Cultura

Gonçalves Dias e a fundação do humanismo nacional: caminhos da consciência, da educação e da cultura: parte V | Rossini Corrêa

Fotografia de Amade Casimiro Nacir.

Analista político consumado, o senso crítico gonçalvino feriu a corda do círculo de ferro do poder do Brasil, criticando-o pela ausência de ideias, programas e projetos, exceto o do poder pelo poder, no artifício do dissídio e da conciliação pelo alto, cujo espírito, máscaras ao chão, revelou: “A Liga é uma armadilha, uma igrejinha bem arranjada: o que for mais esperto será Padre, o que for menos será sacristão, outro sineiro etc. e por fim os devotos ouvirão missa. A conciliação não pode ser duradoura, por que os ódios são antigos, e passaram das ideias às pessoas.”118 O mandonismo personalista, fundamentado no passionalismo da agenda do contra, nunca do a favor, senão de si mesmo, mereceu reparos, quando vestido de cordeiro o lobo: “Quem acredita em conciliação de partidos? Se eles vivem, é força que hostilizem e que sejam hostilizados: do contrário perecem, e não só o que é o mais fraco, como todos que houverem”119 O pano de toureiro das facções em estado de recíproca sedução, sob escondidos punhais da traição, visando o poder pelo poder, caminhou com as pernas curtas das ambições menores: “Demais, qual é o fim da Liga? Criar deputados: criados eles a Liga se desfará por si mesma, e o Progresso, que a representa, acabará com ela”.120 O império pragmático da política de resultados, em si mesma, bastava para o quase candidato à deputação geral? Ei-lo: “Sendo assim, eu direi que o Progresso tem um fim, que esse fim é útil, e que se deve contender com todas as forças para o alcançar: … apresentar homens de merecimento e probidade a homens ignorantes e imorais”.121 Acreditava o poeta nacional e ator político na ação social segundo valores, combatendo pela ética e pelo mérito na política.

 

Atentíssimo quanto aos condicionamentos da realidade envolvente, que tornava o adesismo governista o consenso máximo de todas as retóricas e instrumentais ideologias, liberais ou conservadoras, reinantes no Brasil: “Tirante disso, não. Nada de empenhos com o governo: nada de obrigações, e de encargos para com ele, porque em último resultado, será uma sociedade leonina. O Leão distribuirá as partes, e escolherá a sua. Ora, o Leão, de que falo, é ao mesmo tempo Raposa.”122 Sucede que Gonçalves Dias estudara as ideias políticas e conhecia o pensamento de Nicolau Maquiavel, sabendo-o presente na prática eleitoral oligárquica, vigente na realidade fática nacional do Segundo Reinado, tocado por “essas máquinas eleitorais, chamadas Câmaras Municipais, que só dão sinal de vida quando acordam algum arranjo de compadres,”123 sob as bênçãos farisaicas d’“esses maus guardadores da lei.”124 O código do estamento, de donatários fechados do poder pelo poder, tornou-se incompatível com a emergência de estadista de Gonçalves Dias, cujo quadro valorativo tornara impossível, para si, “aturar desaforos a pretexto de que possa fazer alguma coisa útil a nossa terra – isso não: o pouco que posso, posso-o em toda a parte.”125 Em meio à gente, ao cadinho de gente capada e sangrada, como diria mais tarde Capistrano de Abreu, o pensador maranhense sabia que a fronteira, para alguém fora do círculo de ferro, estava fechada: “eu nunca tive, o que não hei de ter nunca – família.”126 E assim foi.

 

Desta maneira, o estadista da consciência, da educação e da cultura como caminhos necessários da afirmação do humanismo nacional, impermeável ao garrote da prepotência mandonista, preterido e indisposto, jamais foi político parlamentar. Nas palavras de Antônio Henriques Leal, não sucumbiu Gonçalves Dias às “nossas misérias políticas,”127 descrente das legendas vazias, “reunidas por sórdidos interesses e mirando só ao poder e ao engrandecimento próprio,”128 como escreveu aos amigos, em 10 de abril de 1848: “…convence-te que no Brasil, onde quer que seja, qualquer que seja a cor da política, não passa ela nunca do individualismo, não é nunca mais do que isso!”129 Resignou-se, com ou sem razão, o poeta maranhense, a hipotecar solidariedade a seu amigo Dom Pedro II: “tem virtudes que o fazem um homem estimável, tem qualidades de um rei literato.”130 Contudo, jamais renunciou ao ideal de construção de uma paideia131 para o miscigenado homem brasileiro, tornando a sua sacrificada existência um serviço à construção de uma qualificada obra, na qual o ser nacional 132, o caráter nacional,133 em consciência, em educação e em cultura, fosse o definitivo sinal autônomo e emancipatório, de que “um povo livre surge na história.”134 Eis Gonçalves Dias, fundador do humanismo brasileiro com o Grupo Maranhense: Odorico Mendes, Gomes de Souza, Sotero dos Reis, João Lisboa, Cândido Mendes, Antônio Henriques Leal, Luís Antônio Vieira da Silva, César Augusto Marques e outros, mais outros e outros mais, que desafiam a antinação de ainda agora, sedenta de sangue e mais sangue, a tornar-se uma civilização solidária, encontrada consigo mesma, por meio da consciência, da educação135 e da cultura, enquanto autêntico destino, a cantar: ‘Minha terra tem palmeiras/Onde canta o sabiá!.

 

REFERÊNCIAS

 

  (118) Id. Ibid., p. 80.

 

 (119)  Id. Ibid., p. 81.

 

 (120)  Id. Ibid., p. 81.

 

 (121) Id. Ibid., p. 81.

 

 (122)   Id. Ibid., p. 81.

 

(123)   Id. Ibid., p. 268.

 

(124)   Id. Ibid., p. 268.

 

(125)   Id. Ibid., p. 262.

 

(126)   Id. Ibid., p. 261.

 

(127) LEAL, Antônio Henriques. Pantheon maranhense: ensaios biográficos dos maranhenses ilustres já falecidos. Rio de Janeiro, Editorial Alhambra, 1987, tomo II, p. 107.

 

(128)   Id. Ibid., p. 107.

 

(129)   Id. Ibid., p. 107.

 

(130) Id. Ibid., p. 108.

 

(131) Consultar a respeito JAEGER, Warner. Paideia. Lisboa, Martins Fontes, s/d, 1350 p

 

(132)  Consultar a respeito ARREGUI, J. J. Hernandez. O que é ser nacional? Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1971, 246 p.

 

(133) LEITE, Dante Moreira. O caráter nacional brasileiro: história de uma ideologia. São Paulo, Editora Ática, 1992, 344 p.

 

(134) Id. Ibid., p. 329.

(135) Recorde-se que Capanema, grande amigo de Gonçalves Dias, noticiou em carta  de 11 de março de 1859: “O Imperador mandou que se desenterrasse o teu relatório sobre a instrucção pública para ser publicado”. DIAS, Antônio Gonçalves. “Correspondência passiva de Antônio Gonçalves Dias.” In: Anais da Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro, Divisão de Publicações e Divulgação, 1972, v.91, p. 206.

 

fotografia de Rossini Corrêa

Rossini Corrêa: Advogado, Escritor e Filósofo do Direito, com mais de40 livros publicados, entreos quais se destacam: Saber Direito-Tratado de Filosofia Jurídica; Jusfilosofia de Deus; Crítica da Razão Legal; Bacharel, Bacharéis: Graça Aranha, discípulo de Tobias e companheiro de Nabuco; Teoria da Justiça no Antigo Testamento; José Américo, o Jurista; Política Externa Independente: contribuição crítica à história da diplomacia nacional; O Liberalismo no Brasil: José Américo em perspectiva; Brasil Essencial: para conhecer o país em cinco minutos; O Bloco Bolivariano e a Globalização da Solidariedade: bases para um contrato social universalista; e Romeu e Julieta no Brasil. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal – IHGDF. Pertence à Academia Brasiliense de Letras – ABrL e à Academia Maranhense de Letras – AML. É Patrono da Cátedra Gonçalves Dias, da SVT Faculdade de Ensino Superior e foi Coordenador da Cátedra Daisaku Ikeda, do Centro Universitário de Goiás-Uni-Anhanguera.

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