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Ativar o arquétipo futuro dos gémeos espirituais: parte I | Artur Alonso

Foto de Alexander Andrews na Unsplash

ATIVAR O ARQUÉTIPO FUTURO DOS GÉMEOS ESPIRITUAIS: PARTE I

A nosso modo de ver, entendemos que o Helenismo desenvolve, na sua expansão pelo mundo mediterrânico, euro-asiático e posterior influência em toda a Europa, a ideia de uma faceta psicológica das Entidades Divinas, ligadas a profundos mistérios, que deveriam ser descobertos somente por aqueles indivíduos capacitados para receber tal bênção (naquela altura elites sacerdotais, senhoriais e militares).

 

As escolas de mistérios já tinham surgido anteriormente – com figuras como Pitágoras e sua escola de Crotona, onde os conhecimentos adquiridos no Egito e na Babilónia foram acrescentados aos conhecimentos recebidos da sua Mestra, a filósofa e matemática Temistocléia. Platão, com sua Academia (na qual aqueles que não souberam geometrizar não poderiam ultrapassar suas portas), traz consigo também o saber adquirido no Egito.

Para Thomas Alexander Szlezák (em seu texto “Platão e os Pitagóricos”), os referenciais cognitivos adotados por Platão e por Pitágoras formam parte de uma única raiz e de uma mesma conceção cosmogónica, desligando o pensamento mais profundo de Platão do seu Mestre Sócrates. Pois para Szlezák, o Sócrates histórico não estabeleceu as ideias transcendentais, que permeiam a essência do pensamento platónico e se ligam profundamente à visão pitagórica.

O conhecimento helenístico, pois, transmitido pela Escola de Elêusis e pela Escola dos Mistérios Órficos (escola confirmada pelos papiros de Derveni, achados em 1962) incluem já o germe da visão das Escolas mais antigas mesopotâmicas, persas e egípcias (mesmo há quem se atreve a rastejar a essência da sua semente na mais antiga tradição da Índia).

Podemos afirmar, pois, que em todas estas escolas aparenta se manter firme um ideal de Deus – ou de um Ente Sagrado – Todo-Uno, do qual por emanação os mundos surgem. Sendo os mundos mutáveis – e este Princípio Original imutável (se especula muito com um dos centros de irradiação primordial deste conceito teria sido a famosa Escola do Olho de Hórus – localizada na antiga pirâmide de Saqqara – e a vinculação deste local com o Mestre Inhotep… Mas tudo permanece, no dia de hoje, no campo da especulação, sem maiores evidências).

Com a chegada de Alexandre Magno ao Egito – e o posterior domínio dos Ptolomeus – a necessidade de uma divindade sincrética que pudesse unir os dois mundos (grego e egípcio) deu surgimento à figura e ao culto de Serapis. Por trás deste culto permane a original ideia da divindade una: da qual nasce o arquétipo do pai masculino universal criador que, como Zeus é o Pai que dá Ordem ao mundo.

E o arquétipo feminino (a Ísis egípcia – a Hera grega – a Isthar – Inanna – mesopotâmicas ou a Asserah dos cananeus e da tradição mais antiga dos judeus), que fecundando gera os mundos e os alimenta – com seu Peito – simbolismo do Leite Sagrado. E, a um tempo, permanece guardando no seu útero interior a essência espiritual da masculina semente – com amor e sabedoria – Simbolismo do  Caldeirão sagrado. Como o da deusa Celta Kerridwen, a Guardiã do “Caldeirão da Transmutação”. Mudança que se realiza no “Ventre Escuro” (alegoria do subconsciente), através da magia conquistada ao afrontar desafios, realizar duras experiências e finalmente receber o “Grael” ou inspiração divina (Revelação).

Serapis, por sua vez, mantém a ligação ao mundo psicológico interior e exterior, do inconsciente e subconsciente individual e coletivo (ter em conta Serapis – ser a fusão do Osíris e de Hades, ambos deuses que governam os mundos subterrâneos). E Ísis – Hecate – Isthar- Inanna – são as Senhoras das celestiais luminárias, que encarnam na Deusa Soberana da Natureza – mantendo o arquétipo do feminino sagrado, com sua aceção psicológica profunda de conhecimento dos segredos da mulher humana e da sua possibilidade de transcender a sua personalidade. O mito grego de Perséfone e Deméter guarda essa simbologia da plenitude do feminino sagrado ligado à natureza (ciclos – estações do ano e as colheitas – junto aos tempos de descanso invernal (sonho) e acordar primaveral – renascimento). O mito nos mostra também uma ligação interior à psique feminina, o poder de ser mulher e sua aparente vulnerabilidade.

 

Deste modo surge a ideia do arquétipo divino em sua ligação ou conexão com a mente humana. Esse arquétipo no masculino e feminino nos ajuda a desenvolver certos aspetos psicológicos da nossa personalidade, muito importantes para a nossa transformação e mesmo para compreender as mesmas etapas cíclicas da vida dos seres humanos (e o por que das mesmas): nascimento, infância, adolescência, juventude, maturidade e velhice.

 

Transformar a nossa psique para transcender – evoluir – permitindo uma mudança da nossa consciência, resulta mais “fácil” uma vez entendido o significado simbólico, místico e mítico dos arquétipos masculino e feminino. Começar a focar nossa atenção menos nos aspetos efémeros, para centrá-la nas virtudes que nos aproximam daquela origem que não é afetada por nenhuma mutuação, é um passo no caminho certo.

No Renascimento, Marsílio Ficino – tradutor de grande parte dos escritos herméticos trazidos pelo Mestre Pleto de Bizâncio (e sucessor do próprio Pleto na Academia Neoplatónica, fundada por Cósimo de Medicci) – desenvolve a doutrina dos planetas astrológicos, referenciando estes planetas como entidades pisco-espirituais que trabalham em nossa transformação interna, se nos soubermos entender como sua inter-relação com a Terra e seus habitantes mutuamente nos condiciona.

As ideias da Academia Neoplatónica de Pleto e Ficino têm certa semelhança com aquele sentido “holístico” que Jan Christiaan Smuts deu ao termo em 1926, de aquela: “tendência da natureza de usar a evolução criativa para formar um “todo” que é maior do que a soma das suas partes”, elevando este perceber holístico até um plano cósmico, onde o Todo maior que a soma das partes deriva daquele Todo-Uno Eterno – Incognoscível – que podemos chamar Deus – a Mente Única, para aqueles que se definam ateus e não gostem de visualizações antropomórficas ou outras perceções que o termo Deus possa suscitar em algumas humanas mentes.

Ficino desenvolve exercícios, meditações e práticas, na sua Escola, que facilitam a ativação de determinados arquétipos, permitindo-nos melhorar ou harmonizar a influência destes planetas em nossa psique. Sempre tendo como objetivo a transformação – transmutação da mesma alma ou “psyche” no caminho da elevação espiritual, como via segura para o auto-conhecimento e auto-aperfeiçoamento.

Os gnósticos cristãos (anteriores ao renascimento) utilizavam os planetas astrológicos como uma jornada de melhoramento e aproximação ao mundo espiritual.

O Grande gnóstico e mártir galaico Prisciliano chegou mesmo a descrever partes do nosso corpo, com as suas ligações aos planetas astrológicos, ligando-os, por sua vez aos nomes dos patriarcas. Paulo Orósio, contrário às doutrinas priscilianistas, afirmou em seus escritos: “Prisciliano ensinou que os nomes dos Patriarcas correspondem às partes da alma, e de jeito paralelo, os signos do Zodíaco correspondem-se com partes do corpo”.

O legado de Prisciliano foi eficazmente erradicado, a partir da época de São Martinho de Dume, conhecido como o “Apóstolo dos suevos”, mas, de alguma forma sua essência prevaleceu com força na Galiza e Portugal, e quem sabe se futuros centros espirituais não ressuscitem, em outros locais, misturados com outros conhecimentos da mesma raiz – sua aprendizagem – encaminhando a futura humanidade àquela comunidade de amor incondicional (fim do medo) – comunhão fraternal e ajuda mútua?

Para os gnósticos, viajar pelos planetas, dominar seu nível pisco-espiritual, conhecer suas influências nos diversos tipos de seres humanos ajudavam os mesmos no caminho da elevação da consciência individual e coletiva.

 

A viagem continua do “herói” até obter a “Iluminação” também nos aproxima desse caminho de conexão com o arquétipo universal masculino e feminino.

A Revelação do conhecimento arcano que encerra o arquétipo, ajuda a Redenção (sair dos caminhos errados e confusos, nos que a nossa psique, sem uma firme guia, navega). Permitindo aquela Revelação – transitar para a Redenção – que, por sua vez, possibilita a Reintegração (a partícula ou Mónada – fractal espiritual emanado do Todo-Uno-Eterno – retornar à sua Origem).

A Revelação, Redenção e Reintegração estão subtilmente gravadas na “Parábola do filho Pródigo” cristã ou na ideia do “Príncipe que regressa ao Palácio do Rei” da tradição judaica – onde o arquétipo do filho e do Pai – estão, veladamente, estabelecidos.

Nesta viagem do “herói-heroína”, estamos a falar de um esforço contínuo de ascensão degrau a degrau, pela espiralada escada de “Jacob” (com quedas e alçamentos), modificando, abrindo e expandindo nossa consciência, focada em cada momento no nível evolutivo que lhe é próprio, com o intuito de atingir o nível adequado, que nos permita a obtenção da “verdadeira” vitória que leva à Glória. Aquela libertação das cadeias psicológicas que tanto nos pesam e nos atam (muitas delas por nossa ignorância criada).

O inconsciente coletivo, segundo Jung, constela novos símbolos e arquétipos, à medida que a humanidade vai precisando deles. Novos arquétipos surgem, no momento em que assistimos a mudanças paradigmáticas. Mudanças de Egregóras, quando a velha Egregóra coletiva, que proporcionava coesão a uma determinada humanidade, está já muito desgastada e a psique humana precisa ampliar, expandir ou elevar-se do patamar no qual estava encerrada. Mas também acontece quando a humanidade involui e a sua psique coletiva reflecte essa histórica realidade.

Nas necessárias mudanças de egregóras como em todas as crises, existem oportunidades e desafios, tal como testemunham os caracteres chineses para mesma palavra crise.

Temos que entender a Egregóra como aquele conglomerado de matéria pisco-mental e emocional, criada pela mesma humanidade, num determinado período histórico. Conglomerado que encerra a visão, perceção e oculta essência transcendente (positiva, negativa e neutra) dessa determinada humanidade, naquela determinada altura histórica.

Os processos criativos da mente humana influenciados pelas suas emoções (mais alteradas, menos alteradas, mas equilibradas, menos equilibradas) criam harmonias e desarmonias que afetam o conglomerado psico-emocional e mental coletivo, que é a mesma Egregóra.


Por sua vez, segundo aprofundemos individual e coletivamente (o coletivo é uma soma do individual e o individual é afetado pelo coletivo), ativando o lado sombra ou luz de determinados arquétipos, a evolução coletiva e individual da humanidade pode proporcionar o surgimento, pela necessidade evolutiva ou involutiva, de novos arquétipos. Estes arquétipos, por inter-relação, vão trabalhar com as suas tónicas psico-emocionais os lados positivos, negativos e neutros da própria humanidade.

 

Ariel Guttman e Kenneth Johnson afirmam, no seu trabalho “Astrologia e Mitologia (Seus Arquétipos e Linguagem dos Símbolos”), que: “Um dos princípios da filosofia astrológica é que a descoberta de um novo planeta assinala o desenvolvimento de um novo estágio na evolução da humanidade (…) esses novos arquétipos – que com frequência são reafirmações dramáticas dos antigos – emergem em nosso inconsciente coletivo em pontos delicados da história, em épocas nas quais, os paradigmas da realidade sofrem uma mudança radical”.

Roberto Luciola, em seu caderno “Fiat Lux – nº 19” nos expõe uma visão condizente ou complementar da anterior: “Quando os homens se equilibrarem internamente e passarem a exercer um maior controle sobre as suas ações, emoções e pensamentos, com certeza a natureza responderá positivamente gratificando a vida, que se formará cada vez mais bela e davidosa, fornecendo em abundância tudo quanto precisamos sem haver pragas daninhas que venham destruir os frutos do esforço e trabalho realizado”.

No mesmo caderno, Luciola, todavia, faz afirmações mais valentes e ousadas: “Segundo ensina a Sabedoria Iniciática das Idades, a matéria que forma os diversos Planos destina-se a ser trabalhada e burilada a fim de que o Corpo da Divindade, formado pelos mesmos Planos Cósmicos, se aperfeiçoe cada vez mais, e isso realiza-se através da ação no Plano Físico; das emoções e sentimentos no Plano Astral; e dos pensamentos no Plano Mental. Sem dúvida o homem é elemento fundamental na execução do Grande Plano da Mente Universal. A matéria virgem da natureza é neutra, e por sua permeabilidade pode assumir a forma que a nossa mente lhe imprima. Assim, podemos criar coisas boas ou más pelo exercício da nossa vontade. Também o Logos, através das diversas Hierarquias de Seres Celestiais criou as criaturas e as formas que povoam os diversos segmentos da Criação, incluindo o homem. O homem, por também ser da Hierarquia Criadora, possui o dom de criar. Infelizmente, nem tudo o que ele cria é perfeito, ao contrário das criações oriundas da Mente Divina, que somente geram o bom, o belo e o perfeito, para maior glória de Deus Manifestado”.

Por sua vez, Ariel Guttman e Kenneth Johnson (em seu já referido “Astrologia e Mitologia”) desenvolvem esta tese (que combinada com os estudos de Luciola) nos mostra como, holisticamente, mesmo certas elites tentam comandar, no topo, certos processos. As Egregóras são modificadas ao ser modificados os potenciais de seus arquétipos.

Mesmo se a essência arquetípica prevalecer, muda a forma, o relacionamentos e certos conteúdos do mesmo arquétipo; podendo ser negativo ou positivo, dependendo da tónica evolutiva da humanidade e da maneira de relacionar-se com o mesmo (ou bem desde s sua sombra inconsciente e subconsciente ou bem desde a luz do se coração, livre de cargas, e radiante).

Guttman e Johnson o expressam assim: “segundo a perspetiva astrológica, poderíamos dizer que a descoberta e o batismo de um novo planeta é uma dramática incidência de sincronicidade, que possui implicações para todos os habitantes do planeta Terra. Deve-se observar que novos planetas (ou asteroides ou cometas) são batizados por quem os descobre e que estes indivíduos têm pouco simpatia pela astrologia. Mesmo assim, os nomes mitológicos que dão aos planetas têm, na maioria dos casos, uma relação misteriosa com o verdadeiro funcionamento desses planetas no mapa astrológico. A descoberta dum planeta, a pessoa escolhida para descobri-lo, seu batismo e seu impacto místico sobre o consciente humano combinam-se numa teia de sincronicidade que dá origem a um novo arquétipo coletivo”.


Inferimos nós que a mudança coletiva da humanidade gera mudança no relacionamento com os arquétipos, surgindo uma nova visão – interpretação filosófica, cientifica, cultural, social, política e mesmo ontológica ou mística que obriga a uma mudança na forma de conceber os arquétipos, mas que não afeta sua essência. Muda a forma prevalece o príncipio.

 

A Egregóra coletiva se vê afetada por este facto. Assim também Guttman e Johnson o manifestam: “Saturno ascendente no mapa astrológico ativaria uma sombra escura sobre a vida duma pessoa. Mas, hoje, é diferente. Em uma sociedade em que começamos a perceber que a evolução humana está embebida duma substância divina e que padrões negativos do passado pedem ser transformados em situações de crescimento dinâmico e a realidade tornar-se aquilo que é criado a cada momento por nossos padrões de pensamento e sistemas de crenças, Saturno no ascendente não é apenas uma sombra escura: é também a dinâmica interna que leva o individuo a alcançar a maior realização da sua vida – a consciência”.

Trabalhar a sombra individual e coletiva permite a Luz Solar penetrar a mesma – e iniciar o energético processo de mudança – evolutiva – elevação.

Mas sem Revelação – que permita observar, trabalhar e modificar inércias – não será possível realizar esse caminho (não há guia). Falta luz e a sombra prevalecerá criando jogos de sombra no inconsciente – que a seguir serão refletidos no consciente – entretendo-nos e desviando o foco da atenção e centralizando toda nossa energia nos jogos “banais” – “efémeros”-”doentes” e mesmo perversos – da mente.

A Revelação abre a porta da Redenção (clarificar a mente e reverter a velha inércia) – permitindo, a seguir, a Reintegração (passar a integrar um plano mais elevado) – que permita, por sua vez, uma melhor conexão com a Unidade.

O caminho do herói-heroína na transformação da sua alma – Psyche – tem como prémio maior chegar àquele momento em que a Revelação se torne “Iluminação” e acontecer, como descreve Akhenaton, no seu hino ao sol: “na maior de todas as alvoradas – Elevar-nos!”

O arquétipo do “Filho Solar” que representa esta vitória (morte e ressurreição) segue a ser o mais poderoso e agasalhado na nossa civilização ocidental. O Titã Hélios conduzindo o carro do Sol (tema de poder da famosa estátua de Rodes – o Colosso) simboliza este arquétipo. Rodes por sua parte era ilha consagrada ao culto arquetípico do mesmo Hélios.

Os gregos transformaram a cidade egípcia de Lunet Mehet – o “Pilar do Norte” – em Heliopolis ou cidade do Sol, mantendo em ela a devoção à divindade solar egípcia de Amon-Rá. Com a fundação de Alexandria, Heliopolis vai perder relevância. 

O filho solar – tem sua contraparte – ou filho lunar. Sendo ambos aspetos contrapostos, num universo dual, do mesmo (universal) arquétipo. O guerreiro solar desenvolve o aspeto protetor, o guerreiro lunar o predador – ambos dentro da coluna do Rigor.

Por sua parte, o filho Amoroso – equilibrado desenvolve o aspeto curativo – redentor – sendo o verdadeiro “cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”; enquanto o filho amoroso desequilibrado – “cordeiro de deus que tira erroneamente pecados do mundo” desequilibrado no excesso de amor; permite o abuso que cria maledicência, sem reparar o maltratador no sacrifício do filho amoroso em excesso.

Lembrar que a harmonia natural, como ensina o Tao, sempre busca o equilíbrio do Amor Rigoroso e do Rigor Amoroso.

A luta do filho solar contra a serpente (presente em muitas mitologias) é interpretada por algumas autoras feministas como a constatação da chegada do período patriarcal guerreiro que mata o antigo culto à Deusa Mãe (mais pacifica) representada pela serpente. No entanto, achamos nós estar diante de um simbolismo mais profundo que representa o vencedor do seu inferior, a serpente que se arrasta pelo plano material que, por sua vez, pode deixar-nos indícios do fim de um ciclo matriarcal já em decadência entrópica, associando a serpente ao lado feminino caído nas sombras do caminho anti-evolutivo ou involutivo contrário ao bom caminho ou Dharma – e dizer o Adharma.

Assim, Apolo vencendo a serpente que lhe impedia a entrada na ilha de Delfos (onde irá situar seu templo) pode representar, para além do vencimento de sua sombra inconsciente inferior, também a substituição (ocultamento) do velho culto feminino lunar agora decaído. Mudanças ciclícas de um polo a outro até à humanidade, por meio de elevar sua tónica espiritual e atingir de novo o equilibro que permite cultuar (sem véus), no amor-sabedoria e no rigor, tanto o sagrado feminino como o masculino.

Deste modo, poderemos melhor interpretar Yaweh vencendo o Leviatã, Indra abatendo o dragão Vitra, Thor derrotando a serpente Midgar, Zeus lutando com Tifão ou Marduk com Tiamat, assim como poderemos melhor interpretar essa cíclica subordinação (aqui do ciclo patriarcal impondo-se sobre um matriarcado em decadência), enquanto vencemos a nossa sombra psíquica inferior (individual e coletiva). Pois a serpente que Apolo mata vive debaixo da terra, simbolo universal do submundo: subconsciente e inconsciente.

 

Dai de novo se entender como o trabalho do conhecimento, da transmutação e do melhoramento na realização precisa desvendar a sombra da ignorância que impede a visão revelada de conquistar a devida evolução, quebrar as portas da ignorância. Saber que permita de novo entender e cultuar o poder do sagrado feminino e masculino, a par, ativando o Grande Arquétipo Universal dos Gémeos.

(termina na próxima edição)

Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.

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