
O Romantismo dominou na literatura deixando fundas raízes no imaginário e na alma do brasileiro que sobrepõe o sentimento à razão, o coração ao cérebro. Um poeta romântico que sempre admirei, gênio aflito e inspirado, foi Fagundes Varela. Ele nasceu em Santa Rita do Rio Claro, Rio de Janeiro, em 1841 e faleceu em Niterói, em 1875, de congestão cerebral, consequência de uma vida boêmia.
Fagundes Varela escreveu sobre suas dores, como a perda de seu filho Emiliano aos três meses de idade, no célebre poema Cântico do Calvário e sobre a natureza. Temas grandiosos como o mar e as serras até aos mais rústicos como o mato virgem, o brejo, o bafo do sertão, a choça, a viola do tropeiro, passando pelos mais delicados como o sabiá, a rola, a borboleta, o vaga-lume. Como esquecer o poema em que louva a beleza da flor do maracujá? Transcrevo a primeira e a última estrofes:
Pelas rosas, pelos lírios,
Pelas abelhas, sinhá,
Pelas notas mais chorosas
Do canto do sabiá,
Pelo cálice de angústias
Da flor do maracujá.
………………………………………….
Não se enojem teus ouvidos
De tantas rimas em “a”,
Mas ouve meus juramentos,
Meus cantos ouve, sinhá!
Te peço pelos mistérios
Da flor do maracujá!
Na nossa casa havia uma trepadeira coberta de flores de maracujá, que se abriam à tardinha em perfume e miasmas lilases. Cresci ouvindo meu avô dizer que a flor mais linda era a flor do maracujá.
Um dia, recebi um e-mail do escritor e jornalista José Nêumanne Pinto. Era uma resenha para o Caderno de Cultura do Estadão, em que ele comentava sobre o livro Fagundes Varela, Melhores Poemas, seleção de Antônio Carlos Secchin, editora Global. Nêumanne explicava que o poeta e crítico literário Secchin, membro da Academia Brasileira de Letras, estava prestando um serviço inestimável à memória de Fagundes Varela, cuja obra ficou espremida entre o fulgor dos antecessores como Casimiro de Abreu, Álvares de Azevedo e Gonçalves Dias e o genial clamor de seu sucessor Castro Alves. Varela passou assim a ser julgado poeta de pouca intensidade. Julgamento injusto e reducionista, pois Varela representa uma voz de autonomia e inconformação nos quadros de nosso romantismo, com instantes inigualáveis de ascensão e lirismo. Varela foi um sensitivo que sofreu em alta tensão todas as experiências, fazendo com que cada transe de sua vida ingrata assumisse tonalidades puras e extremas.
“O que Secchin fez é digno de nota”, afirmou Nêumanne, pois percebeu na poesia de Varela “a mais complexa construção literária do romantismo”. Resgatou um poeta importante “nesta era da insensibilidade crônica e do imediatismo consumista e comodista burguês”.
Diante do muro florido e dos frutos verdes de maracujá, lembrando das palavras de meu avô, da mensagem de Nêumanne e do estudo de Secchin sobre Varela, escrevi o poema “Flor do Maracujá”:
A trepadeira cobre todo o muro
E, à tardinha,
Antes do sol se pôr,
Abre-se, misteriosa e mística,
A flor do maracujá:
Pétalas verdes por fora,
Brancas por dentro,
No centro, uma coroa de franjas
Sobre a mancha roxa,
De sangue azul macerado.
Como é bela a flor do maracujá!
O poeta romântico
Cantou-a em rimas em “a”,
Limito-me a admirá-la
Com o coração doído
E um leve arfar.
Zum, zum…
Abelhas negras
Pousam sobre as folhas
E preparam os frutos
Cheios de polpa amarela,
Poderoso sedativo
Que acalma os nervos
Como doses de rum.
Nessa mistura de mormaço e poente
A flor do maracujá
Dá impressão de sofrimento,
De êxtase,
De amor ardente;
É, provavelmente,
A flor de Romeu e Julieta,
Do martírio de Cristo,
Do manto espiritual do poeta.
A flor do maracujá
Excita,
Atrai,
Cálice de vinho
Por onde escorrem
Lágrimas violetas.
A flor do maracujá é tão bela
Que me faz suspirar
De tristeza,
Inexplicável padecimento
De quem é sempre incompleta.
A escritora Raquel Naveira é brasileira, nasceu em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, no dia 23 de setembro de 1957. Formou-se em Direito e em Letras pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). Mestre em Comunicação e Letras pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo. Título de Doutor em Língua e Literatura Francesas pela Faculdade de Nancy. Deu aulas de Literaturas Brasileira, Latina e Portuguesa na Universidade Católica Dom Bosco (UCDB), onde se aposentou. Residiu no Rio de Janeiro e em São Paulo onde deu aulas na Universidade Santa Úrsula (RJ) e na Faculdade Anchieta (SP). Deu também aulas de Pós-Graduação na Universidade Nove de Julho (UNINOVE) e na ANHEMBI-MORUMBI de São Paulo. Palestras e cursos em vários aparelhos culturais como Casa das Rosas, Casa Guilherme de Almeida, Casa Mário de Andrade. Publicou mais de trinta livros de poesia, ensaios, crônicas, romance e infantojuvenis. O mais recente é o livro de crônicas poéticas LEQUE ABERTO (Guaratinguetá/SP: Penalux). Escreve para várias revistas e jornais como Correio do Estado (MS), Jornal de Letras (RJ), Jornal Linguagem Viva (SP), Jornal da ANE (Brasília/DF), Jornal “O TREM” (MG). Pertence à Academia Sul-Mato-Grossense de Letras, à Academia Cristã de Letras de São Paulo, à Academia de Ciências e Letras de Lisboa e ao PEN Clube do Brasil.










