
a água estanque:
a flor roxa olha
para o chão.
os pombos secam
suas asas no outdoor:
a vida simples.
o rio subaé barroso,
depois das chuvas,
vai manchar o mar.
aguapé do avesso
no Subaé barrento:
a força da correnteza.
o pombo anda
sob o asfalto quente:
pés delicados e feridos.
tarde de outono:
a chuva afoga o poema
antes dele nascer.
a torre da igreja
vista ao longe:
a fé na tarde.
homens pescam
no rio Subaé:
os peixes fogem.
debaixo da chuva,
o gari mantém
limpeza das ruas.
dia de sol:
espadas de São Jorge protegem
a calçada, os pedestres.
na Ladeira do Boqueirão
a calçada de pedra
prende o passado
manhã de sábado:
o casarão em ruínas
ainda se mantém de pé.
urubu pousa
na torre da igreja:
deus com asas.
urubu pousa
na torre da igreja:
a manhã se completa.
outono no sul do mundo:
a velha igreja olha
as distâncias de São Salvador.
no vaso da calçada
verdeja a manhã de sábado
em quase solidão.
no terraço
do velho casarão, a palmeira
cresce lentamente.
a velha casa
espremida entre casas velhas:
eis a insistência do tempo.
a parede descascada:
dali surgem rostos,
pássaros, poemas.
o palito de picolé
morto no asfalto:
a vida passa por cima.
a porta verde
mantém-se fechada e silente
na manhã de sábado.
quase meio-dia
em santo antonio além do carmo:
a vida acorda lenta.
a velha mesa verde
deixada sobre a calçada:
solidão à espreita.
depois do temporal,
se vê que o telhado centenário
ainda resiste à chuva.
o musgo na parede:
a vida vertical no outono
sempre permanece.
Rubens da Cunha, poeta, cronista, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.










