Cultura

Ensaio entre portas | Fernando Esteves Pinto

Foto de heba AlWahsh na Unsplash

1.

Ele abre as portas de sombra numa estreita 

aplicação de insustentável tristeza.

Não é o nocturno território da matéria urgente

que ele procura, mas o inocente nascimento

de um corpo longínquo.

Com a sua nobreza frágil e virgem 

ele saboreia o fruto vivo de uma densa necessidade.

 

2.

Tem o rosto leve de uma dança

e uma profunda inocência quando

flutua em torno da mesa. Nas suas mãos

uma porta se abre na puríssima lentidão

de uma nudez frágil.

 

3.

Agora, permanece na interioridade de um tempo

residencial, áspero e monótono como a sua harmonia.

Ele é residência materna.

Íntimo e anónimo como uma casa.

E tão volumoso no seu repouso fértil.

 

4.

Como um perfume abrindo as paredes do seu odor

ele atravessa a ferocidade do abandono.

O dia estremece sulcando a estrutura do seu peso.

A sua voz cai vergada pelo pudor do delírio.

Que gentil é permanecer no interior do seu coração.

 

5.

Ele procura a tranquilidade lúcida.

Uma ligeira denúncia que no rigor dos seus contornos

invadisse o corpo redondo.

A circulação do sono permanece absurda

e inconfessável. A claridade dispersa a sua aérea

figura. É necessário esquecer a vulnerável melancolia

que ondula na respiração intensa.

E na permanência de um clamor negro

ser a presença sólida.

Aberta à tranquila interrogação do tempo.

 

6.

Ele destrói na sua voz todas as palavras

em sucessivos voos.

O que ele transporta derruba todas as fronteiras,

na imensidade frágil dos seus passos.

Que coisa única que ilumina a violenta alegria do rosto.

E permite que as palavras lhe sejam maternas.

 

7.

Na sua inocência tudo é íntimo como um desejo.

Levíssima a luz vem respirar nas suas mãos.

Os olhos já não procuram, já não inventam.

A casa permanece exacta e aberta e reúne

o silêncio entre as palavras.

Ele não sabe por que se perde uma coisa na vida.

Nunca sabe que coisas vão interpretar o lugar

do que se perdeu.

É precisamente como quando se escreve.

Ignoramos para sempre tudo 

o que não chega a ser escrito.

 

8.

Ele surge do secreto domínio do nascimento.

E num latido atinge o obsessivo rigor da glória.

Que violência lhe pesa na flexível claridade do rosto.

Tudo se consagra na antiguidade 

que as palavras lhe murmuram.

 

9.

Pela casa nasce balbuciante e puro.

E na evidência de uma linguagem porosa

ele corre como a água num delicioso movimento.

Entre a cama e o corpo o domínio do fogo

na sua fuga brilhante.

Circulação nocturna lucidez.

 

10.

Ele está sentado.

A cadeira permite-lhe um rigoroso conforto.

A sua posição é o desenho de uma figura 

delicada entregue ao abandono.

O seu pensamento constrói o fresco desejo 

num ímpeto iluminante. As mãos espessas tão altas

brilham entre os opulentos anéis do silêncio.

 

11.

Tão vasto e luminoso, ele desafia a domesticidade

espessa. Como um ágil lume, oscila entre a dura

inocência do lar e a lentidão magnífica de uma

felicidade nupcial.

Nos tumultuosos planos do seu pensamento 

ele rasga a nocturna linguagem em minúsculas

colunas secretamente fulgurantes.

As palavras invadem-lhe os movimentos iniciais

para controlar a ampla pureza de um corpo

em paciente procura.

Lento e absoluto, ele percorre o interior da casa.

E a cidade surge como um leque universal.

 

12.

Ele leva a cidade para casa.

Entra na sala e aí permanece

como se estivesse no meio de uma praça.

Nem o rumor frágil

nem a essência imperdoável

o fazem desistir do falso cenário.

Evita os objectos amados

e sobre a sua cidade se movimenta

recolhendo no corpo os sinais

de uma cumplicidade insubmissa.

 

13.

As cidades têm as suas palavras.

Os seus caminhos solares.

A sua fragilidade tranquila.

A leitura duma cidade é permanente e ágil,

como um transporte verbal,

sólido no seu rumor dinâmico,

entre os blocos residenciais

e um campo nupcial.

As cidades são sempre sem regresso,

em que a inocência inspira

o abandono circular,

como se reunisse na sua existência

luminosa a fértil lucidez,

o nascimento transfigurável

de uma presença harmoniosa,

tão perfeita na sua insubmissa

qualidade habitável.

 

14.

Ele faz todos os dias a divisão do tempo.

E com as palavras enfurece as arestas

da terrível inocência.

Os móveis ateiam-lhe o cansaço na lentidão dos braços.

Alguém surge no pensamento com uma vagarosa incerteza.

Todo o trabalho perfuma o rumor das suas mãos.

O silêncio espreita nas longas faces da sua nudez.

Para alimentar as oscilantes folhagens da voz.

 

15.

Ele abre os livros à procura de lucidez.

E compreende que lentos são os caminhos

no interior do seu próprio corpo.

A casa constrói-se na secreta felicidade do seu canto.

A turbulência terrestre ameaça os ásperos atalhos do tempo.

Para lhe respirar os sucessivos planos da vida.

 

16.

Ele abre um livro

e com um sopro trémulo transforma as palavras

em lugares luminosos.

Ele faz caminhar o fértil desejo

por uma rua da sua cidade.

Ou fecha-se em casa como um bicho de contas

redondo e imóvel, desafiando lentamente

os tempos luxuriantes,

os largos silêncios que lhe fecham todas as portas.

 

17.

Intensas portas o encerram sem um único sinal habitável.

Não há solidão, mas pedras sobre pedras.

Não há palavras, mas outros caminhos

a partir das palavras.

Ele permanece no seu anel

mas é a totalidade que atinge o universo.

 

Fernando Esteves Pinto

 

Fernando Esteves Pinto

Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Vive em Faro.

Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).

PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; LITERATURA PORTUGUESA; POESIA PORTUGUESA

 

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