
1.
Ele abre as portas de sombra numa estreita
aplicação de insustentável tristeza.
Não é o nocturno território da matéria urgente
que ele procura, mas o inocente nascimento
de um corpo longínquo.
Com a sua nobreza frágil e virgem
ele saboreia o fruto vivo de uma densa necessidade.
2.
Tem o rosto leve de uma dança
e uma profunda inocência quando
flutua em torno da mesa. Nas suas mãos
uma porta se abre na puríssima lentidão
de uma nudez frágil.
3.
Agora, permanece na interioridade de um tempo
residencial, áspero e monótono como a sua harmonia.
Ele é residência materna.
Íntimo e anónimo como uma casa.
E tão volumoso no seu repouso fértil.
4.
Como um perfume abrindo as paredes do seu odor
ele atravessa a ferocidade do abandono.
O dia estremece sulcando a estrutura do seu peso.
A sua voz cai vergada pelo pudor do delírio.
Que gentil é permanecer no interior do seu coração.
5.
Ele procura a tranquilidade lúcida.
Uma ligeira denúncia que no rigor dos seus contornos
invadisse o corpo redondo.
A circulação do sono permanece absurda
e inconfessável. A claridade dispersa a sua aérea
figura. É necessário esquecer a vulnerável melancolia
que ondula na respiração intensa.
E na permanência de um clamor negro
ser a presença sólida.
Aberta à tranquila interrogação do tempo.
6.
Ele destrói na sua voz todas as palavras
em sucessivos voos.
O que ele transporta derruba todas as fronteiras,
na imensidade frágil dos seus passos.
Que coisa única que ilumina a violenta alegria do rosto.
E permite que as palavras lhe sejam maternas.
7.
Na sua inocência tudo é íntimo como um desejo.
Levíssima a luz vem respirar nas suas mãos.
Os olhos já não procuram, já não inventam.
A casa permanece exacta e aberta e reúne
o silêncio entre as palavras.
Ele não sabe por que se perde uma coisa na vida.
Nunca sabe que coisas vão interpretar o lugar
do que se perdeu.
É precisamente como quando se escreve.
Ignoramos para sempre tudo
o que não chega a ser escrito.
8.
Ele surge do secreto domínio do nascimento.
E num latido atinge o obsessivo rigor da glória.
Que violência lhe pesa na flexível claridade do rosto.
Tudo se consagra na antiguidade
que as palavras lhe murmuram.
9.
Pela casa nasce balbuciante e puro.
E na evidência de uma linguagem porosa
ele corre como a água num delicioso movimento.
Entre a cama e o corpo o domínio do fogo
na sua fuga brilhante.
Circulação nocturna lucidez.
10.
Ele está sentado.
A cadeira permite-lhe um rigoroso conforto.
A sua posição é o desenho de uma figura
delicada entregue ao abandono.
O seu pensamento constrói o fresco desejo
num ímpeto iluminante. As mãos espessas tão altas
brilham entre os opulentos anéis do silêncio.
11.
Tão vasto e luminoso, ele desafia a domesticidade
espessa. Como um ágil lume, oscila entre a dura
inocência do lar e a lentidão magnífica de uma
felicidade nupcial.
Nos tumultuosos planos do seu pensamento
ele rasga a nocturna linguagem em minúsculas
colunas secretamente fulgurantes.
As palavras invadem-lhe os movimentos iniciais
para controlar a ampla pureza de um corpo
em paciente procura.
Lento e absoluto, ele percorre o interior da casa.
E a cidade surge como um leque universal.
12.
Ele leva a cidade para casa.
Entra na sala e aí permanece
como se estivesse no meio de uma praça.
Nem o rumor frágil
nem a essência imperdoável
o fazem desistir do falso cenário.
Evita os objectos amados
e sobre a sua cidade se movimenta
recolhendo no corpo os sinais
de uma cumplicidade insubmissa.
13.
As cidades têm as suas palavras.
Os seus caminhos solares.
A sua fragilidade tranquila.
A leitura duma cidade é permanente e ágil,
como um transporte verbal,
sólido no seu rumor dinâmico,
entre os blocos residenciais
e um campo nupcial.
As cidades são sempre sem regresso,
em que a inocência inspira
o abandono circular,
como se reunisse na sua existência
luminosa a fértil lucidez,
o nascimento transfigurável
de uma presença harmoniosa,
tão perfeita na sua insubmissa
qualidade habitável.
14.
Ele faz todos os dias a divisão do tempo.
E com as palavras enfurece as arestas
da terrível inocência.
Os móveis ateiam-lhe o cansaço na lentidão dos braços.
Alguém surge no pensamento com uma vagarosa incerteza.
Todo o trabalho perfuma o rumor das suas mãos.
O silêncio espreita nas longas faces da sua nudez.
Para alimentar as oscilantes folhagens da voz.
15.
Ele abre os livros à procura de lucidez.
E compreende que lentos são os caminhos
no interior do seu próprio corpo.
A casa constrói-se na secreta felicidade do seu canto.
A turbulência terrestre ameaça os ásperos atalhos do tempo.
Para lhe respirar os sucessivos planos da vida.
16.
Ele abre um livro
e com um sopro trémulo transforma as palavras
em lugares luminosos.
Ele faz caminhar o fértil desejo
por uma rua da sua cidade.
Ou fecha-se em casa como um bicho de contas
redondo e imóvel, desafiando lentamente
os tempos luxuriantes,
os largos silêncios que lhe fecham todas as portas.
17.
Intensas portas o encerram sem um único sinal habitável.
Não há solidão, mas pedras sobre pedras.
Não há palavras, mas outros caminhos
a partir das palavras.
Ele permanece no seu anel
mas é a totalidade que atinge o universo.
Fernando Esteves Pinto
Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Vive em Faro.
Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).
PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; LITERATURA PORTUGUESA; POESIA PORTUGUESA










