
O corpo suspenso, flutuando, dançando, sem gravidade, estar no ar e ir mais fundo, não ter pressa de voltar, permanecer nesse grande útero.
Em posição fetal, abrir os braços, lentamente, e ir me libertando.
Ir à superfície buscar ar, inspirar bem fundo e voltar à sensação líquida, hidratada.
A água insistindo em me tocar o rosto, as mãos, pernas, deslizando, ocupando todos os espaços, mesclada em mim, me segurando em seu colo e me soltando, tampando meus ouvidos, e o silêncio impondo sua presença, tão forte como se gritasse.
Num abrir e fechar de braços ir avançando, avançando, tornar a mergulhar, no silêncio, no nada. O vazio exterior penetrando, como se o mundo houvesse parado, aquele momento somente existiria para mim.
Mais nada, mais ninguém. No silêncio, a visão embaçada, meus olhos sentindo o toque da água, olhá-la, e conseguir vê-la apesar da proximidade, apesar de estar grudada em minhas córneas como lentes gelatinosas.
Mergulhar na escuridão úmida, brincar de não ver, experimentar a cegueira, abrir mão deste sentido e ficar girando, sentindo o cabelo grudar no rosto, ir escorregando e se agarrar de novo, como uma brincadeira, único ser nesse pequeno universo, como semente querendo germinar, lá fora a aridez, aqui puro tato.
O vento deve estar soprando, folhas caem na superfície, secas, ignoram a água, boiam mortas, agora somente sujam. Alguém irá removê-las, e outras cairão. Parece que pairam no ar, vistas aqui de baixo. Nado até à borda. Saio.
O ar seco arranha meu nariz, ecoa em meu pulmão, dói. Fico deitada, estranha, deslocada desse habitat, não consigo abrir os olhos, minha respiração enfraquece, minha consciência vai me abandonando aos poucos. Agora a folha sou eu. De volta, um arrepio pelo corpo molhado. Alguém religa a máquina do mundo, o barulho reaparece. Pego a toalha, só tenho dez minutos para voltar ao escritório.
Joana Cabral é Mulher, mãe, leitora, escritora, dramaturga e empreendedora. Licenciada em literatura brasileira e portuguesa. Autora dos livros Fragmentos do Desencontro (2010) Editora Pedro e João – SP e Culpas e Cólicas (2012) Faces Editora. Recebeu o prêmio Osman Lins de Contos, pela Fundação Cultural da Cidade do Recife em 2005. Autora do musical Entremundos, (2015), Adaptou O Capitão e a Sereia, de André Neves, peça vencedora do Edital Viva a Cultura (2016). Autora do Espetáculo Chá com Saramago, montado em Guimarães, Portugal (2018).










