
A prosa de Mia Couto é leve, livre, solta feito uma linha de pandorga que a mão de um menino prende e larga, ao mesmo tempo. Uma prosa feita de imagens que envolvem a narrativa num manto de placidez ilusória – dentro do invólucro a carne dolorida se manifesta. Sem medo de tangenciar o romantismo, as mais densas e cruas histórias parecem atenuadas, diluídas, elevadas. Mas é a pura ilusão da magia da escrita; o escritor, como um ilusionista, manipula a realidade diante dos nossos olhos, transforma o natural em fantástico, e, o que parece ser sobrenatural, torna-se terra a terra.
Tido pela crítica especializada como um continuador do realismo fantástico (chamado, também, de realismo animista, para diferenciá-lo), leitor de Jorge Amado e Guimarães Rosa, só poderia o autor fazer uma amálgama original de suas confluências. Essa amálgama é feita com a massa do lirismo, da imagem, da metáfora. A narrativa é, dessa forma, um campo de experiência onde os neologismos tornam-se parte de uma construção (poderíamos dizer tijolos) maior: a história que se desenrola em certo tempo e espaço. Mesmo sendo lírico, é baseado em sua terra e país que o autor escreve. Regionalidade que aflora em todas as narrativas deste livro de contos O fio das missangas. O tempo é o que se expande e se contrai, nas almas e corpos dos personagens, que vivem suas vidas pequenas entre o mundo colonial que se esboroa na África e a realidade pós-colonial de Angola, com suas particularidades.
Representativo dessas missangas que fazem o rol de histórias do livro, temos o conto A saia almarrotada (pp. 29-32). O desencadear da narrativa é o presente de uma saia que a personagem ganha, sabendo que não poderá usá-la. Porque há uma outra característica na obra do autor, que é sua visão agudamente feminista, no tratar a vida das mulheres do seu povo. Com que delicadeza e profundidade Mia Couto revela os sentimentos mais íntimos dessas mulheres que, em meio de sua sociedade familiar, patriarcal, procuram sobreviver e ter uma vida plena, apesar de tudo e contra, às vezes, todos. Já no primeiro parágrafo mostra a personagem em seu ser mais oprimido: “Nasci para cozinha, pano e pranto. Ensinaram-me tanta vergonha em sentir prazer, que acabei sentindo prazer em ter vergonha”. (p. 29). Criada pelo pai e pelo tio: “Eles me quiseram casta e guardada. Para cuidar deles, segundo a inclinação de suas idades.” (p. 30). E segue: “As outras moças, das vizinhanças, comiam para não ter fome. Eu comi a própria fome”. (p. 30). A realidade é, pois, de dominação e pobreza. Dizendo: “Em casa de pobre ser o último é ser nenhum. Assim eu não me servia. Meu coração já me tinha expulso de mim”. (p. 30).
No abandono e alienação de si mesma só a espera de um homem, que transformaria a sua vida, parece que lhe dá alento. A realidade é muito dura, seca, feita de abandono e maus-tratos. Um amor há de vir que despertará nela todas as potencialidades de corpo e alma que estavam, desde sempre, submetidos às regras e normas de sua vila e família. Esse renascer é prenunciado pela personagem: “Esse homem me daria, por fim, um nome. Para o meu apetite de nascer, tudo seria pouco nesse momento.” (p. 31). Instada pelo pai, para que não desabrochasse, leva a valiosa prenda, a saia que ganhara escondido, e que lhe era tão valiosa em desejos, sonhos e volúpias, para o fundo do pátio – para queimá-la. Pela primeira vez desobedece àquela voz de mando “Era essa voz que fazia Deus existir”.
Essa personagem sem nome narra sua vida muitos anos depois, e conta que não botou fogo no vestido, mas em si mesma. A saia tinha sido enterrada numa cova. Na idade de muitas rugas quanto “pregas têm este vestido”, ela ainda pede ao pai que a permita usá-lo. E fica a olhar a saia: “Agora estou sentada, olhando a saia rodada, a saia amarfanhosa, almarrotada”. (p. 32). O último neologismo diz tudo sobre a personagem.
Artigo do professor Adaylso Wagner Souza de Vasconcelos, da Universidade da Paraíba, sobre o conto de Mia Couto, analisa-o sob o ponto de vista do feminismo:
O referido conto discute no seu âmago a cultura de excessos e castrações promovida pela sociedade ocidental patriarcal que, herdeira de uma dezena de preceitos judaico-cristãos, destina à mulher a margem social. O silenciamento, as opressões e a busca de liberdade são algumas das cicatrizes identificáveis quando a intenção maior é calar a voz feminina. Diante desse cenário, Mia Couto desenvolve seu conto, apresentando a nós uma mulher anônima que, apesar das adversidades, tenta romper com esse padrão e buscar a liberdade. A narração é realizada em primeira pessoa e um fato bastante interessante é a epígrafe contida na mesma – O estar morto é uma mentira. O morto apenas não sabe parecer vivo. Quando eu morrer, quero ficar morta (Confissão da mulher incendiada). Só essa epígrafe resultaria em inúmeras interpretações e nas mais variadas vertentes de análise. Assim, a opressão feminina já vem sendo denunciada, de forma direta, desde a epígrafe. (VASCONCELOS, 2014).
A personagem sem nome do conto vive toda a vida sob a submissão patriarcal, que a condena a uma existência de desejos e sonhos contidos e, a maior parte das vezes, fechada no seu corpo e na sua alma. Envelhece sem ter vontade, a voz dos maiores repercutindo sempre aos seus ouvidos/inconsciente, tornando-a um joguete das normas ancestrais. A saia sendo a única forma encontrada de sentir o mundo em si, de cingi-lo ao próprio corpo, de ter nele a única forma de amor pretendida: a espera de usá-lo algum dia, o que a transformaria nela mesma, um ser desejante e desejado.
A vontade de matar-se é uma forma altamente lírica usada pelo autor para a personagem ter, enfim, realidade e vida própria. Em vez de queimar o vestido como o pai lhe ordenara, coloca fogo em si mesma. Os irmãos a salvam da morte, mas de certa maneira a impedem de expressar-se mais uma vez: “lancei, sim, fogo sobre mim mesma. Meus irmãos acorreram, já eu dançava entre labaredas acarinhada pelas quenturas do enfim”. (p. 32).
Só na velhice a voz que tudo lhe ordenava parece diminuir de intensidade e poder, e a personagem pergunta: “Posso agora, meu pai, agora que eu já tenho mais ruga que pregas tem esse vestido, posso agora me embelezar de vaidades? Fico à espera da sua autorização enquanto vou ao pátio desenterrar o vestido do baile que não houve.” (p. 32).
Só no fim da vida mesquinha que teve, sempre adiada a felicidade, é que ela tomará, enfim, o seu destino nas mãos, como toma pela última vez aquele vestido como metáfora de memória e despedida.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
COUTO, Mia. O fio das missangas: São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
VASCONCELOS, Adylson Wagner de Souza: A saia almarrotada, de Mia Couto, e o vestido, de Adélia Prado: a vestimenta como mecanismo de memória. In: Cadernos Imbondeiro. João Pessoa, v. 3, n 2, 2014. https://periodicos.ufpb.br/index.php/ci/article/view/21698 Acessado em 19 de junho de 2024.
José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil. Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.










