Poesia & Conto

A função da arte é nutrir de impulsos | José Manuel Simões

Foto de Daniel Esteves na Unsplash

DuArte e António passaram o Natal em casa de Fernando Marcelo e, não fosse a distância e as saudades da mãe, teriam tido uma noite memorável. Dois dias depois, as despedidas, algumas lágrimas na hora do abraço ao Fernando, ao Paulinho, ao Bebeto, à Sandra, à Laura, ao Martinho, à Danjavi.

 

Foram para o Rio de Janeiro e, em Copacabana, travaram amizade com dois suecos que lhes ofereceram um esplendoroso banquete num dos bares do calçadão, mesmo em frente ao mar, e com eles passaram um réveillon inesquecível. Uma moça de nome Soraia e uma amiga, a Francisca, ambas de Belo Horizonte, juntaram-se ao grupo. António, atrevido que sempre foi, tocava a perna de Soraia por baixo da mesa, subtilmente, diga-se, prometendo-lhe que a levava para Portugal, que queria namorar com ela, que DuArte não era filho mas irmão.

 

Levantou-se sem avisar e rumou à praia, uma multidão de gente de branco vestido, muitos credos, religiões, candomblé, axé, grupos de música, oferendas e bruxarias, bêbados e maconheiros. Por mais incrível que lhe parecesse, subitamente viu Tina Turner com um ramo de rosas vermelhas na mão a sair do Hotel Copacabana Palace. Atrás, umas morenaças atrevidas gritando por ela. Não resistiu e avançou na sua direção, longo vestido branco, o ramo de flores abraçado para ofertar a Iemanjá, deusa dos mares. Passavam poucos minutos da meia-noite do dia 1 de Janeiro, abeirou-se dela com uma doçura que a enterneceu, “happy new year miss Tina”. Pegou- lhe na mão, beijou-a uma vez com extrema delicadeza e fez-lhe uma vénia falsamente comovente. Ao olhá-la nos olhos, estranhou ver uma mulher sofrida, confusa, qual sobrevivente de alguns canalhas que lhe tinham cruzado a vida com monumentais caprichos, vexames racistas que lhe magoavam a cor da pele e a ascendência indígena. Admitia estar enganado, mas o que viu naqueles olhos foi essencialmente dor e sofrimento. Caminharam em direção à areia da praia, ela consentindo a sua companhia com um ligeiro abanão de cabeça na direção dos seguranças que se aproximavam, irradiando um sorriso aparente, ele ainda no mesmo registo, recordando-a usada, manipulada, explorada desde aquela noite em que se apresentou num bar de Saint James onde um tal de Ike dirigia uma orquestra de rythm’n’blues e atacou as curvas da menina, então com 17 anos, que se mexia tão bem como cantava, filão visual apelidada de bomba sexual.

 

Quando a voz marcada pelo génio lhe perguntou o nome, pareceu-lhe que estava envolvido num filme em que ele era um figurante a idolatrar a estrela que naquele momento não tinha nada do furacão que se imaginaria, não ondulava o corpo, não era a mesma fêmea irresistível nem a rainha dos palcos.

 

Nas areias comemoravam-se rituais, acendiam-se velas, pediam-se bênçãos para o ano novo. Parece impossível, mas mais ninguém se aproximou da estrela em passos descalços e lentos rumo ao mar. Não viu gestos lascivos nem vislumbrou as famosas pernas por debaixo do vestido branco, mas imaginou saborear-lhe a língua a passar-lhe pelos lábios, a temperatura a aumentar, ele a lembrar-se daquele concerto em Boston em que terminou a performance com o microfone dentro da boca. Jogou as flores ao mar, ajoelhou-se na areia, olhou-a uma última vez, ícone, inacreditavelmente tangível.

 

“O que somos vem a caminho desde as margens que só em sonhos revisitamos (…) eu sei que só cada um de nós tem o poder de embaciar o cristal da vida”, lembrou-se das palavras do ilustre humanista Eduardo Lourenço quando no dia 1 de Janeiro pegou o autocarro para São Paulo com o seu pai no lugar ao lado.

 

Chegados à capital paulista, a António impressionaram-no os arranha-céus e as muitas luzes, os cinemas, teatros e bares boémios. A maior metrópole do Brasil, a terceira do mundo, deixava-o orgulhoso, nem que fosse por estar ali. Personalidade, agitação e trabalho são as três palavras que melhor definem esta cidade, atributos que o pai sempre preservou como ser humano. O paulista é feito de profissionalismo, algo solitário e esquivo, afinal tal como António.

 

A vida concentra-se para as bandas da Avenida Paulista, onde se cruzam gravatas e cultura. Percorreram a zona dos Jardins, foram ao MASP, Museu de Arte de São Paulo, e fruíram bons exemplos de vida artística. Nos subúrbios, onde foram comprar o carro – o senhor Peralta conhecia um vendedor de automóveis que vivia por aquelas bandas – viram casas de madeira com chão de terra batida. Para ali, explicou, foram afastadas as camadas mais pobres da população. “Na Zona Norte, como podem ver, ainda há muito a resolver, sobretudo porque, quando chove, estes bairros transformam-se num caos”. 

 

Peralta, vaidoso por revelar aos conterrâneos o conhecimento que possuía de 40 anos de São Paulo, falou – com algum negativismo, afinal próprio de uma certa portugalidade – que a sua cidade “vive do comércio e sobretudo da indústria dos arredores. Cubatão, a caminho de Santos, é o santuário da ecologia morta. O rio Cubatão é preto e já estão a aparecer casos alarmantes de paralisia infantil devido à poluição. O índice de crianças que nascem com problemas cerebrais é o maior do Brasil. O ar carece totalmente de oxigénio e as nuvens são de fumo. São Paulo tem muitas coisas boas mas também tem muitos problemas por resolver”.

 

Hortência, a filha, intervém na conversa, referindo que “no centro de São Paulo o cenário é outro. A rua Augusta é abrilhantada por ricas damas e a São Luís por casais chiquérrimos que se deleitam ao sabor de um piano que com certeza estará tocando em alguns dos seus múltiplos bares. Por lá também aparecem muitos travestis e prostitutas que colocam a antiga reputação do bairro em causa. Em S. João as pessoas são mais pobres mas a seriedade é a mesma. O paulista é frio mas tem personalidade. Daí a rivalidade com o carioca que prefere a malandragem ao trabalho. As elites encontram-se na Avenda Paulista e nos Jardins a saborear a requintada e variada gastronomia local em conceituados restaurantes de cozinha francesa, italiana ou japonesa cujos proprietários descendem dos muitos emigrantes que no século XIX foram chegando. Um bom exemplo dos bairros étnicos é o da Bela Vista, no Bairro da Bexiga, cuja maioria dos habitantes é oriundo de famílias de italianos, o Bairro da Liberdade que se confunde com algum bairro do Japão, o Bairro de Higienópolis onde se encontram inúmeros judeus.

 

Atualmente são menos os emigrantes que chegam a São Paulo e mais os migrantes vindos sobretudo do Nordeste em busca de melhores condições de vida o que, na maioria das vezes, não passa de uma ilusão”.

 

Hortência, com quem subiu ao Edifício Itália para um dos mais iluminados cenários paulistas em noite abrilhantada por muitas estrelas, é uma pessoa especial e não foi difícil para ambos aproximarem-se. Ela convidou-o para irem juntos ao show de Arnaldo Antunes, que tinha sido dos Titãs e que DuArte tinha visto no Festival Hollywood Rock no Rio. Hortência trabalhava numa editora de música e conhecia meio mundo em São Paulo. Entre essa imensidão de gente importante, Arnaldo, grande figura do mundo das artes, voz, poesia, instalação, performance, que os convidou para o backstage. Hortência abraçou-o com ternura, DuArte aproximou-se, sorrisos rasgados, na hora partilhados, ficaram igualmente amigos. Aquela magia que une afins despertou neles sentimentos recíprocos e raras afinidades, adorou o concerto, a palavra em si como centro nevrálgico da performance sob camisas brancas gigantes. Nos camarins, também a mulher da altura, a teclista Zaba, e dois filhos, a Rosa de traços índios e olhar perspicaz, o pequeno Brás extasiado com o mundo, o mesmo interesse sonoro pelas palavras que o pai, poeta brincando com as sílabas como peças de puzzle. Entre copinhos de vinho parafrasearam Ezra Pound, “a função da arte é nutrir de impulsos”, brincaram com registos de emissão vocal que foram do grito ao sussurro, mistura de sensações, ação teatral e música numa simultaneidade de discursos e raciocínios, Camões e Antunes possibilitando distintos planos de apreensão de várias linguagens. Com aquela família ficou como que contaminado por vocábulos que se iluminavam ou escondiam, envolvendo-o num cerco que alastrava das paredes ao teto. Às tantas, o mote da conversa era a desordem, passando a perceber na intimidade o porquê de Arnaldo Antunes ser o artista brasileiro que melhor consegue fazer a ponte entre diferentes códigos, derrubar obstáculos entre géneros, misturar elementos. Tanto na linguagem como no estilo o que lhe interessa é criar um trânsito fluente com as mais variadas criações artísticas e, entre mais um brinde, uma sede de estranhamento e originalidade. Rara, invulgar e multifacetada.

 

DuArte recorda frases que naquela noite ele lhe disse, como “Tudo é pouco quando não é demais”, “A alma é para ser usada” ou “Ouvido ouve o que quer e o que não” que descobriu numa espécie de curto-circuito dos sentidos em atrito. “Esse é precisamente o meu objetivo. A busca inicial é despertar e alterar os sentidos”, falou, afinidade do tamanho da admiração.

José Manuel Simões

 

Fotografia de José Manuel Simões

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos. 

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