
A forma e a experiência de mundo que saem ao encontro do pensamento obnubilado, com menos respostas que perguntas, a poesia contemporânea radica, sorvendo o excesso (ou a falta) de sentido, o lugar de existência – desperto para o mundo em torno dela. Nesse processo, emerge sua potência tão mais atual quanto ampla, em condição que não se basta à doma dos vocábulos, tampouco, a de seus contornos. Ao contrário: expande-se, mesmo que a contrapelo da ordem e tempo regulares. O intempestivo exercício sinaliza o poético à sabedoria das coisas, que a perscruta, dando a vê-la em sua sinuosidade. Se a filosofia já é de difícil circunscrição, a poesia, de natureza expressa e, notadamente, mais irrestrita e transmutável, encontra-se em condição similar, graças à sua elasticidade especulativa, por força de demandas de toda sorte, na hesitação de sua própria sapiência e mediania. Por isso, e, não raro, “no ir e vir constante, em que o dentro e o fora têm subvertidas suas fronteiras e antagonismos, imagens visuais se mesclam a fragmentos de memória poética, filosófica […]” (PEDROSA, 2014, p. 76), zelando de suas múltiplas inflexões no exercício lato da arte.
É natural que a poesia, ao flertar não apenas com as demais artes, como com outros modos sistêmicos do pensamento, especialmente, a filosofia, invista-se de um semblante escrutinador, e se entregue à rubrica de “fruto estranho” – para citar a expressão que Florencia Garramuño (2014, p. 11) toma de empréstimo de Nuno Ramos. Dito isso, as manifestações estéticas, incluindo a poesia, passam a ser, então, degustadas como “frutos estranhos”, e assim o serão por contemplarem mecanismos e expedientes insólitos. É isso que as tornará dispositivos
[…] difíceis de ser categorizados e definidos, [uma vez] que, nas suas apostas, […] misturas e combinações inesperadas, saltos e fragmentos soltos, marcas e desenquadramentos de origem, de gêneros – em todos os sentidos do termo – e disciplinas, parecem compartilhar um mesmo desconforto em face de qualquer definição específica ou categoria de pertencimento em que instalar-se. (GARRAMUÑO, 2014, p. 11-12).
Antes da busca pelo conceito banhado de teorias, há de se observar que reside exatamente nisto, nesse aguardo, o sentimento de suspeição com saldos sentenciosos, cujos contornos indeléveis não são outra coisa que a sua própria fragilidade, pretextando o fixo ao residual. Assim, seu escape se dá: sob o anúncio de uma materialidade poética ambígua – para dizer minimamente – com o desv(ar)io de quem, em sendo descoberto como potencial transgressor das normas, sabe enfim que o melhor dos sismógrafos resulta inútil no imenso campo minado em que se encontra. O que urde na verticalidade da forma não tarda, com efeito, em grassar por territórios maiores, reconhecidos no elogio às suas frestas, fissuras, rastros, arestas violadas – fazendo horas passarem na
(ir)resolução da poesia. Eis o horizonte que se apresenta na contemporaneidade, nos meandros de sua expansão ao (in)finito da nuvem, o cloud storage. Nas redes socialmente investidas de leitura e interlocução em tempo real das produções. E ao extremo, que dizer da iminente asfixIA, que realiza, emulando poesIA, que a entrega e supera (?)
Dos modos da arte de se afigurar é ela, a poesia, uma das muitas, cujo princípio estrutural não se justifica no restrito, pois avança com concessões, impossibilitando sabê-la sem considerar o beijo que dá nas demais (plata)formas de expressão. Ao se espraiar num propósito que revisite ou ressignifique sua produção, o corolário, decerto, será uma injunção de expedientes ciosos de sua influência, porque se expressam na incessante interrogação do mundo. Esse processo amplifica o estatuto conceitual da poesia a uma abertura, cujo alcance condiciona os esforços de sua representação às potencialidades que a realidade, em plena flutuação, se nos apresenta – contemplada no comezinho, no cotidiano vulgar, no miúdo das coisas, à enormidade das causas e nos debates engajados e políticos de resistência. Aos que se propuserem dar passos curtos para dela se aproximarem não lograrão êxito – aos poucos, tomarão nota de que o poético não se rende tão só à sua organicidade, que, para além de sua própria borda, responde e (per, plata)forma, com latência e riqueza de deta-lhes, o real (qual virtual) à sua volta. As elucubrações sobre a natureza da poesia bulem, assim, com tenacidade, nas questões de fundo existencial, na sua representação (de)flagrada na urgência – forçosamente sensível ao campo da (in)significância (?) Nele, as coisas são postas, e pensar sobre elas, a partir delas mesmas, no velado de suas faces, propiciará, em termos fenomenológicos, a doação de sentido – tão cara aos poetas, na medida em que eles, conforme já diriam Khattate e Hermpartian (2006, p. 106), em tradução livre, não cessam de “interrogá-lo, de sondá-lo” e de dizê-lo à sua forma. (Em que pese, por ora, o seu notável esvaziamento.)
O alcance do que não era notado passa a adquirir no presente, sob o bombardeio da informação, excesso de imagens, estímulos e algoritmos – o signo da (in)distinção, indicando não a mera reprodução habitual das coisas ou situações, mas adentrando sentido outro, qual seja, reconfi-gurando-se ou se desconfigurando, a cada intervenção poética. Com a descoberta, nela o (des)encantamento embevece, e o poeta é tomado por uma afecção capaz de fazer erodir palavras norteadoras da paisagem no horizonte, apaixonadamente, apercebida – investida de olhar tentacular. Ao horizonte, a horizontalidade das coisas. Estas, como fenômenos que são, (re)instalam-se, e, na pena do poeta, funcionam como a estrela-guia dos versos, transformados em significância relevante, malgrado o sejam banais, sob o que há de mais original na expressão. A vida e suas miudezas – ou, como diria Georges Perec (2010, p. 179), o “ruído de fundo” – são motivos para as razões da linguagem que, de sua vez, se propõe a pensar o mundo (re)tomado no esconderijo de suas qualidades inúmeras.
Ao fazer isso, o poético irrompe “fora de si” – a expressão é de Ana Kiffer (2014, p. 47), aprofunda na imaginação, atende ao trânsito dele mesmo através da corporeidade que lhe é exterior e acaba por promover “um certo deslocamento, mais além, uma profunda dissociação entre um ‘eu mesmo’ e algo fora dele” (KIFFER, 2014, p. 52; grifo da autora). Ao mesmo tempo, parte de quem observa o saldo das coisas à sua volta – no que respeita ao deslindamento de sua forma e no vislumbre senão do que se desconhece ao menos das particularidades inerentes a elas. Nesse sentido, a poesia, no modo sinteticamente ajustado de lançar-se às coisas, se enuncia
[…] [a] cada coisa apercebida [que] merece ser desenvolvida numa narrativa que a rememore. Só se esquematiza para concluir mais rápido. Mediante o quê se reduz, sem feitio nem aura, a exuberância das singularidades a uma ideia diretora, a uma palavra de ordem, a uma lição definitiva (DIDI-HUBERMAN, 2018, p. 77).
É se distanciando muitas vezes dessa “lição definitiva” que o poeta não hesita em se posicionar no e perante o mundo, e tudo o que nele está contido e necessita de atenção, metamorfoseado em estilo e num devir singular que afete as formas de ser (DIDI-HUBERMAN, 2018, p. 78). É preciso, pois, que “[…] elas [as formas] falem enfim do que é, do que somos” (PEREC, 2010, p. 179). Conquanto nada sejamos.
Com verve lírica e comumente atípica, numa forma que muitas vezes chega a se assemelhar ao ensaísmo de certos textos filosóficos, o poeta tece suas considerações sobre o que lhe salta aos olhos, ora datado pelas circunstâncias à sua volta, ora tensionado como pedra de toque existencial, cuja sensibilidade, intrépida no seu modo de se relacionar, se descobre tanto na ponta que o faz sentir quanto na ponta que o faz pensar – “pensar com as mãos”, como diria Marília Garcia –, eis o elogio da técnica, desde que meditada na sucessão e decifração das práticas de escrita. Estas brotam de estímulos desembrulhados das afecções, imprecisas no tracejo, porém, enfáticas na sua importân-cia – no (in)comum explorado, sob o fluido mais subjetivo. Integram a paisagem que se pluraliza, endossando o sentido da percepção e a forma com que ela interpela o poeta e dita o desafio de se fazer ouvir como voz e como perspectiva do horizonte a refletir e friccionar a mundividência de quem, aqui e agora, fala e/ ou (se) escuta. No ensejo da paisagem específica, dela se apropriando, ao aceno do absoluto perspectivado (COLLOT, 2010, p. 205-206), o poeta contemporâneo se arre-messa. Pois
[…] toda paisagem é percebida a partir de um ponto de vista único descobrindo, para o olhar, uma certa extensão, a qual corresponde apenas a uma parte do país em que se encontra o observador, mas que forma um conjunto imediatamente abarcável. Ora, cada uma dessas características testemunha, à sua maneira, o elo que une a noção de paisagem à de horizonte (COLLOT, 2010, p. 205-206; grifos do autor).
Persistindo ainda na fenomenologia, cumpre ao poeta engendrar a paisagem nas imagens que compreendem o horizonte, porém, nesse caso, em condição subjetiva, de modo a entender que “o horizonte aparece assim como a fronteira que me permite apropriar-me da paisagem, que a define como meu território, como espaço ao alcance do olhar e à disposição do corpo. Pois a paisagem não é mais apenas vista, ela é habitada” (COLLOT, 2010, p. 206; grifo do autor). Nesse caso, a renúncia aos domínios absolutos de acomodação estruturalista que enclausuram a escrita torna-se obrigatória para que possa restituir à obra poética, no caso, seu horizonte, notadamente, elaborado com doses de percepção e sentido vários, ou mesmo sua ausência, que não deixa de ser/ ter seu sentido. Sucede, assim, uma reeducação perceptiva a despeito da poesia, tanto de seu próprio espaço, quanto daquele que a produz, contemporaneamente.
O que é ponto de partida de leitura das relações de sujeito com o mundo – o fora que descreve o dentro, mas também o dentro que descreve o fora –, coincide com uma larga – porém, não menos rigorosa – abordagem do poético, quando da atenção dada à experiência sensível e às estruturas de linguagem provenientes de um contato particular com o mundo nunca antes tão deslimitado como hoje. Restituir à obra seu horizonte, faz com que sujeito e objeto, visível e invisível, imaginário e real, real e virtual etc., passem a se relacionar de modo solidário e a abrirem caminho para “uma margem inesgotável de indeterminação” (KHATTATE E HEMPARTIAN, 2006, p. 104) poética. Mais: para uma leitura de mundo que se está em (des)construção, e é passada em revista no e(s)coa-mento do que pertine ao seu criador, no alcance de sua diferença, no aguço de sua percepção cir-cunstancial, sob a forma que (o) contemple, qual poesia.
Referências
COLLOT, Michel. Do horizonte da paisagem ao horizonte dos poetas. In: ALVES, Ilda Ferreira; FEITOSA, Marcia Manir Miguel. Literatura e paisagem: perspectivas e diálogos. Niterói: Editora da UFF, 2010. p. 205-217.
DIDI-HUBERMAN, Georges. Imagens-ocasiões. Trad. de Guilherme Ivo. São Paulo: Fotô Imagem e Arte Ltda, 2018.
GARRAMUÑO, Florencia. Práticas da impertinência. In: . Frutos estranhos: sobre a inespecificidade na estética contemporânea. Rio de Janeiro: Rocco, 2014. p. 9-29.
KHATTATE, Nasrine; HEMPARTIAN, Ahahid. Le concept de structure d’horizon: un nouvel espace théorique pour penser la poésie. Plume, première année, numéro 1, printemps-été 2005, publiée en été 2006. p. 101-115.
KIFFER, Ana. A escrita e o fora de si. In: ; GARRAMUÑO, Florencia (Orgs.) Expansões contemporâneas: literatura e outras formas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. p. 47-68.
PEDROSA, Celia. Poesia, crítica, endereçamento. In: KIFFER, Ana Paula Veiga; GARRAMUÑO, Florencia (Orgs.) Expansões contemporâneas: literatura e outras formas. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2014. p. 69-90.
PEREC, Georges. Aproximações do quê? Trad. de Rodrigo Silva Ielpo. In: . Alea. Vol. 12 n. 1, jan-jun. 2010. p. 178-180.
Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística (UFG). E-mail: letras@hotmail.com.










