Cultura

Detetives da Filosofia | Coca Trevisan

Foto de Keren Fedida na Unsplash

DETETIVES DA FILOSOFIA

 

Quando digo que histórias em quadrinhos (HQ), Agatha Christie e Arthur Conan Doyle formam literatura filosófica e existencialista, alguns discordam.

 

Puro preconceito. 

 

Em “Um Caso de Identidade”, Sherlock Holmes destrincha frases que fazem o leitor ler duas vezes para entender seus conceitos.

 

Sherlock conversa com seu inseparável assistente Dr. Watson quando diz que o “observador contém a essência vital de toda a matéria. Afinal, não há nada tão antinatural quanto lugar-comum”.

 

Como diz o outro, peraí, como é que é?

 

O observador possui sua essência vital…

 

Perfeito. 

 

Serve de alerta para o leitor não cair nas garras das mídias malditas, ora, ele tem sua própria essência e seu conhecimento como observador/leitor.

 

Com a atual tecnologia, as redes sociais e a internet estão em todo lugar com seus formadores de opiniões que arrastam milhões de seguidores. 

 

E tem ainda os influencers e claro, os blogueiros. Portanto, Sherlock avisa, cuidado, somos observadores, temos nossas essências, apesar da opressão da indústria cultural. 

 

Eles querem seu tempo.

 

Eles querem que livros permaneçam nas prateleiras das livrarias e bibliotecas.

 

Eles querem que nossos debates sejam aqueles agendados por eles como revela a teoria da Comunicação, Agenda Setting, ou melhor, a Teoria do Agendamento. 

 

Eles querem ver o indivíduo isolado e impotente e pasmem, conseguem seguidores, aqueles que fazem parte da massa…eh ohhh…vida de gado e feliz…feliz?

 

Eles querem que nossas discussões no cafezinho, no bar ou no trabalho seja quem vai vencer o BBB. 

 

Não querem ver você observando com seu empirismo, mesmo porque não há nada tão antinatural quanto alguém dominado com suas ideias engessadas. 

 

Isto não é natural. 

 

Bom, não deveria.

 

Nada é tão “vesgo” quanto seguir conforme eles querem. Eles, sempre eles, querem que você permaneça no lugar-comum. 

 

Quieto.

 

Obediente. 

 

Eles querem nossos olhos embaçados com lentes sujas vivendo sem qualidade, pois assim seguem ditando suas normas. 

 

Suas malditas normas com interesses específicos.

 

Frantz Fanon alertou, governos servem para coagir e acrescento aqui o vigiar e punir de Michel Foucault. Porém, coação apenas aos colonizados.

 

Com rotinas como dos “Tempos Modernos” de Charles Chaplin, girando, girando…girando…

 

Sim, eles querem nos agendar, você, eu e o máximo possível de súditos.

 

Eles querem que nossas discussões sejam sobre quem vai ficar com quem embaixo dos edredons do BBB.

 

O alerta de Sherlock está aí…

 

Aliás, duas frases que servem de tema para graduação, mestrado e doutorado.

 

Não é a toa que o nome do caso trata de nossas conturbadas identidades pós-modernas.

 

Sherlock exige, saia do lugar-comum. 

 

Discorde, grite, ouse.

 

Podem ter certeza, eles não vão gostar.

 

É Zé Ramalho, é duro tanto ter e dar mais que receber. 

 

Socorro Sherlock, inspetor Poirot e inspetor Bugiganga.

 

 

 

fotografia de Coca Trevisan

O jornalista Coca Trevisan nasceu em Santa Maria, RS. Atuou como repórter e redator nos jornais NH, de Novo Hamburgo; VS, de São Leopoldo e Jornal Alto da XV, de Curitiba. Como profissional freelancer assinou matérias em diversos periódicos. Participou de workshops e atuou em debates sobre a Indústria Cultural dos anos 1980/90. Mais recentemente, concluiu pela PUC-RJ o Curso de Extensão Origens do Existencialismo. Mantém e abastece o blog Violências Culturais. Atualmente mora em Florianópolis, SC.

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