Sociedade

Contacto de terceiro grau com terráqueos | António Pedro Dores

Imagem: poder360.

Resumo: Como o desenvolvimento da escolaridade universal e das ciências sociais tornam as condições de existência das pessoas estigmatizadas mais distantes das nossas possibilidades de imaginação do que a existência de extraterrestres? 

 

         “(…) tive de reconstruir a minha visão de mundo ideológica e profissional do zero — como uma criança, tentando dar sentido a todas as novas informações que absorvia.” Jonathan Cook

 

No início do seu duplo mandato como Presidente da República que agora termina, “Marcelo Rebelo de Sousa foi perentório: ´Ah, sim, sinto frustração´. Nas mesmas declarações, recordou que a questão da pobreza em Portugal dura há mais de 50 anos e que testemunhou os esforços dos vários governos ao longo de décadas, ´que fizeram o que puderam, tentaram fazer o que puderam´.”, reportou o semanário Expresso de 29 de Novembro de 2015. Nem o Presidente nem o Expresso se referiram ao facto de se manter a ignorância quanto às causas da pobreza, o que poderiam ter aprendido se se tivessem interessado em estudar o assunto. De quando em vez, as notícias dão-se conta que os indicadores estatísticos sobre a pobreza e as desigualdades sociais aumentam ou diminuem, sem que nenhum governo faça disso mais do que um argumento de suave propaganda.

  

Eleito Presidente da República, Marcelo deu prioridade à erradicação dos sem-abrigo. Ao fim do primeiro mandato, reconheceu que os esforços do governo falharam, outra vez. Na prática, houve um aumento do número de sem-abrigo. No segundo mandato, a coisa agravou-se: rebentou uma crise de acesso à habitação que, de resto, é europeia e houve um retorno da construção de bairros de lata. O que aprendeu da experiência, ainda segundo o Expresso? Aprendeu aquilo que já sabia: “as crises internacionais, situações sanitárias como a pandemia da covid-19 ou o próprio envelhecimento da sociedade portuguesa” e outras causas que não se controlam seriam responsáveis pela sua falta de vontade de assumir responsabilidades e promover algum conhecimento com base em evidências: os governos não cuidam de erradicar a pobreza.

 

Se, em vez de tirar selfies, dar beijos e ensinar, o professor Marcelo interrompesse a sua vida agitada para aprender alguma coisa com a experiência, teria tido oportunidade de se perguntar porque é que as políticas públicas se têm mostrado ineficazes para atalhar a miséria, em Portugal e no mundo? Facto de que deveria ter conhecimento faz muitos anos, pois o G20 e a ONU mantêm há décadas a intenção de erradicar a pobreza e nem a fome conseguem erradicar.

 

Marcelo e a generalidade dos cidadãos estão mais preocupados com a acumulação de riqueza descrita no PIB e com o seu impacto nas contas bancários dos super-ricos, e também dos ricos. A riqueza é ainda e sempre insuficiente para que as elites possam dedicar a sua atenção às dificuldades das pessoas comuns. Todos passamos a vida a olhar para cima, na esperança de podermos subir na vida, ignorando, como se fossem de um mundo sem mérito, os milhões de pessoas penduradas em precipícios sociais de onde não as deixamos sair. Esta ignorância é também alheamento e malvadez, Sr. Presidente.

 

Havendo capacidade de o leitor se colocar no lugar de uma mulher indígena e/ou escravizada que sobrevive a um qualquer genocídio secular, dos muitos em realização pelo mundo, torna-se fácil compreender a injusta persistência das discriminações contra mulheres, negros, indígenas e migrantes promovidas pela nossa civilização. Trata-se do resultado de uma monstruosidade a que se costuma chamar, sem grande rigor, império.

 

Mas essa capacidade de empatia escasseia. Essa escassez de empatia com estranhos oprimidos decorre de preferirmos não nos misturar com a sua sorte. Alguma coisa terão feito para merecer tais tratamentos de polé, pensamos para justificar o nosso distanciamento.

 

A conceptualização do império como algo etéreo, alienígena, conspirativo, situado nalgum círculo político fechado em si próprio, é utilizada para negar a própria existência do império e, no mesmo movimento, culpabilizar as vítimas pela sua sorte. O império só vincaria a sua existência para quem dele se queixa. Para quem sabe ler e escrever e é útil à sociedade (imperial), como eu e o caro leitor, o império ou não existe ou é amistoso.

 

A escassez de empatia face aos pobres e às pessoas de baixo continua a respeito das pessoas de cima que possam estar na mó debaixo. O império assassinou Saddam, Bin Landen, Soleimani? Sequestrou Maduro? Só se preocupam com isso os amigos das vítimas. Quem se quer confundir com eles? É pouco ético celebrar a morte de alguém, mas como não nos perguntam se achamos bem ou mal, resta-nos reconhecer realisticamente os factos, independentemente dos nossos sentimentos, evitando dividir-nos em torno daquilo de que não temos responsabilidades directas.

 

Em tempos de ascensão dos movimentos neonazi-fascistas – a que os ideólogos dominantes preferem chamar populistas – estamos a perder a vergonha de afirmar as chamadas verdades históricas. Seria má educação, dizem, falar do ridículo império português, como fez o Presidente de Angola para animar a sua gente na cerimónia de aniversário da independência. Curiosamente, quem diz que o império de que se queixou o angolano nunca existiu, acrescenta que o império nunca deveria ter terminado. Se não chegou um Salazar para manter o império, que haja quem valha três ou quatro Salazares, reclama uma parte significativa do eleitorado de imperialistas falhados.

 

Estas pessoas de bem de que falam os partidos neonazi-fascistas orgulham-se por apoiarem os impérios e as acções imperiais que esmagam pessoas concretas, desumanizadas sob designações como imigrantes, negros, ciganos, islâmicos. Essas pessoas de bem saíram das suas tocas a coberto da negação generalizada, que tem a quase unanimidade do campo democrático, da persistência de impérios abusivos e imorais. Com o derrube do fascismo, as acções dos EUA, incluindo Israel, justificar-se-iam por protegerem os interesses ocidentais, por mais abusivas e desumanas que sejam.

 

Os impérios evidentemente continuam a existir. Nunca deixaram de existir a não ser nos nossos desejos. Desejos, paradoxalmente, usados para encobrimento de práticas imperiais.

 

Os estudos

 

As denúncias das injustiças discriminatórias imperiais têm ocupado feministas e críticos do racismo nas universidades. Constatam que as disciplinas das ciências sociais dominantes não dão suficiente atenção à profundidade e persistência das discriminações. As ciências sociais centram-se no estudo das desigualdades sociais, organizam rankings de anos e países comparando os dados com a expectativa de que as desigualdades se reduzam e de que alguns países vão à frente de outros nesse desiderato. Para as ciências sociais, é possível identificar países que combatem com mais sucesso as desigualdades, o que os protege de problemas sociais variados, desde gravidezes indesejadas a crimes (Wilkinson & Pickett, 2009). Como diria Norbert Elias (1990), apesar da ferocidade das guerras, no seu todo a civilização oferece vantagens de contenção das violências. Isso é apreciado pelos cientistas sociais que, por isso, se ocupam a apoiar e reproduzir a cultura moderna.

 

Académicos feministas e anti-racistas trabalham arduamente para demonstrar que as discriminações que afectam os seus sectores de interesse são estruturais, devem ser tratados como coisas típicas das sociedades ocidentais e não algo que tende a desaparecer, como alegadamente será o caso das desigualdades e das violências. Tais académicos activistas e críticos criam especializações no seio das ciências sociais para contrariar a tendência pesada das teorias dominantes. Mas sem sucesso.

 

Como no combate aos sem-abrigo e à pobreza, como na protecção dos direitos humanos, como denunciado por Shawan Jabarin em nome de activistas palestinianos apresentados pelo Fumaça, também na academia a empatia para com quem esteja em baixo na hierarquia social é inexistente. Pela simples razão de que os leitores e sobretudo os financiadores não aceitam confrontar-se com a hipocrisia da nossa civilização. Também os académicos, como os outros profissionais, olham para cima e evitam olhar para baixo.

 

Os académicos activistas, porque são profissionais, não negam o valor dos conceitos das ciências sociais que os remete para as suas subdisciplinas. Como o presidente Marcelo, ele próprio um académico, recusam-se a aprender com a experiência. Pretendem apenas complementar as ciências sociais com os seus contributos.

 

Entendamo-nos: os activistas oferecem os seus corpos sexuados e racializados dentro das instituições em solidariedade com pessoas humilhadas por elas. Aqui mora o busílis: ao conciliarem as ciências sociais imperiais com exigências de abolição das discriminações, académicos activistas são conduzidos para campos de especialidade onde são autorizados e pagos para exercitar os respectivos dotes científicos e políticos, na condição de não denunciarem os mecanismos imperiais que tornam inócuas as queixas de imoralidade e ilegalidade.

 

O empenho das ciências sociais em dissimular a sua evidente vinculação aos impérios, de que dependem financeira e profissionalmente, levou-as a desenvolver políticas científicas que, à uma, admitem e ignoram as críticas estruturais. Oferecem liberdade de especialização aos críticos nessa condição: podem integrar as ciências sociais de modo dispersivo, sem incomodar as teorias dominantes (Dores, 2021).

 

Todas as disciplinas das ciências sociais se incompatibilizam entre si e reproduzem essa incompatibilização com as respectivas subdisciplinas. As subdisciplinas feministas e anti-racistas são apenas mais duas, a par de subdisciplinas neonazi-fascistas que também existem.

 

Esta política de incompatibilização entre disciplinas e subdisciplinas que torna as ciências sociais incompatíveis com as ciências naturais não é combatida nem por teorias críticas nem por pontes interdisciplinares. Todos os esforços que se deixem encurralar em subdisciplinas são impotentes face aos obstáculos cognitivos que pretendem combater. Estão no redil do labirinto construído pelas políticas científicas imperiais. O que as ciências precisam para se tornarem oposição às discriminações sociais, dentro e fora das suas instituições, é levar a sério, como o fazem as ciências naturais, as suas ambições universalistas, utópicas, fundadoras com as enunciadas sob o lema de liberdade, igualdade e fraternidade.

 

Liberdade de reconhecer a humanidade dos desvalidos, de olhar para baixo na escala na social sem risco de desqualificação de quem o faça; igualdade da legitimidade das experiências existenciais dos de cima e dos de baixo, nacional e internacionalmente; fraternidade entre os liberais que olham empaticamente para baixo, para a Terra e a humanidade, e os igualitários que reconhecem que as fronteiras dividem para reinar.

 

Mulheres indígenas de Portugal

 

Ao contrário das ciências naturais que honram os seus fundadores, as ciências sociais ensinam a sentir repugnância dos seus fundadores. Estes são acusados de serem positivistas, organicistas, funcional-estruturalistas, marxistas, etc., tudo expressões depreciativas usadas que inibem discussões abertas. No pós-guerra, a profissionalização das ciências sociais fez-se à custa da sua autonomia cognitiva (Coser, 1956, pp. 27–29). A experiência mostra que o trabalho intelectual feminista e anti-racista tem sido politicamente em vão (Alexander, 2010). Mas persiste o desejo dominante nas ciências sociais de as discriminações, como as desigualdades, e as guerras e genocídios estarem em fase de desaparecimento. Face às evidências, admite-se que esse desaparecimento pode demorar mais do que seria desejável. O que não se organiza é a crítica do fechamento em si mesmas das ciências sociais, isoladas das ciências naturais, divididas em ideologias e subdisciplinas mutuamente incomunicantes.

 

A influência social das actividades académicas dos activistas incomoda os movimentos neonazi-fascistas: não fosse assim, Trump não se ocuparia do afã de proibir os financiamentos em curso. Mas as evidências carreadas por décadas por empenhados académicos não têm servido à abolição das discriminações de género e étnicas que continuam a ser naturalizadas de forma sistemática e abrangente pelas instituições e pelas populações, incluindo as mais afectadas por tais discriminações.

 

Para quem entende, aconselhado pelas ciências sociais, que tudo não poderá senão ficar melhor, a eleição de um presidente não-branco nos EUA, a que chamam negro, deveria ter sido um marco civilizacional – como o deveriam ter sido as mulheres em exercício de lugares de poder. Mas não foram.

 

O que poderia ter sido um marco histórico na abolição do racismo institucional, herdeiro da abolição formal da escravatura, não representou o início de uma era pós-racista (Ghazali, 2020). Revelou-se, antes, o prelúdio do reforço do racismo na política norte-americana e ocidental (Lachmann, 2018). Em vez do fecho de Guantanamo e da redução dos presos, e em particular dos presos não brancos, sob a presidência de Obama organizou-se a caça secreta a líderes muçulmanos pelo mundo (Scahill, 2015). Com Trump, essa guerra suja alargou-se aos chamados estrangeiros ilegais nas ruas das cidades norte-americanas e aos seus adversários políticos.

 

Na Palestina, por seu lado, vive-se o revivalismo do espírito colonial firmemente apoiado pelos EUA e pela Europa, mesmo à custa do desprestígio internacional de ambos. O prémio Nobel da Paz atribuído a Obama (2009) e à União Europeia (2012), a pretexto de representarem a democracia, o estado de direito, os direitos humanos, não antecipou a actual selvática destruição do direito internacional e das suas instituições. Prémio que Trump reclamou para si por ter parado, ao menos por alguns dias, o genocídio em Gaza. Prémio que não lhe foi atribuído, mas foi compensado com a sua entrega a alguém que percebeu que o deveria dedicar e entregar a Trump.

 

Não é coincidência que em território europeu se descobrem crescentes bolsas de escravatura com que logo se reconciliam as populações dizendo que essa foi a escolha dos escravizados, interessados em ganhar dinheiro com a nossa civilização e reenviá-lo para casa. O sentimento de irresponsabilidade nacional face aos sem-abrigo e aos pobres estende-se aos escravizados em solo nacional e, entre outros, às mulheres indígenas.

 

Quando se trata de pensar as responsabilidades próprias, as nossas e as dos nossos, em relação aos destinos do mundo, a despolitização da vida que encobre os abusos de poder contra nós e contra outros funciona automaticamente, de modo incorporado. Quando pensamos em mulheres indígenas pensamos em mulheres de outros continentes. As mulheres indígenas de Portugal deixaram de ser visíveis.

 

É mais fácil imaginar um encontro de terceiro grau com uma extraterrestre do que fazer o mesmo com um terráqueo. É mais fácil aceitar a existência de impérios intergalácticos do que aceitar a existência de impérios com que colaboramos cotidianamente.

 

Referências:

 

Alexander, M. (2010). The New Jim Crow – Mass Incarceration in the Age of Colorblindness. The New Press.

 

Coser, L. A. (1956). The Functions of Social Conflict. Free Press.

 

Dores, A. P. (2021). Reeducar o século XXI: libertar o espírito científico. Lisbon International Press.

 

Elias, N. (1990). O Processo Civilizacional (Vol I e II) ([1939]). D. Quixote.

 

Federici, S. (2017). Calibã e a Bruxa – mulheres, corpo e acumulação primitiva (C. Sycirax, Ed.). Editora Elefante.

 

Ghazali, A. S. (2020, December). Over 40 million people captive in modern slavery worldwide: ILO. Counter Currents.Org.

 

Lachmann, R. (2018). TRUMP: How did he happen and what will he do. Sociologia, Problemas e Práticas, 86, 9–25.

 

Scahill, J. (2015). Guerras Sujas. Marcador.

 

Wilkinson, R., & Pickett, K. (2009). The Spirit Level – why more equal societies almost always do better. Penguin Books.

Fotografia de António Pedro Dores

António Pedro Dores, sociólogo, professor universitário aposentado, autor dos blogs https://sociologia.hypotheses.org/ e  https://libertacao.hypotheses.org/

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