
Caveat lector: sinto por somente agora, no mês de fevereiro, esta resolução de ano novo (grassada entre elucubrações) fazer-se (re)conhecer, mas, é que, para que pudesse ser escrita, genuinamente, seria necessário que os exatos 365 dias de 24 chegassem ao fim. Posto isso, e nos primeiros dias de janeiro, em que estas linhas se insurgem, a forma para baixar a porta de 24 e subir a de 25 parece compelir, com perfeição, à obra de Adam Phillips, Sobre desistir – espécie de agulha de marear, com a qual ensejo que os meses vindouros sejam depostos ao largo do que findou em malogro nos doze meses passados. Destes, não quero coisa alguma. Ou, muito pouco. A propósito: não poderia ter sido lançada por aqui edição em ano mais consentâneo que o passado – malgrado seja, de algum modo, extensor (inconteste) dos demais. A começar pelo fato de On Giving Up jogar luz sobre um sentido de desistência atentado não estritamente à sua carga negativa, e sim ao que dela se pode expectar como levante – asserção em flor a decupar por mudança as experiências do ordinário cotidiano. “Abrir mão é sempre sacrificar algo em prol de outra coisa que acreditamos ser melhor. Sempre que […] queremos fazer uma escolha, é inevitável perguntar: de que teremos que abrir mão? Por definição, toda escolha é excludente e revela preferência. Ou seja, […] ao abrir mão de alguma coisa, abre-se espaço para outra” (PHILLIPS, 2024, p. 13). Que, esperançosamente, almeja-se que seja melhor.
Esse tipo de balanço requer destreza na depuração do que nos meses passados foi ocorrente, demarcando valor ou mesmo sua ausência, o que chegaria, não raro, a se apresentar de forma um tanto tênue. A depender do movimento dos olhos. (Direcionar maior atenção à neblina de afagos que afugente o desejo de que isto ou aquilo não será como antes, em termos hostis, deve, portanto, ceder lugar, senão ao novo, à constatação indubitável de que, sim, as tintas do cenário se dispõem distintamente, ainda que a profusão do vermelho se repita, enfatizando a fina perícia do coração de sempre. Ela é, afinal de contas, carta aberta rememorada em modo ressentido, porém, nem por isso menos pobre em expectativas.)
Feita a ressalva, vários são os pontos recalcados, a começar pelo da vacância nas correspondências – reduto de quem sente que “dar o perdido” é expressão aprendida há muito e jamais olvidada, e que me a faz sentir, sofregamente, ao com ela ser afrontada. A assinalar frames como: o do desapontamento ao ver o presente dado a quem assaz considerava ser escanteado, ou mesmo devolvido pelo correio, como forma selada de desdém, nunca de afeto
e devoção recíprocos. (Aceno duplamente despropositado, falta severa de berço – anos poderão se passar sem que vá fingir costume – e grave flagrante da diluição do outro na sombra da indiferença, que faz dirimir ou mitigar o par de anos-luz, consanguíneo ou não, bem como as atitudes mais sensivelmente adivinhadas de outrora.)
Como assimilar a adolescente tardia que segura o último modelo do iphone em uma das mãos e na outra, moedas, contadas uma a uma para o Uber (em vez de tomar o táxi – “Muito caro!” – parado à sua frente), se o que estava em jogo era a vida de sua mãe, naquele momento, alijada geograficamente, e cuja passagem de cada milissegundo era decisiva para sua sobrevivência. Na mesma esteira, o que fazer com o que se mostra disposto a dar num trator 100 mil no pix, mas se nega, alegando valor abusivo (!), a investir qualquer valor numa consulta na rede particular de saúde para o cônjuge que, pouco ou quase nada enxerga, em decorrência de uma síndrome raríssima e, portanto, de conhecimento de oftalmologistas contados a dedo.
O que pensar quando destinamos tempo a um petit-déjeuner com outrem e, como devolutiva, o que vemos ruminar é o clamor de que as horas passadas conjuntamente foram usurpadas, mesmo que o encontro, conforme demonstração de todos os indicadores do código social tenha se revelado proveitosa e aprazível. Como arrostar a espera por um chá da tarde, marcado há muito e que, quando acontece, só o que se ouve é quão os seus braços e quadris aumentaram de tamanho (como se a arbitragem acerca do corpo alheio, sobretudo, o feminino, competisse a terceiros), ou o porquê, espantosamente, de ainda não se estar tomando Ozempic… (Ouço Silvia Federici batendo à porta…)
Dizer o que, ainda, sobre aqueles (e não são poucos!) que consideram prepotência ou conduta mercenária quando nos veem cobrar pelo ofício prestado (o que é, por óbvio, legítimo) – e que tanto teria custado dedicação – a longeva e caudalosa formação superior, com sua respectiva extensão (mestrado, doutorado, pós-doutorado, além de cursos livres, de extensão, de atualização constante…) não me deixam mentir. (Todo o percurso, ademais, se faria cumprir a reboque de falas opressoras, envoltas de misoginia, rancor e escárnio por parte dos que deveriam ser os primeiros a rechaçá-las, estimulando-nos a quota das palavras de incentivo e parceria.) Não por acaso, tal fala que subestima todo o labor alheio afina-se à fala dos que acham que para exercer tal ocupação é dispensável qualquer estudo acadêmico-profissionalizante, tendo em vista que, para essa gente, basta apenas ser “intuitivo”. (Afora, o fato de não se ouvir – e ouvir, ao mesmo tempo – algo similar por parte dos que se formaram engenheiros, arquitetos, psicólogos, advogados…) Tal crença é braço da normalização anacrônica que acha que para a obtenção da titularidade de PhD basta estar trajando branco ou terno e gravata. (O desatino espraia a estroinice – ruído a ser orquestrado pelo desdém, pelo movimento de dar de ombros, pelo silêncio.)
Mais uma escuta implausível perpassa a cobrança daqueles que acham que devem receber do outro aquilo que jamais o deram em troca, e, que, ao telefone, gritam estar só – se “esquecendo” de perguntar se a solidão não é do outro lado condição sabida de décadas, e sentida, ainda mais dura e desfavorável, inclusive naquele exato instante.
E como lidar com outrem que vive há anos apartado do convívio (e pior: noutro país), e que, repentinamente, retorna imbuído de palavras de coach que, senão abolem, barateiam e muito qualquer possibilidade de troca mais a sério. Como engolir a seco o balzaquiano que diz considerar você, mas não se furta de o subestimar, quando fala uma coisa e faz outra, e, que dirá, em questões um tanto naïfs, como a de afirmar que não está mais no Instagram, quando, na realidade, só não “está para você”, por decerto imaginar que sua idade avançada não te deixaria descobrir isso. (O etarismo manda lembrança, para dizer o mínimo.)
Poderia estender-me em linhas a perder de vista em retratos comezinhos inúmeros (e com os quais o leitor certamente se reconheceu em algum), mas a seleta reprodução dos já mencionados é exemplar do que deveria ser falado com gana a dar sentido à emblemática passagem de um ano ao outro – a não repetir o que só ocasionou decepção, tristeza, desconforto, desdita, em mim, e àqueles, observados à volta. “Desistir ou abrir mão de algo ou alguém [afinal] sempre expõe o que supomos querer” (PHILLIPS, 2024, p. 13), conquanto as situações (ex)postas tenham sido entregues com sinal trocado: à espera de sua correção. O verbo esperar, com efeito, insiste em seguir na contramão disso, e no gerúndio, apesar de…
REFERÊNCIAS:
PHILLIPS,Adam. Sobre desistir. Trad. de Breno Longhi. São Paulo: Ubu Editora, 2024.
Letícia Ferro: Letróloga, com mestrado e doutorado em Letras e Linguística (UFG).










