
Na sua voz de harpa estreitando as ancas sedutoras em frente ao rio, Ojos de Árbol acertaria o percurso da indocilidade, nomes que ainda lembrava torridamente na corrida confusa que a fazia perdurar como se suas tranças se diluíssem naquelas águas, suas, mas de quem mais? De que forma? Aquelas doçuras sanguíneas, como sabê-las sem o toque sussurrando no eloquente segredo da boca?
Estariam nítidos os seus lábios como botões musicais, tocando a argila morna, salivando ardores. Como? Para que? Ninguém entraria em sua vida de forma casual. Assombro amoroso, memórias sorridentes embebendo-a até não ser turva, sem qualquer curvatura que não promulgasse seu reflexo: ela, num céu sem descanso sentindo-se como se morresse de estar viva. Ao barco e suas raízes invisíveis, confessara que não, não quisera o martírio insinuante da mão pregressa, as costas do dilúvio que nunca a inundara suficientemente. Via a colina e se sentia guardando-a numa suspeita de sorte. As sementes de cedro se abrem em forma de flor e têm uma pequena pluma por dentro para acarinhar o vento que as leva mais longe para nascerem: são belas e lhe permeiam a vida desde a infância. Há um pé de cedro em frente à sua casa que a saúda todos os dias. Ama as árvores porque as vê como a si mesma – a natureza inteira é-lhe fala e linguagem.
“Sou insistente e fluida na fruição onde me sinto. Vivo a surpresa, a dialética de ser prolixa como as rosas silvestres e as abelhas que lhe colhem o pólen, mesmo em meio aos alfinetes presos em seus galhos. Vivo esse anônimo rito de aferir os livros pelas capas, as campânulas que pendem invertidas à minha disposição de abri-los. Escapes à minha dessemelhança: assaltam-me dúvidas de onde me perdi – não sou a que fora um dia e, se não sou, o que me tornei? A ilusão, a desconhecida de mim? Nessa balbúrdia ensurdecedora eu me encontro, e, em seguida, fujo-me.
A melancolia culmina no coração, e as palavras são o receptáculo. Se, para ser sincera, eu disser qualquer nome, não o faria para a ocultação e a mentira. Quando o amor emudece e se diz em frágil descuido, em fome. Desde as tardes cercadas de um ardente vazio, em que me sinto beirando tua voz sem ferir-te com o medo e, com os braços em forma de frutos, desfaço a curva da tua fala, os olhos de miragem desértica, a paixão pedinte não é mais minha, mas tua. Teus lábios submissos, esbranquiçados pela sede oculta, queimam ao poente. Se a palavra não é tão valiosa quanto o silêncio, não a digas. Acordo e me coloco de pé, não mais ao teu lado. Por que esqueci? Não sonhei nem neguei a vida, mesmo diante da morte, certa como o céu. Eu e tu somos estrelas que algum dia ousaram olharem-se sem a presença dos espelhos. Perdendo o fôlego para o amor. Eu era inteira eu. Hoje sou eu pela metade: minha vida é ter sido inteira eu e ser eu pela metade – incicatrizável. Nada sou, nada tenho, tudo é do mundo. Quisera voar sem perder nenhuma cena dos pássaros azuis. E essas asas não são de papel, mas de signos e oráculos. E aquelas horas que não lembrarás nunca de ter vivido ao meu lado, o meu gesto de ir? Aquele ponto sem lugar, aquele sinal invisível, aquela felicidade discreta e a dor silenciosa. A alma em compaixão de cinza. Os espinhos existem para acompanhar a raridade. Chove. O chão se honra. Sou rio em contínua mutação. O Nilo: mãe de toda a humanidade”.
(no livro Luz. Edição de autor: 2024)
Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, Brasil, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Litteralux 2015), A licitude dos olhos (Ed. Litteralux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed.Litteralux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed.Litteralux, 2021), Diário dos inícios (Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, 2021), Luz (Edição da autora, 2024). Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra a Academia Cascavelense de Letras, e o FotoClube Cascavel.
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