
Formigas I
Clécio Branco – O autor da obra Ensaios de
A a Z para Mentes Inquietas é psicólogo
clínico e doutor em Filosofia. Branco, C. F.
(2024). Ensaios de A a Z para mentes
inquietas. Amazon Kindle Direct Publishing.
Amanheceu nublado aqui na serra. A chuva fina faz gotículas suaves sobre as folhas e, tocando as plantas, dá um ar de alegria verde ao lugar. São os dias cinzentos do inverno — estação que chegou de mansinho. O ar frio da montanha é um novo afeto do ritual das estações, como no belo filme Primavera, verão, outono, inverno e… primavera, do sul-coerano Kim Ki-duk. Sob um manto branco de bruma que logo vai se dissipar, está o lago dourado, morada de coloridas carpas. O frio se instalou por aqui, mas convida a bem guardadas memórias de acolhimento à lareira, de mantas macias aquecendo as pernas, de boas conversas regadas a chá de mulungu.
A natureza repete, em suas diferenças, esses ritos do tempo, com suas folhagens, frutos e demais dádivas de cada período. As estações são um ritual de preservação da diversidade das espécies. A filosofia, desde a remota antiguidade clássica, viu belamente esse devir da vida a partir da natureza. Nada é o mesmo duas vezes. Embora seja inverno outra vez, não é esse o mesmo inverno de anos anteriores. E nem eu mesmo sou o que já fui no inverno anterior.
Mas não é sobre a chuva fina que cai, nem sobre o renovado inverno que quero refletir neste texto. Quero dissertar sobre uma solitária formiga que, ao meu lado, sobe também a ladeira, carregando uma enorme folha em suas costas. Aparentemente, esse ser minúsculo, autônomo, trabalha com um propósito muito superior a seu tamanho.
Algumas vezes, elas andam em carreirinhas organizadas. Nesse caso, parecem seguir indicações químicas de um traçado que conduz todo o grupo, carregando em suas costas o fardo de suas vidinhas. Noutras vezes, vemos uma formiga solitária, de caminhar errático, como se bêbada estivesse, em descompasso ligeiro. E o terceiro caso, o que primeiro descrevi: a formiga solitária carregando a enorme folha verde. Nela, o caminhar é firme, decidido, rápido e sem demonstração de cansaço.
Não há como deixar de observar com estranheza esses pequenos indivíduos. A natureza só deveria ser sobre o afeto que ela nos causa, não a possuindo, nem a deformando, mas sendo nós, de forma estranha, por ela mesma possuídos. A mesma estranheza que leva a pensar na fragilidade de qualquer indivíduo que viva em um mundo incomensurável, embora seja ele mesmo minúsculo, frágil e aparentemente inútil, desprezível ao olhar humano, de poucos afetos talvez, mas vivo em um universo infindável. Vejo essa fragilidade na formiga em questão. Acaso a formiga é frágil? Apenas sob nossa perspectiva. Não esqueçamos que existe no mundo dos humanos uma guerra declarada contra as formigas. Há investimentos em pesquisas de combate às formigas, um autêntico batalhar tecnológico e científico, treinando e pesquisando modos de extermínio de formigas. Mas elas aí estão.
Solitárias às vezes, erráticas ou em carreirinhas, parecem seguir o único propósito de manter a vida, expandir a espécie, crescer e subir ao máximo. Estou subindo a ladeira, ofegante, parando às vezes para respirar, andando em zigue-zagues diagonais para diminuir o impacto da subida. Se olhasse rápido e nada estranhasse, vendo uma folha se movendo, se não dedicasse algum tempo a entender o fenômeno, ainda que superficialmente, eu perderia a riqueza dos detalhes que agora descrevo.
Existe vida por toda parte, mas vida que, de nossa posição humana de uma suposta ordem de grandeza, perdemos de vista. Não se trata apenas do fato de ser da ordem de grandeza, menor ou maior, mas em razão de estarmos perdendo boa parte do mundo, o mundo óptico que escapa ao sistema perceptivo, prisioneiro da perspectiva unilateral humana. Deve haver dezenas de fórmulas e tecnologias para acabar com as formigas. Porém, não sei se existe alguma para preservá-las. Muito provavelmente elas dependem apenas de si mesmas para sobreviver neste imenso mundo de hostilidades a elas. É possível extrair lições para nossas vidas a partir desses pequeninos insetos? Creio que sim. A primeira coisa que me lembro é da organização social do formigueiro. O que me remete ao pensador Max Weber, que desenvolveu, em sua sociologia, o conceito de “ação social”, um intricado sistema de funcionamento de grupos sociais.
Há formigas em todos os lugares, aparentemente desorganizadas, perdidas do seu formigueiro. Pode até ser que uma ou outra se tenha desgarrado do grupo por alguma razão funcional, mas tudo indica que as formigas vivem de forma muito organizada. Elas vivem, a seu modo, em meio àquilo que, em sociologia, se chama de “ação social” — o objeto da sociologia em Max Weber. São ações interligadas que garantem a funcionalidade de grupos sociais com fins sociais esperados. Na empresa, na escola, no hospital, no tribunal e na sociedade como um todo, as ações de cada indivíduo se conectam às ações de outros, perfazendo um conjunto funcional. Na colônia de formigas, sem precisar de um sociólogo, esses insetos distribuem papéis que vão desde a segurança do formigueiro até à condução e o patrulhamento da área provedora dos recursos necessários à colônia. Da observação da organização social das formigas, já derivam algumas lições a serem utilizadas na vida social dos grupos humanos. Cada formiga desempenha fielmente seu papel na comunidade da espécie. Da simples visão do deslocamento urgente da formiga à complexidade da vida em que esse pequenino inseto se insere, vislumbra-se um oceano desconhecido que deveria, no mínimo, despertar-nos estranhamento e curiosidade.
Se todo esse mundo que se move debaixo de nossos olhos não nos apavora nem nos encanta, é possível que uma enorme parte da vida não esteja sendo sentida e, portanto, não esteja sendo vivida pela maioria de nós. Nosso sistema perceptivo evoluiu na direção de uma estreita limitação aos objetos percebidos. Daí haver uma perda significativa do mundo no qual estamos inseridos. Nem todos os sons e imagens do mundo são processados por nossos sentidos. Por uma questão de economia energética, nosso cérebro emite sinais seletivos das coisas e situações a serem percebidas. Perdemos o mundo, a maior parte do mundo que nos cerca. Perdemos esse mundo ao denegarmos as vidas que não nos parecem importantes. Presos às nossas limitações, interpretamos essas diminutas vidas como pragas a serem exterminadas. Ainda não sabemos lidar com indivíduos que, a nosso ver, não nos compõem — na natureza ou na sociedade.
A neurofisiologia de emergência (o conceito de emergência está exposto em Sobre ter certeza: como a neurociência explica a convicção, de Robert A. Burton) do comportamento de uma colônia de cupins parece ser válida também para uma colônia de formigas. Elas carregam suas cargas, andando rapidamente, sempre em ritmo de urgência. Não se trata de ansiedade, mas de consciência da existência no presente instante. As formigas não parecem crer, mas apenas saber.
O pequeno cérebro da formiga, ou seja lá o que estiver no lugar de um, parece ser sua consciência. Essa é a razão para serem auto-organizadas, das partes para o todo. Cada formiga, assim como no caso dos cupins, desempenha uma parte no todo. Elas, as formigas — em relação ao formigueiro do qual fazem parte, assim como cada formigueiro aparentemente isolado —, parecem ser partes de um todo maior. O conjunto de formigueiros em dado território funciona como um ordenamento de bairros de uma enorme cidade.
O neurocientista Robert Burton traça um paralelo entre a atividade neurológica humana e o funcionamento de pequenos seres (formigas, cupins). Cada indivíduo, numa colônia de cupim ou numa sociedade de formigas, corresponderia a uma célula neuronal. Os neurônios parecem permanecer circunscritos ao cérebro, mas se comunicam por meios químicos, neurotransmissores e peptídeos, pelo corpo inteiro. Todo sistema nervoso é onipresente no corpo.
No caso desses pequeninos insetos, as colônias de cupins ou formigas se assemelhariam a um imenso sistema nervoso de organização dos insetos. Cada unidade trabalha como se fosse um neurônio. Do mesmo modo que o sistema nervoso raqueia nossos órgãos, os insetos parecem, cada qual ao seu modo, vasculhar imensos territórios, como se fossem extensões de um corpo, levando e trazendo informações e suprimentos.
Para Damásio, em seu belo livro E o cérebro criou o homem, não podemos ignorar que o homem criou toda a realidade social que, ao mesmo tempo, o subjetiva. Ou seja, o humano produz subjetividade que o faz ser o que é, em um vaivém ininterrupto. E a criação humana não para na realidade social. A própria realidade social impõe disrupções, revoluções, guerras, invenções, saberes, ciência e criações artísticas. São igualmente fragmentos das partes possíveis que o humano pode realizar por meio de ações combinadas que vão das micropercepções acerca do real à elaboração dos grandes sistemas organizados, ou seja, família, escola, igreja, cidade, Estado etc.
O cérebro, assim como o formigueiro, forma a imagem que remete ao funcionamento dos indivíduos. A bravura da formiga, carregando em seu corpo a enorme folha, é um trabalho individual, autônomo, mas coordenado pelo todo. Lembra os “sistemas complexos” de Edgar Morin. Um dia, estudaremos a vida do todo para as partes, a partir de seus sistemas complexos, do entrelaçamento das coisas. Podemos estudá-las em seus fragmentos, como fazemos atualmente, mas caminhamos na direção de outra ordem: a da complexidade das relações. Em outras palavras, caminhamos no sentido de estudar a vida para compreender os indivíduos vivos em suas correlações. As disciplinas tendem a se unir em um só bloco. A vida. Desse bloco único, e a partir dele, poderemos subtrair as partes.
Talvez, assim como Damásio buscando Espinosa, possamos encontrar a substância única, a causa de todas as formas: Deus (ver Em busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos). Algumas vezes, as formigas andam em carreirinhas (síntese). Noutras vezes, andam solitárias. Outras ainda, em movimentos erráticos, sozinhas e ligeiras (dispersão). Vemos esses comportamentos, mas sem a estranheza necessária que nos levaria ao conhecimento mínimo da vida desses pequeninos seres da natureza, sendo nós mesmos natureza. Andamos sobre eles como se da natureza não fizéssemos parte.
É pouco provável que nossa formiga tenha uma questão moral no percurso de seu trabalho. Ela parece estar mergulhada por inteiro no mundo das relações vitais e nada mais. Ela me espanta e desperta afetos nunca antes sentidos.
Formigas II
Por que não conseguimos extinguir as formigas? Por que elas sobrevivem às tecnologias que têm por objetivo sua extinção? Por que, sendo elas tão indefesas e frágeis em relação à soberania do homem, ainda assim constituem maioria? O império das formigas, que compreende incontáveis formigueiros, tem uma lógica de funcionamento muito semelhante à que rege o convívio dos ratos. Formigas fazem rizoma. A organização do formigueiro se assemelha à das partículas microscópicas. Só a física contemporânea pode explicar a resistência das formigas e sua lógica de coexistência com a natureza. São seres rizomáticos, 1 conforme a definição de Deleuze e Guattari, ou seja, conectam-se a qualquer parte e em qualquer lugar. O ponto de partida também serve de chegada; o meio também é um começo. Um rizoma não é excludente, não há exclusão nele. No rizoma, há desvios, bifurcações, subidas, descidas, quedas bruscas, conexões e sínteses, ou seja, não há exclusões do tipo “isso ou aquilo”,2 que remetem à lógica da raiz — um sistema invariável e constante.
O rizoma é inclusivo, com base na conjunção “e”, “e”, “e”. As formigas inserem novas possibilidades sempre que uma força as atinge ou quando se agenciam à grama que cortam, à água que as arrasta e até mesmo ao tamanduá que se banqueteia no formigueiro. Todas essas operações são bifurcações, deslizamentos, quedas bruscas, subidas, intensidades, variações sem-fim. Uma formiga em seu andar errático, aparentemente bêbada, traça linhas de feromônios que indicam trajetos e devires, campos possíveis. Uma carreirinha de formigas pode mudar de rumo repentinamente. Não sabemos a razão, nosso sistema perceptivo nos limita. Percebemos muito pouco dessa realidade, pois um rizoma é subterrâneo na botânica e a-paralelo na lógica do pensamento. Esses pequeninos animais se valem dessa lógica para desenvolver um sistema de fuga. Os cortes e as rupturas têm uma única finalidade: preservar a vida, elemento essencial de tal sistema. Elas, as formigas, estão fugindo da morte quando rizomatizam o ar, a água, a chuva, a terra e o sol. É a vida que escapa à sentença de morte.
A física atual associa a organização do formigueiro à organização de nossos órgãos biológicos. Isso faz com que as explicações desses sistemas deixem de ser vistas sob o âmbito da mecânica clássica e passem a ser expostas à luz da teoria dos sistemas complexos de Edgar Morin.3
Consideremos o análogo muito próximo do formigueiro, que é o nosso próprio organismo: somos feitos de células, que se ligam formando tecidos, estes se associam formando órgãos que se integram, formando os grandes sistemas, orgânicos, respiratório, digestivo, nervoso etc., e cada um dos indivíduos humanos somos membros de uma coletividade social e participantes de uma coletividade ambiental — somos estruturalmente quase gêmeos dos formigueiros. A diferença é que as células do formigueiro (as formigas) podem mover-se automaticamente, mas as nossas só se movem em conjunto. Tal como o temperamento dos formigueiros, nosso andar é um efeito global que não está presente nas unidades elementares […].4
Elas estão em qualquer lugar do mundo, em todos os compartimentos de uma casa, em todos os bosques, cidades e vilas. Como para os nômades, nenhuma muralha de qualquer império impede sua livre circulação. Elas entram e saem com a determinação do vento, que não respeita fronteiras. São o terror da produção agrícola, odiadas pelos agricultores, temidas pela bolsa de mercadorias. O mercado de pesticida inclui as formigas de toda espécie, e a limpeza das casas inclui a exterminação desses pequeninos seres, mas elas estarão sempre lá. Umas caçam alimentos, outras carregam nas costas, outras organizam os depósitos, outras ainda se encarregam da proliferação. Todas atacam — elas formam uma frente de combate com estratégia de guerrilha, afrontando a força da civilização humana, com seus caminhos subterrâneos, bifurcações infindáveis, um mapa que se move em todas as direções. As formigas, diriam os filósofos, são um devir-minoritário que não leva em conta a quantidade estatística, o fato de serem milhares. “O todo-formigueiro, portanto, não apenas contém suas partes, mas também age sobre elas. Esse todo é mais do que a simples soma das partes, porque serve como meio para as partes agirem por si próprias.”5 Elas podem desligar-se da carreirinha e inventar outros trajetos. “A razão é que todo o conjunto das formigas pode afetar a parte, mudando o comportamento de cada uma delas.”6
O que conta é o fato de estarem em uma longa linha de fuga, com rupturas em qualquer direção, ligações e desligamentos em função de uma fuga constante. A vontade das formigas é o que mantém sua marcha. Que vontade é essa? A mesma dos ratos. Elas querem a expansão. Não seria o mesmo caso dos cupins e dos demais seres da natureza? É a vida em seu curso inesgotável. A vida quer crescer, diz Nietzsche. Subir quer a vida. As formigas, no cumprimento desse imperativo, adotaram essa forma quântica, o rizoma, um estilo de organização da potência da Vida, uma política de resistência. Elas ligam um fluxo quântico a outro, por lidarem com fluxos livres e contínuos. Por isso as formigas são inextinguíveis.
As formigas e outros pequenos animais, insetos, vírus ou bactérias são formas de vida submetidas aos mesmos princípios de alta complexidade. Há um campo de possibilidades em estado virtual que funciona como matricial e as formações atuais que se alinham em decorrência de comunicações por signos de feromônios. “A matriz pré-individual é sempre contemporânea ao próprio indivíduo, permanece sempre ativa, ou sempre pré-ativa, junto aos indivíduos que produz, assegurando que novas individuações, novos processos de formação, possam perenemente suceder.”7
A extinção das formigas só poderia acontecer caso a complexidade de seu funcionamento fosse comprometida pelo próprio sistema complexo. A complexidade pode ser alterada na dança do virtual e do atual. Por isso, o conceito da criação em Espinosa é tão vigoroso. Existe uma natureza naturada, a atual, essa que olhamos e percebemos com os sentidos; e existe a natureza virtual, essa que nunca acaba de chegar, a chamada natureza naturante, que se atualiza sem que percebamos.
Notas
1 Na Botânica, as árvores fazem rizomas subterrâneos no entrelaçamento de raízes. É até possível que rizomas de raízes de árvores possam atravessar fronteiras entre países. Pesquisas do neurobiólogo Stefano Mancuso mostraram que um toco de árvore cortada pode sobreviver por entrelaçamento com raízes rizomáticas e com árvores que não foram cortadas (MANCUSO, 2022).
2 A primeira das três leis clássicas do pensamento é a lei ou o princípio da identidade do conceito, proposta por Parmênides; a segunda é definida pelo princípio da não contradição de Aristóteles. A lei do terceiro excluído, outro princípio aristotélico, é a terceira das três regras que regem o pensamento clássico, segundo o qual uma afirmação é verdadeira ou falsa conforme as prescrições desses princípios.
3 Antropólogo, sociólogo e filósofo francês judeu de origem sefardita.
4 OLIVEIRA, Alberto Luiz. “Biontes, bioides e borgues”. In: O homem máquina: a ciência manipula o corpo. Org. Adauto Novaes. São Paulo: Companhia das Letras, 2003, p. 148.
5 Ibidem, p. 148.
6 Ibidem, p. 48.
7 Ibidem, p. 157.
Clécio Branco é psicólogo clínico, Mestre e Doutor em Filosofia. Autor das obras Ensaios de A a Z para mentes inquietas e Encontros com o Mestre I. Disponíveis na Amazon em versão Kindle e física.










