Cultura

José Duro e Augusto dos Anjos poetas da tuberculose | José Eduardo Degrazia

Por John Everett Millais - Google Arts & Culture

Nasceu o poeta português José Duro na cidade de Portalegre em 1875 e faleceu em Lisboa em 1899, aos vinte e três anos. Considerado um poeta decadentista, de caráter melancólico e de personalidade romântica, publicou um único livro em vida, a coletânea de poemas FEL em 1899, alguns dias antes de morrer. Doente de tuberculose, desenganado da vida e esperando pela morte, sua poesia é um lamento de dor e de descrença ante a certeza da juventude que se esvaía e da vida sem perspectiva. De índole romântica, influenciado por Cesário Verde, António Nobre, Antero de Quental, Guerra Junqueiro e Baudelaire, escreveu uma poesia onde a matéria era a única certeza, e o fim de tudo sendo o destino das coisas. Tendo a influência negativista da época, não chegou, no entanto, a ter uma visão de mundo que o levasse a fazer uma obra cosmogônica. Sua produção é quase toda em dodecassílabos, principalmente sonetos. O soneto Tédio, p. 21 do livro Fel, Guimarães Editores, Lisboa, 1983 – dá a noção da personalidade do poeta:

 

                                Ando às vezes boçal e sinto-me incapaz

                                De encontrar uma rima ou produzir um verso;

                                Fazendo de mim mesmo a ideia de um perverso

                                Capaz de apunhalar alguém à luz do gás.

 

                                 Incomoda-me a Cor, o sangue do Poente

                                 – Waterloo rubro de que o sol é Bonaparte –;

                                 Não compreendo, Mulher, como inda posso amar-te

                                 Se tenho raiva, muita raiva a toda gente.

 

                                 ‘Té onde a vista alcança alargo o meu olhar,

                                  E creio enquanto existe uma nódoa escura

                                  Que as lágrimas do Choro hão de jamais lavar…

                 

                                   Estranha concepção! Abranjo o mundo todo

                                   E em cada estrela vejo a mesma lama impura,

                                   E em cada boca rubra o mesmo impuro lodo. 

 

O poeta brasileiro Augusto dos Anjos nasceu no engenho Pau D’Arco, na Paraíba, no ano de 1884 e faleceu em 1914, com trinta anos de idade, de pneumonia; tendo passado grande parte de sua vida com a tuberculose como companheira. Tendo um perfil mórbido e pessimista, o poeta, influenciado pelas correntes positivistas, evolucionistas e cientificistas do final do século XIX, conseguiu na sua obra final, mais madura, ter uma visão de mundo que o coloca entre os pré-modernistas brasileiros. O soneto Budismo moderno, do livro Toda a poesia de Augusto dos Anjos, Paz e Terra, Rio de Janeiro, 1976, p. 86, cristaliza em versos sua visão de mundo:

 

                                BUDISMO MODERNO

 

                                Tome, Dr., essa tesoura, e…corte

                                Minha singularíssima pessoa.

                                Que importa a mim que a bicharia roa

                                Todo o meu coração, depois da morte?

      

                                Ah! Um urubu pousou na minha sorte!

                                Também, das diatomáceas da lagoa

                                A criptógama cápsula se esbroa

                                Ao contato de bronca destra forte!

 

                                 Dissolva-se, portanto, minha vida

                                 Igualmente a uma célula caída

                                 Na aberração de um óvulo infecundo. 

 

                                 Mas o agregado abstrato das saudades

                                 Fique batendo nas perpétuas grades

                                 Do último verso que eu fizer no mundo.

 

A relação dos dois poetas é muito forte, independente de Augusto dos Anjos ter vivido mais e de ter conseguido fazer obra mais adequada aos novos tempos que surgiam no século XX. São muitos os pontos de contato e de visão de mundo entre os dois poetas pessimistas. Lemos em José Duro, na p. 25, no último terceto do soneto Coveiro:

 

                             Um corpo que exumei, alucinadamente,

                               Em ânsias de remorso, em raivas de demente,

                               Pra poder beijar-lhe a apodrecida boca.

 

E em Augusto dos Anjos encontramos a mesma desilusão diante da carne e da matéria e com imagens parecidas, como no soneto Versos íntimos, p.124 do livro já citado, no último terceto:

 

                               Se a alguém causa inda pena a tua chaga,

                               Apedreja essa mão vil que te afaga,

                               Escarra nessa boca que te beija!

 

Os dois poetas trabalham a dureza da vida e da morte com imagens muito semelhantes, devido ao contexto intelectual da época em que viveram. Os dois poetas fizeram versos mais amenos e líricos, que em outra oportunidade mostrarei. Aqui procurei mostrar as semelhanças entre Augusto dos Anjos e José Duro, ambos representativos do mundo decadentista – ao mesmo tempo do universo materialista e cientificista do final do século XIX e início do século XX. 

fotografia de José Eduardo Degrazia.

José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951.  Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil.  Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.

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