Ma’adim Vallis
uma estátua nada é além de matéria bruta. já o pensamento, sem corpo, alcançou a liberdade absoluta. nenhum corpo me possui.
construir
perdidos em ilusões venéreas
atores invisíveis
onde menos se espera
arcabouços
guilhotinas e correias
nas alturas
onde pássaros veraneiam
palavras rarefeitas
no azul das superfícies liquefeitas
no verde da várzea
onde a putrefação regenera sombras
oferece delírios aos reis do Congo
que é do homem
a procura de frases nos introitos
da Macedônia
: se há poemas
estarão nos desertos de Marte
onde marcianos
camuflados de pirilampos agitam-se
em moléculas inexistentes
olho
a porta que me olha
: abismo ou túmulo?
fecho os olhos
diante do bloco pesado da noite
um morador de rua
caminha por longo e largo corredor
de soberba construção
de pedras sobrepostas com domo barroco
a sustentar um silêncio movente
e moribundo
cujo olhar busca a noite despida de limiar
nada sei
do que me olha
nem vejo
no que me olha
formas
imagem pós-guerra!
qual silêncio
está mais dilacerado
: o de dentro
ou o próprio fora?
a forma me olha
mas vejo nela um silêncio de auroras
moldes moventes
como traços de uma vila destruída
de corpos mutilados
de uma história interrompida no grito
de uma granada
o silêncio
por movente não é apenas o não-dito
visível em Beckett e Tony Smith
é presença
sombra incorruptível da comunicação
que verdade
pode haver nesse bloco de noite
que guardei
ainda jovem em lugar seguro
e que retorna
cheio de fantasias e máscaras
nesta outra madrugada?
o corpo
tateia a noite
bloco negro
caixa acústica
de sombras
e mistérios
: vago olhar
da noite onde dança
um vagalume
o vestígio
me faz pensá-lo corpus
um traço
talvez nistagmo da coisa
destroçada e corrompida a ser exumada
e devolvida a seu lugar
depois de longo inventário dos ossos
e das vísceras
em seus estratos, mantos e limbos
: descobre-se o cristal!
e a orquídea
levanta as pálpebras
olho exposto
a retramar a textura
da coisa
: isto me olha!
tudo
olha o cego
conectado
no farináceo
das orgias
deambulantes
das falas
sem genitália
Carlos Pessoa Rosa, neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, mas por lá também tem outros livros nunca premiados.










