
O outono debruçado na janela. Tremulam a palmeira e a primavera lilás. Vivaldi: Bajazet. O frio navalha afiada a singrar invertebrados fluídos do luto. Isolar-se. Pôr-se só. Toda a pirotecnia dos espelhamentos cotidianos não seduz e nem tem serventia a qualquer tipo de fingimento. O medo trafega os pertuitos inalantes da morte. Emerge das catacumbas até então esquecidos os vapores fúngicos da transitoriedade do corpo. Vem de fora harpia sonoridade do caos. Abutres rondam os céus com suas garras no aguardo. Conciliar a fadiga do frio diante da solidificação da luz. Arrepiar as fímbrias do silêncio e gerir um calor surdo a aquecer o vazio antes repleto de holofotes e falsas narrativas. Matizar os pelos, unhas e tegumento não devolvem os sensores vitais. O espetáculo especular de narcíseos lisiantos sinaliza o último habitat.
O outono debruçado na janela. Talvez um último tremular da natureza. O som de anagramas do caos: asco, saco, soca. Gases a insuflar o hepatizado pulmão agônico. Passos pacientes da morte; no aguardo do escolhido. Isolar-se. Pôr-se só. Medo. Impudica cortesã. Ficam as inutilidades servis de uma ilusão vivente: bens, impostos, contas, selfs e as inúteis narrativas. Borboleta em vida exige uma última metamorfose em alegro. Para a maioria, insuportável é a materialização contínua da morte a inibir os sustenidos gustativos do gozo. Por isso, digo não ao invasor. Não serei a mesa farta de sua festa. Vai me devorar sem o prazer de encontrar em minhas vísceras qualquer indício de medo. Para mim, a morte não passa de um pôr-se só definitivo, o ponto onde metamorfose do corpo é para sopro… invisíveis borboletas em outono debruçado em Café Zimmermann.
Carlos Pessoa Rosa, neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, mas por lá também tem outros livros nunca premiados.










