
Resumo: eis um dos dilemas modernos: adoptar as vontades ditadas pela consciência, eventualmente representadas pelo espírito revolucionário, ou as vontades ditadas pela inteligência, representadas nomeadamente pelo espírito profissional? As vontades são relações físico-químicas que evoluem no espaço-tempo, dentro e fora dos corpos vivos capazes de aprender a viver com a violência dos elementos. Para dirigir vontades, há estados de consciências de vária ordem, individuais e colectivos, que se ocupam diferentemente de vários níveis virtuais, alguns deles criados artificialmente. O estudo arqueológico da inteligência revelará a evolução dos mecanismos panópticos que modernamente separam em níveis tendencialmente estanques as filosofias das práticas, o que se diz e o que se faz, aquilo em que se sonha e aquilo que acaba por se viver, as consciências das inteligências.
Há coisas, como as guerras e os genocídios, a escravatura e a tortura, que não deviam poder ser assim, à observação de qualquer consciência moral. Porém, tais coisas estão banalizadas de tal modo que são tratadas profissionalmente, sob a tutela de quem de direito. Cabe às pessoas conscienciosas esperar pelos resultados práticos das actividades imorais superiormente determinadas, os factos consumados.
Empenhadas nas respectivas profissões, a maioria das pessoas dedica os seus esforços a focar-se naquilo que está encarregue de fazer. Quando lhe ocorre que pode estar a colaborar com imoralidades, prevalece o espírito profissional de concentração no seu trabalho, ignorando o que o possa distrair. As notícias são produzidas e recebidas como entretenimento e/ou propaganda.
As pessoas estão conscientes. A sua consciência moral, porém, dobra-se frequentemente perante a inteligência, nomeadamente a inteligência usada para subir na vida e, em geral, para explorar intensivamente o meio ambiente e a própria humanidade.
As pessoas modernas podem ser descritas como vítimas-cúmplices das guerras e genocídios praticados em seu nome na medida em que são a retaguarda dessas guerras e genocídios. Fazem-no geralmente com má consciência – as sondagens mostram regularmente que as pessoas não querem guerras ou genocídios – mas mobilizam as respectivas inteligências socialmente treinadas eventualmente de forma científica para continuar a fazer aquilo que lhes mandam fazer para obter o rendimento de sobrevivência.
O que a ciência nos oferece para entender melhor a cumplicidade belicista e profissional das vítimas? O que se sabe sobre como funciona a síndrome de Estocolmo? O que se sabe sobre os contornos do sequestro que leva as pessoas modernas a comportarem-se dessa maneira? O que se sabe sobre as raízes sociais da emergência de movimentos neo-nazi-fascistas e do mundo da psicologia de massas?
Segundo António Damásio, as consciências funcionam originalmente para assegurar a homeostasia, para assegurar a harmonização das diferentes partes e níveis dos corpos vivos estendendo-se para o meio exterior, nomeadamente por via social. Os seres vivos, e também as pessoas, construem nichos de espaços-tempo objectivos-subjectivos em que a sua forma específica de viver, culturalmente escolhida e socialmente imposta, floresce ou fenece. Corpos sem consciência são cadáveres. As consciências sem corpos não existem, embora existam níveis de consciência partilháveis e partilhados resultantes das dinâmicas de incorporação e de expressão, de epigenética e de filogenética, do tipo das descritas por George H. Mead sob a designação científica de self.
Por exemplo, a reintrodução do lobo no parque de Yellowstone transformou a fauna e flora de um modo surpreendente, de um modo que os cientistas não previram. Fenómenos com esse são descritos acontecer em diversas partes do mundo, como quando um fogo gigante deixa incólume pequenas propriedades em que a densidade da vida vegetal se auto-protege, lições que são estudadas pela permacultura e que tardam a ser aplicadas globalmente. Será abusivo falar de consciência vegetal? Há quem pense que as relações químicas que se sabem existir entre as raízes das plantas numa floresta, se soubessem falar, poderiam contar uma história. Já que quando se desbrava um bosque ou se ara uma terra essa história por contar é quebrada para recomeçar de novo, como acontece com os genocídios: há uma perda de solidariedades e memórias de experiências que protegiam esses ambientes de doenças e de outras agressões do meio, como os fogos ou as águas em excesso.
A natureza, incluindo a natureza humana, é imaginada ser fixa desde sempre e para a eternidade. Herança de crenças religiosas que tardam em perder influência. Cada parte, como ensinou Descartes, é estudada separadamente para desenhar fronteiras entre a religião (o estudo das almas, entendidas como excessivamente dinâmicas e livres em relação às realidades sociológicas e culturais) e a ciência (o estudo da criação, excessivamente fixa).
O raciocínio cartesiano, próprio do estádio actual das nossas ciências, não antecipa a relevância dos processos homeostáticos psicológicos, ambientais ou sociais, os desenvolvidos para lá da capacidade intelectual de acção dos indivíduos (“penso, logo existo”), para lá das partes. Para Descartes, a mente é uma tábua rasa onde Deus pode desenhar (como ideal-tipo, diria Max Weber) a representação verdadeira, original, do projecto criador. Ainda hoje, grande parte da ciência gira em torno de teorias ou paradigmas (Kuhn, 1970) e secundariza os dados empíricos, muitos deles produzidos em laboratórios para se conformarem às teorias, como notou Prigogine (1996).
A ciência especializou-se e profissionalizou-se. Afasta o pensamento holista (Schofield, 2018) mais exigente e perturbador. Os estados de consciência que acompanham os pensamentos complexos são apresentados como misteriosos e inalcançáveis ou até fraudulentos, só porque se dá preferência à formação de profissionais treinados para obedecer a quem lhes pague um salário. As ciências disponíveis não estão habituadas a estudar as estórias de criação empírica de níveis de realidade (Dores, 2005), no caso concreto o nível dos predadores de Yellowstone e o nível criado localmente pela permacultura resistente aos fogos, estórias que apontam a reformulações radicais da experiência aos níveis previamente existentes, seja na criação de solo, seja na regulação do meio ambiente.
O cepticismo com que os avisos de cientistas sobre as alterações climáticas têm sido recebidos tem os seus fundamentos na própria ciência normal que entende os níveis de realidade – o do meio ambiente e o da sociedade – estanques entre si, quando nunca esse foi o caso ou poderá vir a ser. Os diversos níveis de realidade são construídos e destruídos pelos elementos e também, no seu raio de influência, pela humanidade, com consequências cósmicas mais ou menos relevantes.
O facto de ser surpreendente para a generalidade das pessoas que a criação de um nível de realidade mexa com o meio, com o todo, dá-nos uma noção da falta de consciência que temos sobre o impacto que as nossas vidas têm nos meios sociais e ambientais, e vice-versa. Como um investigador criminal, se se quiser entender porque assim é, há que procurar quem beneficia com isso. Por exemplo, a mobilização da humanidade para a missão imperial de explorar a Terra, fazendo a guerra e os genocídios.
A inteligência dividida profissionalmente em disciplinas e subdisciplinas perde a consciência do todo, aliena-se da realidade. O que explica a surpresa com que os povos indígenas, socializados em conhecimentos holísticos, observam a determinação dos brancos em destruir a natureza-mãe. Que estupidez, pensam eles em voz alta sem nos conseguir convencer em substituir a inteligência e as ciências promovidas pela nossa civilização (Acosta, 2013). Estupidez que os resultados ambientais estão a revelar de forma irreversível e trágica.
O que tornou notável o trabalho de Damásio foi a coragem de explicar que as consciências são virtuais, criam níveis de realidade superiores criados para regular a vida e as relações da vida com o exterior dos corpos. Um pouco como as almas são percebidas pelos cristãos ou os programas pelos informáticos. Com a diferença de que as consciências não são autonomizáveis dos corpos nem do meio em que vivemos. As consciências não sobrevivem aos corpos e estes não sobrevivem em ambientes hostis.
As consciências dizem respeito ao todo do organismo envolvido no meio em que vive, sem se localizarem fisicamente em lado nenhum do corpo. Imaginamos a consciência no cérebro, mas nenhum cirurgião a encontrou lá. É uma imagem culturalmente produzida para corresponder ao preconceito mecanicista e elitista da nossa civilização que não corresponde à verdade científica. A ideia de que o Homem se distingue por ser inteligente.
A ideia de o Homem ser inteligente é errada porque, embora seja comum o leitor identificar-se com esse Homem, como notou Descartes, esse Homem só existe quando pensa (“Penso, logo existo”). Quem pensa holisticamente, por exemplo, quem não pensa cartesianamente, arrisca-se a não existir. Quem sabia que os lobos de Yellowstone eram parte integrante do parque e não deveriam ser extintos foi tomado, e continua a ser tomado, por selvagem. Quem protegeu a sua casa com permacultura torna-se uma curiosidade usada por teorias da conspiração. A inteligência – ao invés da consciência – é um conceito discriminatório: só têm inteligência algumas pessoas, geralmente homens brancos imperialistas, e apenas quando lhes é reconhecida a existência, quer dizer, quando dizem e fazem aquilo que quem tenha o direito de avaliar (os fiéis ao semimilenar projecto imperial de exploração da Terra) considere ser inteligente.
O facto de serem virtuais, como as imagens dos écrans, permite às consciências interagirem directa e profundamente com os corpos vivos de que são parte e com o meio ambiente. Retroagem para dentro dos corpos, com os esqueletos, com os músculos, com as vísceras, com os órgãos. E interagem com os sentidos e com as relações dos corpos com os meios exteriores, incluindo os meios sociais, constituindo vários níveis de consciências.
Nas sociedades modernas, as escolas, a comunicação social, o sistema político, as profissões, são instituições especializadas de produção de consciências sociais divididas capazes de criar e manter nichos de mobilização de inteligência mecânica, cartesiana, especializada, alheados do meio exterior. Aí florescem profissões ao serviço de instituições que funcionam como panópticos: cada trabalhador no seu posto elabora a melhor maneira de justificar ao seu empregador estar ali. É supervisionado superiormente por quem guarda informação privilegiada de controlo para a entregar tratada ao nível superior, e assim por diante até ao topo.
Nestas condições, tomar consciência do todo e agir em conformidade tornou-se paulatinamente uma atitude revolucionária cada vez mais difícil de desenvolver. Há várias décadas, as elites dividem-se sobre manter ou transformar o modelo de desenvolvimento para ter em consideração o meio ambiente. Nitidamente, a transformação não está em curso, apesar das sucessivas COP´s (Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas).
O avanço das tecnologias, claro, tem conseguido coisas impensáveis, como a exploração espacial ou a internet. Porém, apesar das imensas possibilidades para promover a liberdade, os usos que se tem feito das tecnologias continua a ser panóptico (O´Neil, 2016): conduz os trabalhadores e os consumidores a trabalharem para as elites como profissionais, alheados de grande parte das suas próprias consciências, das sociedades de que fazem parte.
O vigor da ideologia meritocrática produzido pelos crescentes níveis de escolarização e profissionalização hiper-disciplinados promove cegueira das consciências, mesmo as dotadas de mais inteligência. Os movimentos sociais pelo clima têm sido impotentes para apear a hegemonia do pensamento cartesiano. A recente criação de níveis de ciber-realidade está a ter efeitos de recomposição das consciências e das inteligências humanas que podem ser observadas em diferentes gerações (Haidt, 2024). A evolução da vida na Terra continua a fazer o seu caminho. A actual grande extinção de espécies é acompanhada pela criação de um novo nível de consciência treinado para lidar com o ciberespaço.
As elites entendem-se como quase-deuses, chefes dos chefes. Aprenderam a monopolizar o acesso a bens de primeira necessidade e a fornecer discriminatoriamente brinquedos, como automóveis, aviões ou acesso a toda a informação do mundo, exigindo em troca a fidelidade hierárquica aos trabalhadores, aos colaboradores que acreditam estar assim tão enriquecidos quanto possível. Os trabalhadores que não têm acesso aos brinquedos acreditam que não o merecem e agradecem por ter direito aos meios de subsistência, coisa que falta a uma grande parte da humanidade.
As elites, ninguém o desconhece, são exploradoras da Terra e da humanidade. Mas têm sabido evitar as consequências do ódio que tal missão suscita nas pessoas e nos povos. Têm sido capazes de reconquistar a sua confiança reinventando formas de derrotar as denúncias contra elas desenvolvidas por fortíssimos movimentos sociais, como os da abolição da escravatura, da aristocracia, do patriarcalismo, do clericalismo, do capitalismo, do colonialismo, do totalitarismo. Quando não podem com as expressões da consciência das pessoas, as elites juntam-se-lhes, declaram-se elas mesmas abolicionistas, e lideram as acções e as transformações da consciência apelando e obtendo a graça da integração social dos seus próprios interesses, traindo logo que podem a confiança dos movimentos revolucionários. A história, a começar pela história das ciências, mostra que as elites não toleram a inteligência que não sabem usar em seu proveito, a inteligência que questiona os seus privilégios e a suas imoralidades, a começar pela mania da exploração. A transição verde é apenas mais um exemplo das inteligentes armadilhas em que estão sequestradas as nossas consciências.
Referências:
Acosta, A. (2013). El Buén Vivir – Sumak Kawsay, una oportunidad para imaginar otros mundos. Icaria&Antrazyt.
Bentham, J., Miller, J.-A., Perrot, M., & Werrett, S. (2000). O Panóptico. Autêntica.
Corballis, M. C. (2011). The Recursive Mind – The Origins of Human Language, Thought, and Civilization. Princeton University Press.
Damásio, A. (2020). Sentir e Saber. Círculo de Leitores.
Dores, A. P. (2005). Os erros de Damásio. Sociologia, Problemas e Práticas, 49.
Foucault, M. (1999). Microfísica do Poder. Graal.
Goleman, D. (1999). Inteligência Emocional. Temas e Debates.
Haidt, J. (2024). The Anxious Generation: How the Great Rewiring of Childhood Is Causing an Epidemic of Mental Illness. Penguin Press.
Kuhn, T. S. (1970). La structure des révolutions scientifiques. Flammarion.
Markovits, D. (2019). The Meritocracy Trap: How America’s Foundational Myth Feeds Inequality, Dismantles the Middle Class, and Devours the Elite. Allen Lane & Penguin Books.
Mead, G. H. (1924). The genesis of the self and social control. International Journal of Ethics, XXXV, 251–277.
Milgram. (2011). Psychology: Electric Shock Experiment (Milgram Experiment). Em http://www.youtube.com/watch?v=4b7YFtiE5EA
O´Neil, C. (2016). Weapons of Math Destruction. Penguin Books.
Prigogine, I. (1996). O Fim das Certezas. Gradiva.
Renn, J. (2020). The Evolution of Knowledge – Rethinking Science for the Anthropocene. Harvard University Press.
Sandel, M. J. (2020). The Tyranny of Merit. Penguin Books.
Schofield, J. (2018). The Real Philosophy of Science. Smashwords.
António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e https://libertacao.hypotheses.org/










