Política

Eleições no Brasil, divisão e abismo social | Wesley Sá Teles

No dia 2 de outubro de 2022 o Brasil celebra sua 9ª eleição presidencial desde a redemocratização do país após o fim da ditadura militar (1964-1985). 

 

A sociedade brasileira, deve escolher entre a reeleição do atual presidente Jair Messias Bolsonaro e uma possível candidatura de Luis Inácio Lula da Silva, que foi absolvido pelo Supremo Tribunal Federal, por irregularidades no processo que lhe acusava de corrupção, após a comprovada malversação e posicionamento  parcial do então juiz Sergio Moro (que foi posteriormente ministro de justiça de Bolsonaro) e que atuou em conluio com a promotoria dirigida por Deltan Dellagnol, para promover a condenação de Lula ainda sem provas cabíveis de sua implicação ou de sua possessão do famoso triplex do Guarujá, além de interferir no direito de defesa do ex-presidente e no próprio andamento das investigações. 

 

“Ou o Hacker é um ficcionista ou estamos diante da maior farsa jurídica da história” disse o ministro do Tribunal Supremo Gilmar Mendes ao julgar o caso do ex-presidente Lula e concluiu com a frase “Não se pode combater o crime, cometendo crime”, colocando fim a um episódio turvo na história da democracia brasileira e das investigações que foram altamente politizadas.

 

Desde a absolvição de Lula e a recuperação de seus direitos políticos, o mesmo lidera as pesquisas eleitorais, sendo alvo constante de críticas por parte da gestão atual.

 

Por outro lado, os contínuos devaneios e polêmicas de Bolsonaro e sua família, somados ao pior resultado econômico interno desde a crise dos anos 80, foram pouco a pouco minando os apoios e a credibilidade do presidente, até mesmo entre os membros de sua equipe.

 

Desde que começou sua gestão, o governo Bolsonaro promoveu um discurso conservador e cheio de polêmicas que foram derrubando sucessivamente sua equipe de governo, dos 22 ministros que começaram a governar ao lado de Jair Bolsonaro, apenas 9 se mantêm no cargo, sendo as saídas mais controversas, as do Ministério de Saúde, com a renúncia de 5 ministros em plena pandemia e as do Ministério de Educação, todas sempre acompanhadas por polémicas e suspeitas de corrupção.

 

Cabe também ressaltar que a gestão atual é a mais militarizada da história do país, superando até mesmo a época da ditadura militar, com diversos generais participando como ministros ou secretários de Bolsonaro, e assim como aconteceu na ditadura, cada suspeita em relação à gestão do país ou a ação de Bolsonaro e seus aliados, foi abafada com uma declaração de sigilo ou mediante barreiras burocráticas, tais como as contas do cartão corporativo, do cartão de vacina do presidente durante a pandemia e mais recentemente o sigilo sob suas reuniões com líderes evangélicos em relação à distribuição dos recursos do Ministério de Educação.

 

A sociedade brasileira nunca esteve diante de tamanha divisão e abismo social, por um lado o país conta com aproximadamente 30% dos eleitores que são fiéis a Bolsonaro e que vivem absortos em sua própria realidade, por outro se posicionam o resto da população que se divide em uns 40% aproximadamente de apoiadores de Lula e outros 30% indecisos ou apoiadores de um candidato ainda não estabelecido representante da chamada “terceira via”. 

 

A desigualdade social é outro crescente dilema que enfrenta a sociedade, já que houve uma redução substancial no orçamento destinado aos programas sociais e áreas fundamentais tais como a saúde, educação e pesquisa, que foram fortemente afetadas.  O que produziu uma fuga de cérebros e da classe média, com o incremento dos fluxos migratórios, muitas vezes superior a 100%,  para países da Europa tais como Portugal ou Espanha e para os EUA.

 

O desemprego e a inflação, pressionada pela desvalorização da moeda, teve como resultado a volta galopante da fome e da miséria, com cenas que marcaram a sociedade tais como pessoas fazendo filas para comprar ossos, venda de restos de produtos ou alimentos vencidos, supermercados invadidos, instalação de lacres de segurança na carne e demais produtos, aumento de queimaduras por uso de álcool como substituto do gás e o aumento da subnutrição e a descida da antes chamada “nova classe média” ao patamar da pobreza. 

 

Assim mesmo, a ação tardia do governo em relação à pandemia, devido ao posicionamento abertamente negacionista do presidente, acumulou milhares de mortos, afetando a renda familiar de parte da população.

 

Por outro lado, a fortuna do grupo dos mais ricos aumentou durante estes anos da gestão Bolsonaro, incrementando o índice de desigualdade social e a concentração de capital e renda. Já que os resultados obtidos com o incremento das exportações e a privatização dos recursos nacionais, não foram revertidos na sociedade, que passou a pagar mais pelo produto nacional, valorizado quando comparado à demanda internacional e aos preços internacionais. Compensava mais para o produtor nacional vender seu produto para o exterior que para o mercado interno.

 

O brasileiro passou a pagar mais por produtos tais como o arroz, o óleo de cozinha, a carne, o combustível, ainda morando em um dos maiores produtores do planeta e líder de mercado de diversos produtos.

 

O enfraquecimento do mercado interno, devido à redução do orçamento familiar e à falta de serviços e recursos públicos, adicionados à redução dos programas sociais, em um ambiente onde o endividamento da população já era alto, junto com a falta de planejamento estratégico e a competência internacional e por último a privatização de empresas estatais com a  falta de grandes investimentos públicos, retirou o principal comprador do mercado interno, que era o próprio Estado, não havendo substituição pelo consumo interno.

 

O mercado focando toda a sua produção para o exterior, provocou por um lado uma depressão crescente do consumo e por outro a saída de grandes multinacionais do país (Ford, Mercedes Benz, Renault, Nissan, Nikon, Sony, etc.) que já não estavam dispostas a operar em um mercado pouco atrativo e incapaz de aprovar medidas estruturais para reduzir os custos e os riscos, impactando em toda a cadeia de produção, levando ao aumento do desemprego, incremento da pobreza e ao ressurgimento da fome, gerando um ciclo de escassez que levou a desaprovação de uma parcela que apoiava ao governo.

 

A pandemia veio a agravar a situação e embora não seja o principal motivo do baixo desempenho do Brasil (já que o país já acumulava uma série de retrocessos em sua estrutura macroeconômica) foi, porém o auge do declínio econômico da nação e do gesto Bolsonaro, pois se formou a tempestade perfeita, cujos resultados são perceptíveis nas ruas e nos mercados.

 

O embate entre negacionistas e defensores das medidas sanitárias, representados pelos apoiadores do governo e os detratores, prolongou a crise e postergou a capacidade de resposta do Brasil que concentrou ainda mais parte de sua economia no mercado de exportação cujas cadeias de produção e distribuição foram amplamente danificadas ao longo do lockdown, sem esquecer de que o mercado interno estava muito enfraquecido como para manter flutuando a economia, provocando uma crise estrutural do famoso tripé econômico que mantinha o plano Real e que permitiu o crescimento econômico do país junto aos programas sociais da era Lula.

 

De modo que as eleições no Brasil devem acontecer em um clima de tempestade, divisão e crescente descontentamento social, sendo a pandemia usada como desculpa da atual gestão pelo seu desempenho pífio, embora em uma análise mais ampla, o governo Bolsonaro começou a ruir desde o primeiro dia que o presidente tomou posse ou até mesmo antes, ao não participar de nenhum debate presidencial e se nutrir de outras visões, por não contar com um plano de governo consolidado e estratégico, mas sim um conjunto de visões e ideais, muitas vezes fundamentados no achismo e no discurso populista, olavista e neopentecostalista do presidente que sem nenhum conhecimento profundo de como funciona o país, nem sua macro e microeconomia levou a nação que era exemplo de desenvolvimento e crescimento no sul global a um estado pária e em situação de anomia.

 

Certo é que acreditar na vitória de Luis Inácio Lula da Silva seja algo ainda prematuro assim como nos resultados de sua possível presidência, sem embargo no que deve refletir o eleitor brasileiro é na própria realidade, em tudo que mudou com essa gestão, em todos os escândalos abafados e questionamentos sem respostas, em como funcionava o país com um direcionamento desenvolvimentista frente à atual gestão baseada na dependência externa. O brasileiro deve pensar em quem foi beneficiado pelo governo Bolsonaro e quais foram os resultados de suas decisões no seu quotidiano, e onde ele deseja que os recursos de uma das nações mais ricas do planeta sejam revertidos e quem deve se beneficiar de tudo isso, sem usar desculpa dos fatores externos e internacionais e caso deseje pensar no impacto destes, refletir em que direcionamento deve tomar a economia do Brasil… deve se focar no interior ou no exterior?

 Wesley Sá Teles Guerra, brasileiro, residente em Ourense (Galicia), PHd Candidate em Sociologia e Mudanças da Sociedade Contemporânea, Mestre em Políticas Sociais e Migrações, autor do livro Cadernos de Paradiplomacia e do estudo Brasil Galicia. Membro associado do IGADI – Instituto Galego da Análise e Documentação Internacional, do OGALUS – Observatório Galego da Lusofonia e da Associação Impulsora da Casa da Lusofonia. Fundador do Think tank CERES – Centro de Estudos das Relações Internacionais do Brasil. Contato: Wesleysateles@hotmail.com web: www.wesleysateles.com

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