Poesia & Conto

Novos territórios | Sofia Correia

Foto de Kerem Colakoglu na Unsplash

NOVOS TERRITÓRIOS I

Uns dias após o funeral 

do meu avô paterno,

de abalada para a América,

despedia-me da minha avó.

Nunca antes a tinha visto 

chorar junto à casa branca 

que ele havia construído 

no cimo do cerro.

 

E o mar dava a volta

ao horizonte a Sul

a atar os montes 

às casas, às estradas, 

às pedreiras, às vilas, 

às praias e aos faróis.

 

E o frio gelava cada canto

dos olhos e dos ossos.

 

E uma vizinha veio

ao nosso encontro.

E a sua mão nodosa 

embateu de rompante

contra o rosto saliente 

da minha avó.

 

Basta mulher 

que já lá vão três dias.

 

E a ventania agitava o branco 

dos cabelos e o luto dos xailes 

de ambas — como bandeiras.

NOVOS TERRITÓRIOS II

Durante o funeral 

do meu avô paterno,

seguia o carro funerário

a acompanhar a minha avó.

Nunca antes tinha eu vindo

tão à pressa da América,

a adiar reuniões, a trazer

a nova família.

 

E um mar de gente

seguia-nos lentamente

inundava a rua 

de passos, de calçada, 

de lamentos, de silêncios,

de luto e de casacos.

 

E o frio gelava as cantarias 

suspensas sobre a vila.

 

E o meu marido ia à frente

a caminhar ao meu lado.

E os seus braços estrangeiros

erguiam ao colo a nossa filha,

tão nova, tão perfeita, 

a única bisneta.

 

Oh, vieram de tão longe

só por três dias.

 

E da multidão ela sobressaía

no seu novo vestido preto

de veludo — como bandeira.

fotografia de Sofia Correia. Autora da fotografia: Lydia Lee.

Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center.  Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau.

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