Cultura

Fome | Adriano B. Espíndola Santos

Maria não tinha pão e leite. Foi uma noite péssima, ninguém dormiu com a chuvarada e com as goteiras que caíam em vários lugares da casa montada com folhas de madeira usadas em construções de prédios de luxo – os quais não tinham mais serventia. Nelsinho estava com muita febre, sem forças para se levantar, enquanto Gabriela e Tobias choravam com fome, pedindo comida à mãe. Maria se aperreara porque José saíra há dois dias à procura de algum rumo – disse que iria trazer dinheiro para casa. Não era do feitio de José passar tanto tempo assim fora de casa. Maria já se preocupava com um desígnio de morte. Ou seja, a morte espreitava a vida da família, que vivia no limiar da escuridão. Maria saiu de casa, encarando os pingos grossos de chuva, para tentar buscar comida para os pequenos. Gabriela, a mais velha, estava responsável por cuidar dos dois meninos. Maria andou cerca de cinco quilômetros, até o centro da cidade. Sentou-se no chão com a plaquinha em que havia escrito “FOME”. A cada sinal de trânsito fechado, ela andava entre os carros, mostrando a plaquinha e pedindo com o rosto choroso algum trocado. Um senhor gordo abaixou o vidro e deu um pacote de bolacha já aberto e semiconsumido. Maria o guardou num saco plástico. Mais adiante, uma senhora desgrenhada, também pedinte, determinou que ela saísse de sua área, porque estava atrapalhando. Maria saiu a esmo pelas ruas do centro. Parava, vez em quando, em algum sinal para pedir um trocado. Ganhou, por sorte, uma nota de dez reais. Germana, a que dera o dinheiro, havia feito uma promessa a Santa Terezinha, e nisso teria de dar uma quantia ao primeiro pedinte que aparecesse. A fome persistia. Maria precisava apurar mais. A chuva a incomodava, já estava encharcada de água e dores. Não parava de pensar que teria de arrumar mais dinheiro e propriamente comida. Parou dez segundos para pensar na vida miserável que levava. E pensou também no marido, que a essa hora poderia estar morto – ele era o arrimo de família, com o seu trabalho de reciclagem. Maria andou, andou, e parou na porta de um supermercado. Pedia a um e outro que desse um alimento quando saísse. Conseguiu três pacotes de macarrão, miojo e dois pacotes de arroz, até ser posta para longe pela segurança do recinto. Voltou para casa, cambaleando, morta por dentro. Não tinha um pingo de forças para andar. Andou mais e parou para chorar. Pensava no seu filho doente, que precisava de cuidados há três dias, a febre não baixava. Ela tinha medo de que o filho morresse como a sua irmã Lindalva morreu, ainda muito jovem, de causas desconhecidas. Maria levantou-se, aparando na parede, e continuou a andar. Quem a visse passar poderia imaginar um calvário. Maria não tinha a quem recorrer. Conseguiu chegar em casa, mas Nelsinho não estava mais ali.

Foto de Adriano B. Espíndola Santos.

Adriano B. Espíndola Santos é natural de Fortaleza, Ceará. Em 2018 lançou seu primeiro romance “Flor no caos”, pela Desconcertos Editora; em 2020 os livros de contos, “Contículos de dores refratárias” e “o ano em que tudo começou”; em 2021 o romance “Em mim, a clausura e o motim”, pela Editora Penalux; e em 2022 a coletânea de contos “Não há de quê”, pela Editora Folheando. Colabora mensalmente com as Revistas Mirada, Samizdat e Vício Velho. Tem textos publicados em revistas literárias nacionais e internacionais. É advogado civilista-humanista, desejoso de conseguir evoluir – sempre. Mestre em Direito. Especialista em Escrita Literária e em Revisão de Textos. Membro do Coletivo de Escritoras e Escritores Delirantes. É dor e amor; e o que puder ser para se sentir vivo: o coração inquieto. 

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