
A maior parte dos negativos em tecnicolor, exibindo cenas do carnaval, foi perdida e depositada no Oceano Pacífico, no final dos anos sessenta ou início dos anos setenta. Um filme incompleto. Quatro homens numa jangada. Uma linha tênue entre eventos reais e encenados. Colagens da história do jazz contada em imagens, extraídas de conversas entre Louis Armstrong e Duke Ellington. Quem era o amigo Bonito? Ele divagava sobre o documentário It’s All True de Orson Wells, na sua famosa passagem pelo Ceará.
Naquela época ele ouvia seus discos de jazz de vinil a noite toda, e não saía de dentro do quarto. No projeto arquitetônico que desenhou, o banheiro não tinha paredes nem porta, era apenas dividido do resto do aposento por uma bancada de mármore. Havia uma jacuzzi embaixo de um jardim de inverno com samambaias. A radiola ficava sobre uma mesinha. Ele vivia num frequente estado de embriaguez, vestido num calção de banho, com uma taça de vinho branco na mão, apreciando o jazz da banheira de hidromassagem, que transbordava de espuma.
Depois vestia um roupão branco e deitava-se numa rede de algodão cru, armada no meio do quarto. A música se alternava com filmes de videocassete ou livros favoritos de poesia empilhados embaixo da rede, com preferência para os poetas beatnik e as obras completas de Fernando Pessoa. Neste momento da embriaguez, a abstração do jazz dava lugar ao sentimentalismo. Seu cérebro arquivístico estava inundado de memórias, que precisavam transbordar como a espuma da banheira. Muitas memórias de amor, mas também de perda e trauma.
Um de seus filmes favoritos era Crônica de Um Amor Louco, de Marco Ferreri, inspirado pelos contos do livro homônimo de Charles Bukowski. Um poeta torturado e acadêmico, Charles Serking, vagueia pela periferia infernal de Los Angeles, e entre bebedeiras e aventuras sexuais, fica fixado numa jovem prostituta misteriosa e autodestrutiva, representada pela belíssima atriz Ornella Mutti.
Esse filme causou grande impacto nele, que se identificou muito com o personagem Charles. Quando estava fora de casa, parava no supermercado para comprar vinho. Passou como ele a beber seu vinho dentro de um saco marrom de papel, usando os mesmo óculos estilo Ray Ban. Também deixou crescer uma barba, como uma espécie de camuflagem. Na verdade não precisava esconder sua bebida nas ruas, como se estivesse na América, enquanto caminhava pelas ruas ensolaradas do nordeste. Talvez na sua cabeça ele estivesse na Califórnia. No entanto, o saco de papel mostrava o logotipo do Pão de Açúcar.
Eu lembro com detalhes do filme, e nunca esquecerei a cena onde a prostituta perfura sua bochecha com um longo alfinete. Eu jamais tinha visto uma mulher se ferindo assim. Durante a seu atormentado relacionamento com o escritor ela se mata. Ele recai numa profunda perda e num abandono sexual.
Não sei quantas vezes ele viu este filme, mas acredito que foram muitas. Um dia ele teve uma crise convulsiva dentro da banheira. Veio uma ambulância que o levou para o hospital. Seu estado era frágil, exigia uma desintoxicação. Ele concordou com a internação numa clínica agradável no Rio de Janeiro, que tinha uma vista para o Pão de Açúcar.
Quando retornou parecia outra pessoa. Estranho, distante, calado. Passou a se vestir de branco e preto e a usar suspensórios. Era seu novo disfarce. Tornou-se um devoto das reuniões de alcoólicos anônimos. Mas sua obsessão era também de outra natureza, pois era homem de extremos. Foi ali que ele a conheceu, uma morena de lábios sensuais que parecia com Beatriz Dale. Sabia que teria problemas pela frente, mas não recuou. Ela modificou seu destino como a prostituta daquele filme. Causou-lhe êxtases e dores, e muitos anos depois teve também uma morte trágica.
Depois que ela morreu ele voltou a beber, e o álcool o acalentava com lembranças dela. Já não vivia na mesma casa, mas perto do mar. Caminhava lento, idoso, aposentado e solitário, com uma cuidadora insossa do lado, e sentava-se num banco perto das áreas das jangadas. Foi por ali que Orson Wells circulou, filmando e dialogando com os pescadores.
Um dia durante um sonho ele resgatou a lembrança de uma morte violenta. Foi de fato testemunha de um crime passional envolvendo uma vizinha, assassinada à queima-roupa por uma arma de fogo pelo marido. Ele era criança, um menino franzino. Estava vestido de marinheiro, saindo de casa com sua mãe, que impactada largou a bolsa e as chaves no chão. Foi no meio do carnaval. Talvez foi a sincronia do carnaval que deflagrou esta recordação onírica, pois tinha visto recentemente alguns foliões caminhando pelo calçadão na praia, além de crianças fantasiadas com seus pais a caminho de algum baile.
Aquela imagem tinha ficado com ele por muitos anos, como um fotograma congelado e agora resgatado das águas do seu inconsciente. Como os negativos do documentário perdidos no oceano. As coisas começavam a fazer sentido. Aquele nível de violência deve ter sido demasiado para seu cérebro tão jovem, para um menino sensível e tímido, hipnotizado pela forte presença daquela mulher, que parecia perigosa mas era uma vítima impotente, e pelo desejo de resgatá-la.
Essa mulher fatal era parte da sua anima, sua sereia, assim como o álcool. Afinal era ele o náufrago naquelas águas. Pensou consigo mesmo, como no início da narrativa de “A Dama de Shanghai”. Talvez eu viva por tanto tempo que nunca esquecerei dela. Talvez eu morra tentando.
Virna Teixeira nasceu em Fortaleza, é poeta, tradutora e escritora. Publicou diversos livros de poesia e estreou como contista com o livro ‘A Pupila’, que saiu pela Kotter no Brasil e em Portugal em 2022. Vive em Londres e trabalha como psiquiatra numa prisão inglesa. Virna dirige o projeto independente Carnaval Press e é editora da revista de literatura e artes visuais Theodora (www.theodorazine.com)










