Cultura

Cinco poemas do livro Tarkovsky | Alberto Pereira

Foto de simon na Unsplash

galardoado com o Prémio Ulysses 2023 e Menção Honrosa no Prémio Literário Glória de Sant’Anna 2024.

Cinco poemas do livro “Tarkovsky”

 

II (O Espelho)

Sou de uma espécie

que tem código postal selvagem,

garganta sem número fiscal.

Nunca fui infiel aos vulcões.

Tenho na laringe

uma projecção de lava genuína

e é nos alvéolos do bosque

que arquitecto a embolia da faca.

 

Na cidade,

os homens,

lenda carbonizada

onde se fabrica a vénia.

 

Vão florindo os patrões,

inquilinos do Mein Kampf.

 

O amor industrializado.

As suas mecânicas glaciares.

Os ambulantes úteros

escrevendo múltiplos cometas.

 

O sexo,

condomínio moderno

que respira 

os mesmos rombos

da Idade Média.

 

Estão longe os dias

que flutuavam no peito

as tonalidades de Malevich.

 

A infância,

cume no verde epitélio de tudo.

As artérias

escoltando dicionários inabitáveis.

O decote do pólen.

A maternal equação

que caducava fantasmas.

 

Mais tarde, 

a montanha em burnout.

 

Persigo as paisagens sonoras 

de Arseny Tarkovsky:

 

A alma já está farta

De ficar confinada dentro

De uma caixa, com orelhas e olhos

Do tamanho de moedas,

Feita de pele – só cicatrizes –

Cobrindo um esqueleto.

Pela córnea ela voa

Para a cúpula do céu,

Sobre um raio gélido,

Até uma rodopiante revoada de pássaros,

E ouve pelas grades

Da sua prisão viva

O crepitar de florestas e milharais,

O troar dos sete mares.

Uma alma sem corpo é pecaminosa

Como um corpo sem camisa:

Nenhuma intenção, nem um verso.

 

Somos a estirpe

que se alumia de gaiolas.

 

*

I (Nostalgia)

 

Há muito tempo

que afoguei o e-mail de Deus.

 

O meu corpo,

sete longas-metragens.

 

Tenho agora

um realizador nos pulmões

e o oxigénio 

com a democracia na cave.

 

Sou de uma nação

onde o livre-arbítrio 

está cercado de melanomas.

Offshores em todos os tentáculos.

Os tribunais,

bouquet de recursos. 

E a fraude,

réptil que prescreveu.

 

Sou nómada,

clima semântico

que não admite cifoses.

Atravesso os catálogos regressivos

com a laringe na insónia.

A garganta,

sniper do totalitarismo.

 

O caudal austero das ditaduras

quer uma farmacologia

de mentes inócuas

que fiquem sitiadas.

 

As células,

cancerígena matéria

a leiloar a avalanche.

 

O exílio é um roedor

e foi em Tonino Guerra 

que li a melhor triagem do aluimento.

 

Quando visitaram a casa, no velho quarteirão da cidade,

encontraram Shirikawa já morto de fome, no seu quarto de dormir.

O apartamento tinha ainda dois outros aposentos. Ambos sem mobília (…)

Na terceira sala, o pavimento apresentava-se coberto 

por um manto de arroz muito branco. 

Shirikawa nascera em Chichibu, uma aldeia no Norte do Japão (…)

Quando o levaram com a liteira, alguém experimentou deitar-se na cama (…)

Com a cabeça pousada sobre o travesseiro, para além do corredor,

viu o quarto com o pavimento de arroz. Saboreou a doce contemplação 

da neve pousada e, até a cor de cinza da parede do fundo 

parecia inverter-se para formar um céu frio e invernal (…)

Shirikawa, desde há alguns anos, sofria com saudades da neve.

Aquele era um lugar onde nunca nevava.

 

Mesmo proscrito,

recusa que a Nostalgia

desmantele qualquer desfiladeiro

para obteres sândalo

com a amplitude

da Nona Sinfonia de Beethoven.

 

Quem tutela as metástases do tempo?

 

Não há catedral 

que contorne infinitamente a morfina.

 

*

III (Nostalgia)

 

O amor

no seu passo longínquo

move-se nas veias

como uma raposa.

 

A dopamina

constrói perímetros insanos

e transporta 

o furor meteorológico

de um comboio.

 

O lapso,

pensar que as garras

estavam subnutridas.

 

O sublime respira

em brônquios enevoados.

E a claridade

precisa de cheirar 

uma biografia escura.

 

Tudo o que aspira à elevação

tem de tremer profundamente.

 

Os olhos já foram

pauta de Prokofiev.

 

Eram inúmeros os instrumentos

a caminhar no indecifrável.

Partiam da garganta hospícios

que floriam em todas as coisas.

 

A mulher procurava

um animal em extinção.

Alguém com ritmos frondosos

que não licitasse gaiolas no peito.

 

O homem punha o ego em contraluz

para se emancipar das futilidades.

 

De súbito,

a mulher ampliada de astros.

 

O homem,

cometa escoltado

por uma magnólia convicta.

A língua

na galeria auricular

recitando uma avalanche azul.

Os ombros,

átrio de um templo.

As pupilas

fazendo parapente

entre montanhas.

E os gestos

sem orações daninhas

anunciavam

a derradeira tournée à intimidade.

 

Depois o promontório.

 

Logo abaixo,

Museu Pushkin.

 

O homem

percorria vagarosamente

os corredores

até que a mulher

o deixasse observar

um quadro húmido.

 

Em seguida,

o arco-íris sem franquia.

 

A mente,

hábil camaleão.

 

Respira o junco

em tudo o que foi divino.

 

O homem não soube administrar

o fluxo do seu piano

mergulhado numa assoalhada distante.

 

Tem agora 

a música interior decrépita

uivando por uma ligadura.

 

Se tivesse ouvido

a sentença de Blanca Varela,

sabia:

 

a eternidade é a obscura dobradiça que cede

ao mínimo estalido na noite da carne.

 

No fim,

o corpo depondo

pulsa num tribunal vazio.

 

Consegues citar uma obra de arte

que não tenha vento no interior?

 

*

V (Nostalgia)

 

O silêncio,

erógena corrente

de imagens precárias.

 

Disseram que Agosto

era ave a ilustrar

candelabros nos dias.

E o corpo,

enredo de harpas

na truculenta 

luz das fábulas.

 

A garganta 

que se pensava

definição de arte

não entende 

a imobilidade dos lábios.

 

Galeria de constelações,

a língua,

onde em tempos,

além dos astros

e da Madonna del Parto,

os pianos 

não tinham sido raptados.

 

Pronunciar Verdi,

Stravinsky,

Bach,

era lacre

na literacia dos poços.

 

Contigo vieram as montanhas

e a boca aprendeu

pólen sobre as aréolas.

 

As mãos a cheirarem

os sismos pelos flancos.

 

Nos olhos a chuva inaugural

ou o Volga,

nunca soubemos.

 

O amor, 

insónia cravada 

no perfume.

As flores no útero.

A límpida manhã interior.

Labaredas.

Algo de íngreme.

Espaço onde se podiam 

citar magnólias

ou o semblante do gengibre.

 

De que magma são feitos os tendões dos lírios?

 

De súbito, 

a beleza,

turístico fôlego

a caminho do terror.

 

A pele forrada 

pela retórica das catedrais 

que migraram.

 

Horas 

vestidas de negro

como gôndolas 

ao redor do ego.

 

A queda,

bailado urdido pelo vento

nas vértebras da clorofila.

 

No fim,

ser ainda

uma declamação botânica

no design da cinza.

Ter por pacemaker um bosque.

 

E se vier o aneurisma

que tenha pássaros.

 

*

VII (O Sacrifício)

 

Sê a paisagem 

que a cada alento dos pulmões 

está reconciliada 

com a consciência da morte. 

 

Não rezes 

no momento em que o projéctil 

ao evadir-se do domicílio 

procura a trigonometria do miocárdio. 

 

Um lugar tem sempre 

a fruição de duas panorâmicas. 

 

A Ponte de Mirabeau 

serviu versos a Apollinaire,

as cordas vocais de Léo Ferré, 

mas concebeu em Celan 

o último planar do corpo 

quando não suportava mais 

a delinquência do escuro.

 

Somos estilhaços

de uma máscara que o tempo alveja.

 

O discernimento habita sempre 

o tórax de um fósforo.

 

*

Estes poemas foram escritos ao abrigo da antiga ortografia.

Foto: Ozias Filho

Alberto Pereira nasceu em Lisboa. Licenciado em enfermagem e pós-graduado na área forense. É membro do PEN Clube Português. Publicou treze livros. A sua obra encontra-se traduzida em onze idiomas. Foi distinguido com vários prémios dos quais se destacam: Prémio Literário Conto por Conto (2011); Prémio Literário Agostinho Gomes (2013); Prémio Literário Manuel António Pina (2013); Prémio Internacional Cesar Vallejo (2021); Prémio de Literatura Clarice Lispector (2022) e Prémio Ulysses (2023).

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
2
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Cultura