
Se tomada como verdadeira a hipótese de que a poesia decorre de multimilenares cantos de trabalho, logo se percebe a condição humana complexa de que é originária. A uma, porque o trabalho produtivo não foi a condição natural do homem, nascido coletador dos frutos dadivosos da vida, forçado, na transição do comunalismo primitivo para o escravismo clássico, sob o estabelecimento mandamental do senhorio, à coisificação da disciplina laborativa. A duas, porque as dores do corpo, travestidas em males da alma, demandaram o remédio dos cantos memoráveis, para que suportassem os escravizados a labuta diuturna instituída pela desigualitária ordem senhorial, em busca do excedente e do comércio, na agricultura, na pecuária e no artesanato.
Não havia escrita e já existia poesia. Com o advento das civilizações letradas, um dos destinos da poesia foi o da sua sublime presença nos Livros Sagrados, do que são exemplos Vedas, Mahabharata e Bhagavad Gita, no hinduísmo, Tao Te Ching, no taoísmo, Torah no Judaísmo, Bíblia Sagrada, no Cristianismo, Avestá, no Zoroastrismo, Alcorão Sagrado, no Islamismo e outros e mais outros, sem o olvido de Rikkokushi, no Xintoísmo. Na esfera da afirmação da personalidade guardadora, bem como criadora, surgiram os aedos, ou cantores, na tradição grega, tecendo o belo ao som da lira, às vezes próximos, às vezes distantes dos rapsodos, cujas narrativas celebravam as epopeias dos ancestrais, tornando os antepassados contemporâneos das gerações emergentes e porvindouras. Ilíada e Odisseia, de Homero e Eneida, de Virgílio, da Grécia para Roma, refinaram, sobremaneira, a referida tradição, alcançando a estatura de paradigmas na poesia épica universal.
Nas estradas poeirentas do mundo medieval, em manifestação multissecular, na convergência de poesia, fé, festa, crítica e irreverência, a Carmina Burana Lieder aus Benediktbeuren, que tem na edição da Anaconda uma das mais cuidadas, testemunha o poder transversal do canto enquanto expressão do ser em seu confronto com a vida do mundo. No Renascimento, com o humanismo ibérico, foram colecionados, na Espanha, o Cancionero, de Hernando del Castilho e em Portugal, o Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, em que cerca de 2000 poemas, escritos por 528 artistas da palavra trilharam os caminhos morais, satíricos, líricos, religiosos, épicos e dramáticos, entre outros, para exprimir o universo humano em seu confronto com o fado.
Na conjunção de poeta e de músico, Domingos Caldas Barbosa, nascido no Rio de Janeiro e falecido em Lisboa, com a publicação de Viola de Lereno: collecção das suas cantigas, offerecidas aos seus amigos, no ano de 1798, na Officina Nunesiana, em Portugal, vinculou expressamente o Brasil à tradição ibérica, enriquecendo-a com a luz tropical da mestiçagem afro-brasileira. Ora, se o Brasil estava dentro, na linha de continuidade transfigurada no tempo histórico, o Maranhão, esta Atenas, esta Roma da cultura nacional, não poderia ficar de fora. E não ficou. Desde a fundação do humanismo nacional brasileiro pelo incontrastável Grupo Maranhense, em que exceleu Manuel Odorico Mendes, tradutor da Ilíada e da Odisseia, de Homero e da Eneida, de Virgílio, transcriando as epopeias gregas e romanas.
Quanto ao inexcedível Gonçalves Dias, fundador da consciência nacional brasileira, encontrou em seu caminho o músico espanhol D. José Zapata y Amal, fundador da Imperial Academia de Música, que transformou em canções os poemas “A Concha e a Virgem”, “A Leviana”, Canção do Exílio”, “Meu Anjo Escuta”, “Pedido”, “Por um Ai”, “Se Muito Sofri já, não mo Perguntes”, “Se Te Amo, não Sei”, “Seus Olhos” e “Uma Visão”. Musicaram ainda poemas gonçalvinos Artur Napoleão, Elpídio Pereira, J. Queirós, R. Romano Denis, Marcelo Tupinambá, Quirino de Oliveira, Haydn, Agostinho Cantú, João Gomes Júnior, João Portaro, Miguel Izzo, Francisco Braga, Luís Heitor, Nunes Garcia, Henrique La Peña, Araújo Vieira, Alberto Nepomuceno, Henrique Osvald e Paulo José de Sousa. Foi um casamento celebrado na cultura maranhense entre poesia e música, que encontrou em Catulo da Paixão Cearense, cuja biografia ora é muito justamente reclamada por Salgado Maranhão, um devoto da causa da beleza, visível em:
“PUPILA AZUL
A Mademoiselle Lucienne Dumanoir
Tens a pupila azul! De azul tão linda,
que o azul que ela irradia e que vem dalma,
é o mesmo azul do manto azul infindo
da superfície azul do mar em calma.
Tens a pupila azul! E quando choras,
as lágrimas, velando-te a pupila,
são como o doce orvalho das auroras,
que sobre um lírio azul, treme e cintila.
Tens a pupila azul! E quando nela
um relâmpago azul fulgura ou arde,
lembra o fulgor azul da estrela vésper
encravada no azul do azul da tarde.
Essa pupila azul, que se exaltando,
se um dilúvio de cólera a incendeia,
parece o azul da onda esbravejando,
raivosamente azul, por sobre a areia”.
Simbiose entre poesia e música renovada em sua permanência, quando Monturil gravou, pelo selo da RCA Victor, o elepê “Marimbondos de Fogo”, celebrando a poética sonora de José Sarney. Ou quando “Onde Andarás?” integrou o primeiro álbum solo de Caetano Veloso, trazendo consigo a letra-poema fulgurante de Ferreira Gullar, que viria a ser parceiro de Raimundo Fagner em “Me Leve (Cantiga para não Morrer)”, “Traduzir-se” e “Borbulhas de Amor”, versão da obra de Juan Luís Guerra. Gullar ainda em parceria com Milton Nascimento, Sueli Costa, Adriana Calcanhoto e, ninguém mais, ninguém menos, do que Heitor Villa-Lobos, no “Trenzinho do Caipira”. Ou também em Bandeira Tribuzi, autor de “Louvação de São Luís”, hino oficial da Ilha do Amor, bem como de dezenas de músicas inéditas, sem o olvido de que a sua poética foi musicada no cedê “Pão Geral – Tributo a Tribuzi”, produzido pelo saudoso Celso Borges. Salgado Maranhão é presença irrecusável nesta linhagem, julgando que todos os seus poemas são, potencialmente, letras de música.
Há uma lírica musical na cultura maranhense projetada para o Brasil, consignada no canto sonoro de Nonato Buzar, Chico Maranhão e Zeca Baleiro. Viola D’amore dedilhada por Sérgio Habibe, César Teixeira, Josias Sobrinho, Chico Saldanha, Giordano Mochel, Fernando Atalaia e Aziz Júnior, valendo por todos, sem desdouro de ninguém. Canto soberano renascido e reinventado, do desterro para o continente, por Joãozinho Ribeiro, livre engenheiro do som harmônico na lira e na palavra. Eis o estatuto de Safra de Quarentena, na qual, de entremeio a males e a dores, o canto pendurou a lira no salgueiro, para que Orfeu pudesse tocar o corpo expresso na sequência ora chamada à colação:
INCONDICIONADO
Sou poeta!
Nem do bem,
Nem do mal.
Apenas acometido,
Desde sempre
De um surto
Extrovertido
De cidadania total.
PROTEÇÃO DIVINA
Dizem que Deus
Costuma proteger
Os bêbados,
Os loucos
E os poetas
Que teimam
Em suicidar-se
Todos os dias.
PÃO & POESIA
A poesia
É o pão de cada dia
Para ser compartilhado
Entre a boca e a fome
De quem nunca enfastia.
ORDEM E PROGRESSO
Não quero ordem
Nem progresso
Só quero excessos
De paixões
De amores
E de canções
A INSUPORTÁVEL ESPERANÇA
Em tempos sombrios
Me assombro.
Mas não tombo
Nem me escondo
Pois carrego nos ombros
Comigo,
Teimosa como a lembrança
A sombra insuspeita
Da insuportável esperança.
Apolo, filho de Zeus, pode retirar a lira do salgueiro, posto que, em si, as moradas da música e da poesia são unas, havendo aposentos para a cura, a profecia e a justiça, na infinita busca da construção de uma ordem autêntica e emancipatória de todo Homem e do Homem todo na desafiante vida do mundo. O canto de Joãozinho Ribeiro, nada tem de planglossiano e não deserta da luta corporal com a complexidade do real, que não é racional, ao contrário do defendido por Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Safra de Quarentena, mais do que um interregno, muito mais, é um compromisso existencial com a inegociável redenção do mundo por meio da necessária utopia da arte e da beleza, para que a vida renasça: humana, afetuosa e solidária. Vida do mundo a ser transfigurada pelo estado de poesia. Em tom maior. Por Joãozinho: Ribeiro afetuoso de poemas e de canções.
Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.










