
De que vale tentar reconstruir com palavras o que o verão levou entre nuvens e risos
junto com o jornal velho pelos ares?
[…]
A poesia é o presente.
Ferreira Gullar, em “No corpo”.
Ora, situo-me: 15 de dezembro. Data que, no cerne de sua escrita, me faz reticenciar, em 2025, o 12 de 2015, como de tantos outros, e dos quais cobramos o flerte com o gênero da esperança e seus puréis milagres. Aqui – linhas de observação que, sem economia crítica, são remetidas às coisas guardadas de outrora para que, amanhã ou depois, sejam afinadas com seu propósito. Ou, mesmo, com a sobrepujante falta dele. O que, inclusive, parece-me até mais verdadeiro. Lembro-me, em especial, do décimo quinto decembrino de preci(o)sos 10 anos atrás. Nessa visada, disponho-me a um estado analítico de consistência subjetiva. Com perspectivas um tanto reiteradas, como o leitor poderá reconhecê-las, mas que não deixam de potenciar a sensibilidade do tempo atual. O deslocamento, com reativo assombro, entre os espaços, meus pensamentos e os que vejo em circulação, é capaz de jazer o gentílico do meu próprio nome, compreendido em alegria, de etimologia latina laetitia, deixando, por vezes, escapar o grosso das expectativas – o júbilo, em essência. É contra esse escape que deveria lutar neste último texto do ano (e nos ulteriores de dezembro, ad eternum) – entre partida e chegada, encerramento e começo, dúvida e certeza. De 25 a 26, afinal. Escrevo-o no findar do 12, com palavras seladas para o mês 1, envio-o à revista, solidariamente casando-o: uma só carta, crônica, com passagens de diário à poesia – é, pois, rarefação, também, do destino. E com o qual me indefino; miro nas exigências e urgências de um momento cultural e propositadamente lido nos cartões natalinos, em dizeres de estimados dias, que rivalizam, de modo severo, com o bombardeio da política e dos noticiários e, ainda, com as lembranças, em peso, matreiras, cujo surpreendimento acerta com a exclamação o seu perfeito uso.
Ouço a voz de Beatriz Sarlo, de Tempo passado, em consonância com a minha realidade: “O passado é sempre conflituoso”. O adjetivo, no entanto, desenreda, utopicamente, o amanhã, para instar o otimismo, por força deste simbólico gesto: o de virar uma simples folha no calendário. Uma nova folha, um novo ano. O recomeço não como começo a fazer jus ao prefixo “re”, com sentido de repetição, mas como percepção do que ainda está por vir, no ensejo de outros caminhos; na rota a ser recalculada. Da troca de presentes, à época, cara, à troca do presente, com valor barato do câmbio entre as palavras, enfim. Em meio ao frêmito das notas retrospectivas, é comum sonhar com dias de céu limpo, com as nuvens todas revolvidas para os cantos. E o mar respirado por sua brisa. Uma forma que remoça as esperanças nos (a)guarda, e a surpresa mais íntima revela-se comum, sensivelmente, partilhada no intricado das relações familiares e dos escolhidos que trazemos para perto: os amigos.
No movimento dos embrulhos meticulosamente fechados com laços de fita – em que é comum se imbuir de uma coragem singular, de expressão invectiva –, quedamos: na espera mesma incontida a mais não poder e a disparar as vicissitudes do que realmente importa, com gana ao que vem pela frente. Mas, envoltos de receio. Receio, não. De medo. Muito medo. E, claro, de insegurança. O calejamento dos anos pregressos exige-nos cautela.
No modo de conjurar o ar recendido de fragrância antiga com a lufada do vento fresco, tão esperado, por seu turno, concebe-se a ideia de sorver a inspiração em alguma coisa que ofereça condições de futuridade, conquanto contraditória possa ser a manifestação dos sentimentos, dos afetos. Quando me caiu às mãos a passagem só de ida para o Rio, há exatos 10 anos, me flagrei cortando pela raiz, sobretudo, o caule de qualquer inércia. Todo jardim bem cuidado envolve medidas regulares de rega, poda, limpeza em geral…
De novo, via que Sarlo estava de posse da razão. E mais que isso: de cumplicidade de coragem. Para aonde ir, Rio de Janeiro!, para mim, ocorreria quase como pensamento nonsense, não tivesse eu mesma ouvido isso, nos idos de 2008, da Dona Aparecida, que, naquele contexto, atuava como dessas conselheiras “acartomanciadas” de bairro, da minha cidade natal. Não me resignei, confesso, por outro lado, apenas guardei a sugestão (permanece nonsense) na gaveta dos impossíveis, pressupondo ser o lugar de melhor acomodação, já que meu pensamento tardaria a afiançar a viagem meramente com sentido de figura de estilo.
Nem o alcance mais extenso da metáfora daria conta de subsidiar, o que, para muitos, seria atrevimento sem precedentes, dada a arbitragem de descrédito que, costumeiramente, se destina àqueles que preservam, em sua forma de falar, o erre retroflexo como confidência de sua origem. Mesmo depois de dezembros ao correr da multiplicação por dez, sim, DEZ!, o faria apagado, no máximo, atenuado, por mim. A prosódia. Não mais tão carregada como os do espaço fluminense insistem em escutar, aquele onde é comum ouvir o chiado, graças à palatalização, como vai compreender a Linguística, de modo a pronunciar peculiarmente o esse, em transcrição fonética: [‘ɛsi]. A cada letra e palavra ditas, e, agora, refiro-me não só a questões de língua, fui percebendo o destino de exílio, e, nesse sentido, a corrente de surpresas que me seria reservada, acometendo-me, assaz, com meia respiração e coração de abreviados e acelerados batimentos. Toda a expectativa delegada com automatismo à celebração biográfica não chegou a se esvair por completo, mas a luminescer o amor próprio. Inexistente, sublinha-se, no código de endereçamento postal (CEP). E só por isso já teria valido a pena. (A autoestima poderia muito bem ter sido invenção carioca.)
No entanto, a idiossincrasia da cidade, na leveza e charme naturais, de sol alto, emergido de uma pintura de areia e sal, a contrapelo de qualquer situação socialmente comprometida, apertara-me e, ainda, me aperta um pouco em estranho susto, porque a beleza também pode se tornar insuportável quando não entendida ou assimilada na sua função ou razão de ser. Aquele dezembro, mesmo pertencendo a 2015, permanece sendo dezembro, estendendo-se para o de 2025. O que soa tautológico não o é, na realidade, já que o adiantado do prazo de uma década que os separa deveria rasurar a desdita e o infortúnio passados. O espaço como forma de representação temporal, dispararia Jean-Marie Guyau (2010). É dele a proposta para que, com o auxílio da imaginação, tempo e espaço não se apresentem em separado, de modo a não tornar restritos os seus movimentos às “[…] nossas pernas, [na medida em que] os fazemos com as nossas representações, passando de uma para outra através do pensamento, e não tardamos a distinguir essas espécies de passeios interiores da locomoção exterior” (GUYAU, 2010, p. 105). Entornar as tintas do passado para salvaguardar o presente torna-se, assim, inevitável. Questão de (sobre)vivência que resiste à paráfrase para não trocar seis por meia dúzia e invalidar o “se” eu não tivesse dado vazão à mudança do CEP. (Em alguma camada, o registro referencia e situa o exílio voluntário na segurança mesma de um risco n’água.)
Que venham novos (ou não) dezembros, Rio…
REFERÊNCIA
GUYAU, Jean-Marie. A gênese da ideia de tempo e outros escritos. Trad. de Regina Schöpke e Mauro Baladi. São Paulo: Martins Fontes, 2010.
Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística (UFG). E-mail: let_ras@hotmail.com










