Cultura

Cartografia do abandono | Branca Borges

Foto de 林生 黄 na Unsplash

É difícil ir embora,

mas torna-se estranhamente fácil

quando as coisas se embaraçam.

Parece sempre que são as pessoas que vão,

mas, no fundo, sei:

sou eu quem as fere,

quem as abandona

no instante exato em que toma consciência.

Digo que partiram,

quando fui eu quem fechou a porta.

Hoje eu sei —

realmente me estou a matar.

Aos poucos.

Em silêncio.

Vivo o luto de pessoas ainda vivas.

É fúnebre.

E dolorosamente real.

Como pode algo bom

fazer tão mal?

A pessoa que nos eleva

é a mesma que nos lança ao chão.

Costumo desejar um amor que me queira na mesma medida,

que não desate de mim com facilidade.

Peço isso porque sei:

sou um quebra-cabeça.

Falo em códigos.

E espero que o meu silêncio seja compreendido,

nem que seja

pelo cansaço do meu olhar.

Desta vez, devo-te um pedido de desculpas.

Deixei morrer uma amizade antiga

em troca de um amor raso,

vivido em apenas um ano,

quando nós vínhamos de tanto tempo.

Hoje, ao vasculhar os meus próprios bloqueios,

percebi:

éramos bons amigos.

Como nos deixámos iludir

pela paixão,

tão escancaradamente?

Eu teria coragem de te abraçar hoje,

como amigo.

Mas sei —

isso seria pedir demais.

Reconheço a bagunça (o estrago) que deixei em ti.

Por isso parto assim:

em silêncio.

Nos escritos de um poeta

que vive a cartografia do abandono,

e o luto de pessoas em vida.

 

fotografia de Branca Borges.

Branca Borges, sob o pseudônimo Borges Segorb, é uma poeta angolana nascida em Luanda. Com uma voz lírica poderosa e uma sensibilidade única, Branca mergulha nas complexidades da experiência humana, explorando temas como identidade, amor e a essência da cultura angolana. Sua poesia, marcada por um lirismo profundo e uma conexão íntima com suas raízes, busca dialogar com o presente e ressoar no coração de seus leitores.

Membro ativo da Brigada Jovem de Literatura de Angola, Branca é uma presença marcante nos palcos literários há seis anos, tendo iniciado sua jornada na União dos Escritores Angolanos. Sua trajetória a levou a participar de eventos na Fundação Arte e Cultura, onde teve a oportunidade de se conectar com diversos poetas e escritores, enriquecendo sua prática literária.

Como ex-apresentadora do programa literário Mujimbos Literário, Branca tem-se dedicado a promover a literatura e a cultura angolana. É fundadora do projeto Tardes Literárias, implementado no clube de leitura da VPA, que mais tarde passou a ser conhecido como Matabicho Literário. Esse projeto visa fomentar a leitura e a apreciação da literatura entre os jovens, criando um espaço de diálogo e troca de ideias.

Formada em Comunicação Social, Branca utiliza sua formação para criar conteúdos que discutem questões sociais, promovendo a reflexão e a mudança. Sua escrita não apenas celebra a riqueza da cultura angolana, como também traz à tona as lutas e aspirações de seu povo, evocando uma identidade coletiva que transcende gerações.

Como membro da CILA – Confraria Internacional de Literatura e Arte, Branca Borges contribui para o fortalecimento da rede literária, participando de eventos que promovem a arte e a cultura em Angola e no mundo. É coautora da obra mais recente lançada na província do Kwanza Norte, Gente do Meu Kimbu – Antologia Poética. Seu envolvimento em antologias e projetos colaborativos demonstra seu compromisso em inspirar e ser inspirada, estabelecendo um legado literário que é tanto pessoal quanto comunitário.

Os versos de Branca são um convite à reflexão e à introspecção, desafiando os leitores a confrontar suas próprias experiências e a encontrar beleza nas nuances da vida. Com uma visão de futuro que incorpora esperança e transformação, Branca Borges continua a ser uma voz proeminente na cena literária angolana, elevando a arte a um novo patamar de expressão e significado.

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