
“A semente do verso que plantei
Não germina na pedra do meu peito…”
“Poema de Sete Faces“, Carlos Drummond de Andrade, 1930
Quando as espigas estão maduras e os grãos atingem a sua maturidade fisiológica, colhe-se o trigo. No nosso País, acontece nos meses de verão, precisamente na altura em que entra a chamada silly season, uma invenção britânica, de uso frequente nesta época, onde tudo (ou quase tudo) parece pairar acima das nossas cabeças, mas que a política de salão aproveita para tecer as suas malhas enganosas, distraindo os consumidores de informação, lançando-os numa espécie de pântano, onde ficarão permanentemente atolados até que os burocratas de todas as cores se decidam, ou decidam o que fazer deles. Conta, acima de tudo, a ilusão permanente de uma mudança sempre para pior que o imaginado.
Um evento, aparentemente sobrenatural está a ocorrer enquanto escrevemos e damos conta que algo se passa fora do vulgar. As deliciosas espigas, outrora pacíficas, ou pacificadas por ordem de alguém, estão a libertar criaturas ancestrais, com contornos ainda pouco nítidos, mas ameaçando uma mutação genética, que parece ter sido causada por algum agrotóxico experimental, ou quiçá (falta informação credível) devida a mudanças climáticas inesperadas. Resta a evidência, há hoje um reino agrícola que explora (os reinos sempre exploraram e continuam a explorar) e transforma os grãos em cápsulas para entidades parasitárias. Escusado será dizer, como é habitual, que (não) existe motivo para pânico, até porque o fenómeno chega a Portugal, algum tempo depois de ter sido detectado na Europa, sobretudo na zona onde reside uma implacável “união”, que se dedica a desgraçar os vizinhos, particularmente quando estes estão em estado letárgico considerável há umas décadas e (ainda) estão convencidos que vivem num paraíso pacífico, onde existem regras espartanas tendentes a proporcionar felicidade alheia, seja lá o que isso for. Aliás, até se pode dizer que o assunto é (como tantos outros) particularmente irrelevante, desde que as pessoas consumidoras (outrora designadas de forma ideológica, “cidadãos”) se dediquem exclusivamente a cumprir as regras estabelecidas, de tão “democráticas” que nem sequer admitem qualquer tipo de discussão, não valendo portanto o esforço de sequer as questionar. Quem o faz é, obviamente, um agente estrangeiro, vindo não importa de onde e que deverá ser imediatamente cancelado (versão moderna de “eliminado”), lá está a regra básica, a estabelecê-lo.
No final dos anos sessenta do passado século, mais precisamente em 1967, o escritor e guionista francês Albert Vidalie escreveu um poema, chamado “Les loups sont entrés dans Paris”, uma fabulosa alegoria da invasão alemã durante a II Guerra Mundial. Na sua forma mais ampla poderíamos associá-la à chegada de forças destrutivas para subverter as democracias nascentes. Assim como à época no poema de Vidalie, cantado por Serge Reggiani, aparecem os lobos, primeiro um, depois meia-dúzia, finalmente a matilha inteira, hoje vão surgindo “sementes assassinas”, primeiro uma e, mais ou menos na mesma sequência, até chegar às sessenta, um número capaz de destruir um celeiro inteiro. Diga-se de passagem, com a cumplicidade dos donos do celeiro, que acreditam na possibilidade, ainda que remota, em “recuperar” as ditas espigas e impedir a proliferação até ao nascimento das tais criaturas e à sua difusão nos interstícios sociais mais permeáveis. No poema, Vidalie conta como os lobos estavam já por toda a França e aconselhava a querida Elvire a não se rir e tomar a coisa a sério. À semelhança, poderíamos hoje aconselhar o burocrata-mor da Assembleia, a tratar a “semente-mãe”, como ela merece ser tratada.
Evoquemos o Homem distinto que foi Frantz Fanon, psiquiatra e filósofo político natural da colónia francesa da Martinica. Os seus estudos sobre os sistemas opressivos, que se enraízam e geram “monstros”, fizeram dele um símbolo da luta contra o colonialismo e o racismo, apoiando a guerra de independência da Argélia em relação à França, na qualidade de membro da Frente de Libertação Nacional da Argélia. Na obra que escreveu em 1952, “Peau noire, masques blancs” (em português, “Pele Negra, Máscaras Brancas”), Fanon partilha as suas próprias experiências e apresenta uma crítica histórica dos efeitos do racismo e da desumanização, inerentes na psique humana, a situações de dominação colonial. Fanon explora a forma como o racismo colonial planta “espigas” de inferioridade e alienação no colonizado, enquanto o colonizador internaliza uma superioridade fictícia. Espigas, portanto, assassinas como as de hoje, numa Europa desumanizada e desagregada pelas políticas sociais-liberais, apoiadas e desenvolvidas pelos “modernos” sociais-democratas de todos os matizes e que são responsáveis pelo ascenso da extrema-direita e do fascismo emergente.
Todas as narrativas que inundam as redes sociais são hoje “espigas” alimentadas pela desinformação na silly season permanente em que se transformou a política-espectáculo. São meias-verdades, falsidades e mentiras que demonizam minorias, enquanto glorificam a “identidade nacional”, como uma continuação da mentalidade colonial e, como tal, personificam o assassínio da verdade dos factos e de todas as utopias. Os fascistas detestam poesia, porque a poesia sabe resistir e apresenta-se normalmente como expressão de liberdade, subversão e humanidade, chocando com os burocratas dos regimes que controlam a linguagem, a arte e o pensamento. Lembremos, a propósito, que Federico García Lorca foi assassinado pelos franquistas na Guerra Civil Espanhola e que obras de Brecht, de Neruda e de tantos outros, foram queimadas pelos nazis. E ainda que os actuais nazis e fascistas europeus censuram autores russos, apenas por serem russos.
As espigas assassinas representam o ressentimento da terra contra a agricultura industrial. Toda a acção tendente a impedir o alastramento das “espigas assassinas”, ultrapassa o ciclo rural e o tempo histórico. Entende-se como uma necessidade imperiosa, um desafio à normalidade, a chamada à insurreição, porque o assassinato da dignidade não se pode tolerar.
20 Julho 2025
Alfredo Soares-Ferreira
Alfredo Soares-Ferreira é Autor de várias intervenções, comunicações e publicações sobre Cooperação e Educação para o Desenvolvimento, Cidadania e Geopolítica, em Portugal, Angola, Cabo-Verde, Espanha, Guiné-Bissau, Itália, Moçambique e Timor-Leste. É membro dos Colectivos “Porto Com Norte, Fórum de Cidadania”, “Fórum Manifesto”, “Liberdade e Pensamento Crítico” e “Tanto Mar”. É Redactor do Jornal on-line Diário 560. É co-Autor de “Portugal, Revolução, Unidade Socialista” (1977), “Bracarenses na Crise Académica de 1969” (2019) e “Paranhos em Poesia, Antologia Poética” (2021). É Autor de “Reflexos do Rio Torto” (2014), “Rio Torto- A Nascente” (2021), “Rio Torto- A Margem Esquerda” (2023) e “Escrita da Leitura” (2024). É Engenheiro de Telecomunicações, pós-graduado em Gestão e Estratégia Empresarial e em Administração Educacional. Actualmente aposentado de funções públicas, foi Consultor e Avaliador de Projectos Internacionais e Professor em diversos graus de ensino, secundário, profissional e superior.










