sóbrias e silhuetas austeras. Era um tempo de reinvenção nacional — e ela desenhava, na pele, esse novo País que ainda tateava o que significava ser livre.
Ana Salazar não vestia corpos; vestia ideias.
A sua moda minimalista nunca foi fria — era densa, falava de contenção, de futuro, de desejo. E mais do que isso: entendia o corpo como um palco psicológico. Havia ali armaduras e fendas, recato e exposição. O “eu” que se vestia com Ana Salazar era um sujeito em negociação consigo mesmo e com o mundo. Um corpo que não obedecia só interrogava.
Os seus modelos dialogavam com o estilo da Bauhaus, com o construtivismo, com a vanguarda, mas não copiavam: apropriavam-se e reinventavam-se. A roupa era arquitetura pura e o corpo, território.
Não era a moda para agradar — era a moda para pensar.
E sim, incomodava. Acusaram-na de “intelectual demais”, “pouco feminina”, como se pensar fosse crime, como se contornar estereótipos fosse uma ameaça.
Ana Salazar ensinou-nos que uma saia, pode ser tão subversiva quanto um panfleto político. Que um desfile pode ser tão provocador quanto um editorial de opinião. E que, por vezes, o silêncio de um corte pode dizer mais do que qualquer slogan.
Zuzu Angel: A Moda como Grito
Se Ana Salazar desenhou o silêncio com elegância, Zuzu Angel gritou com agulha e linha.
No Brasil dos anos 60 e 70, em plena ditadura militar, a estilista transformou a moda num ato visceral. Após a morte do seu filho, Stuart Angel, assassinado pelo regime, Zuzu usou a moda como denúncia. A dor transformou-se em costura e cada peça transformou-se num corpo de prova.
Entre bordados de anjos torturados, tecidos com pássaros em fuga, cores do folclore brasileiro manchadas de luto — Zuzu fazia do vestuário uma crônica política e rompeu com a imagem da mulher dócil e ornamental. Propôs uma feminilidade combativa, que não se silenciava diante da violência.
A sua coleção “Brasil: Nunca Mais” é talvez o maior exemplo disso: um desfile que era também um protesto e se alguém se silenciava por medo, ela bordava e vestia a sua dor com coragem.
Zuzu é a prova de que a moda pode ser profundamente subversiva, de que um vestido pode carregar a força de um grito, de que, como disse Simone de Beauvoir, “não se nasce mulher — torna-se mulher”. E Zuzu tornou-se mulher na exata medida em que se tornou voz.
Corpos que Falam, Tecidos que Reivindicam
Tanto Ana Salazar, quanto Zuzu Angel, recusaram a ideia de que a moda é frívola. Para ambas, o vestir era linguagem, resistência e construção.
Cada uma, à sua maneira, revelou que o corpo feminino é um território — também um espaço de disputa simbólica e política.
Segundo Michel Foucault, o corpo é onde o poder se inscreve — mas também onde ele é resistido. É esse corpo que elas vestiram com ideias.
Ana e Zuzu criaram a partir daquilo que “incomoda” e a moda que propuseram não era sobre tendência; era sobre presença, era inscrever a história no tecido e desenhar o futuro na pele.
Em Portugal, no pós-revolução, e no Brasil, sob repressão, elas costuraram possibilidades, fizeram do design um discurso, do corte uma crítica e do desfile uma afirmação.
Mostraram-nos ainda que o feminino não é uma forma acabada, mas um processo em constante construção e que, às vezes, “vestir” é o mais íntimo e revolucionário dos atos.
Há mulheres que constroem casas e mulheres que constroem discursos. Ana Salazar e Zuzu Angel construíram trajes — e ergueram, com eles, universos. Através da moda, elas falaram de liberdade, dor, desejo, resistência e doutrinaram que não chega vestir um corpo — é preciso vesti-lo de sentido.
– E nós, hoje, o que estamos a vestir? Silêncios ou vozes?
Referências Bibliográficas
Barthes, R. (2006). O Sistema da Moda. São Paulo: Editora Perspectiva.
Beauvoir, S. de (2015). O Segundo Sexo Vol I. Lisboa Quetzal Editores.
Coutinho, B. (2016). Ana Salazar. Matosinhos: Cardume Editores.
Foucault, M. (1975). Vigiar e Punir: Nascimento da Prisão. São Paulo: Edições 70.
Fernanda de Queýroz
Fernanda de Queyroz é psicóloga, artista plástica, estilista e pesquisadora nas áreas de moda, arte e identidade. Estuda os cruzamentos entre corpo, cultura e linguagem visual, com enfoque na moda. Apaixonada por História da Arte, desenvolve projetos interdisciplinares que exploram o feminino como potência criativa e transformadora.










