Cultura

Dos olhares, pela manhã, pela tarde | Rubens da Cunha

Foto de mdreza jalali na Unsplash

a água estanque:

a flor roxa olha 

para o chão.

 

os pombos secam 

suas asas no outdoor:

a vida simples.

 

o rio subaé barroso,

depois das chuvas,

vai manchar o mar.

 

aguapé do avesso

no Subaé barrento:

a força da correnteza.

 

o pombo anda

sob o asfalto quente:

pés delicados e feridos.

 

tarde de outono:

a chuva afoga o poema

antes dele nascer.

 

a torre da igreja

vista ao longe:

a fé na tarde.

 

homens pescam

no rio Subaé:

os peixes fogem.

 

debaixo da chuva,

o gari mantém 

limpeza das ruas.

 

dia de sol:

espadas de São Jorge protegem

a calçada, os pedestres.

 

na Ladeira do Boqueirão

a calçada de pedra

prende o passado

 

manhã de sábado:

o casarão em ruínas

ainda se mantém de pé.

 

urubu pousa

na torre da igreja:

deus com asas.

 

urubu pousa 

na torre da igreja:

a manhã se completa.

 

outono no sul do mundo:

a velha igreja olha

as distâncias de São Salvador.

 

no vaso da calçada

verdeja a manhã de sábado

em quase solidão.

 

no terraço

do velho casarão, a palmeira

cresce lentamente.

 

a velha casa

espremida entre casas velhas:

eis a insistência do tempo.

 

a parede descascada:

dali surgem rostos, 

pássaros, poemas.

 

o palito de picolé 

morto no asfalto:

a vida passa por cima.

 

a porta verde

mantém-se fechada e silente

na manhã de sábado.

 

quase meio-dia

em santo antonio além do carmo:

a vida acorda lenta.

 

a velha mesa verde

deixada sobre a calçada:

solidão à espreita.

 

depois do temporal,

se vê que o telhado centenário

ainda resiste à chuva.

 

o musgo na parede:

a vida vertical no outono

sempre permanece.

Fotografia Rubens da Cunha

Rubens da Cunha, poeta, cronista, professor da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia.

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