
Portugal irá eleger, no próximo dia oito de Fevereiro, um novo Presidente da República. E, embora isso não ficasse claro nos inúmeros debates entre os candidatos durante a primeira volta, nem no debate entre os candidatos que foram à segunda volta, António José Seguro e André Ventura, a escolha é, agora, entre a democracia e a autocracia, entre a honestidade, a mentira e o cinismo.
Seguro, por muito que possamos discordar dele, é um homem honesto, capaz de defender a Constituição, capaz de vetar as leis mais gravosas para os mais pobres, e capaz de unir a esmagadora maioria dos portugueses.
Do outro lado está um Ventura: cínico, mentiroso habitual e por tendência, xenófobo, racista, ligado a grupos neonazis como o 1143, e que prega um combate ao compadrio, ao nepotismo e à corrupção que, na verdade, é prática comum dentro do seu partido, como sucede com os já eleitos autarcas do Chega, desde Lisboa a Albufeira, onde o critério de escolha para os “tachos” foi a militância no partido ou a pertença à família.
O seu ataque ao socialismo é um ataque sórdido e mentiroso que, infelizmente, nem sempre foi respondido à letra. Quem, senão os socialistas, e contra os votos do PSD e do CDS, implantou a maior conquista de Abril que é o Serviço Nacional de Saúde? Quem lutou pela defesa da liberdade, dos mais desfavorecidos, pelos direitos das mulheres, pelo ensino público, pelo direito à habitação, senão os partidos que se reivindicam o socialismo?
Quando Ventura afirma que os estrangeiros não podem viver de subsídios, que subsídios serão esses? É o subsídio de desemprego? Mas quem desconta para a segurança social, mesmo que seja trabalhador imigrante, se ficar desempregado, não tem direito ao subsídio de desemprego para o qual descontou? Um imigrante que desconta para a Segurança Social não deve ter direito ao acesso à saúde para o qual pagou?
E o que seria da agricultura, dos lares de terceira idade, da restauração e outros serviços importantes para o funcionamento do país sem os imigrantes?
Outro combate de Ventura é contra os ciganos. Nada de novo na história. Contra eles e contra os judeus vociferava já Hitler. Como se os ciganos fossem uma etnia danada, criminosa à partida, vivendo toda do Rendimento Social de Inserção e fosse, até em termos numéricos, uma etnia que pesasse na população de Portugal, quando são apenas cerca de 50 mil.
Na realidade, a grande maioria dos ciganos trabalha e desconta para a Segurança Social, e nem um terço vive do RSI, sendo que, desse um terço, a esmagadora maioria são velhos e crianças.
A campanha de Ventura contra imigrantes e ciganos serve apenas para acicatar ódios e utilizar as frustrações de muitos portugueses como modo de chegar ao poder, na esperança de as verem ultrapassadas, quando, pelo contrário, as veriam agravadas.
Por isso, na escolha entre Ventura e Seguro, não há lugar para dívidas.
HENRIQUE DÓRIA
Henrique Dória é advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da Rádio Transforma.










