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Caldo de ossada | Rita Tormenta

Foto de Ryan Stefan na Unsplash

-Gruda em mim!

 

Disse o homem ao rapazinho enquanto entravam multidão adentro.

 

A turba clamava vinganças e empunhava ódios.

 

Ouviram-se tiros, depois gritos e no final silêncio.

 

Dispersada, a multidão revelou-se, no meio da Avenida, o homem inerte sobre o rapazinho franzino.

 

Um velho atirou para o ar uma frase:

– Quem mandou proteger trombadinha?

 

Agora danou-se.

 

O homem e o rapaz tinham-se conhecido numa cola em frente ao açougueiro, eu como quem diz, na fila do talho, para comprar ossos.

 

O homem estava há mais de uma hora na rua estreita e escura quando o rapaz tentou lhe roubar a carteira.

 

O homem, excepcionalmente calmo, agarrou- lhe no braço e falou pausadamente, fixando-o  nos olhos:

-É fome?

 

O rapaz tentou soltar-se para fugir, fugia desde pequeno, aprendeu a andar fugindo.

 

Mas o homem, de olhos muito mar, não dava sinais de pretender deixá-lo escapar.

 

– Se é fome fique, vou fazer um caldo, vem comigo e dividimos.

 

O rapaz também conhecia estas propostas, homens mais velhos a convidarem-no para ir com eles, não gostava, preferia fugir.

 

Mas o homem, de olhos muito mar, insistiu e acabaram juntos no morro a comer sopa de ossos.

 

O rapazinho não entendia como é que aquele homem vivia ali.

 

– Porquê çê vive no morro?

 

Tu se droga tio?

 

Bandido  tu não é.  Não tem nota nem arma.

 

O homem sorriu:

– Garoto, é uma longa história de amor.

 

E era, uma daquelas histórias com clichés, bilhetes postais e tudo o que se tem direito.

 

Professor de economia em Chicago e fotógrafo amador, chegara ao Brasil para fotografar o Carnaval.

 

Calcorreada a cidade e o sambódromo, tinha apenas conseguido chapas bilhete postal.

 

Já depois do desfile, desiludido por nada ter conseguido, seguira uma sambista à toa.

 

E  foi assim que tropeçou em Maria Cecília.

 

Ceci.

 

Ceci crescera na Barra da Tijuca, fizera faculdade e por convicção juntara-se ao MST( movimento dos sem terra) no início dos anos 80, invadira, ou melhor ocupara terras, dera aulas,  participara em reuniões,  roçara a terra e feito um pouco de tudo o que havia para fazer.

 

Uma doença feia e súbita levou-a de volta ao Rio e quando se livrou da doença mudara-se para o morro Joana d’arc para trabalhar numa ONG.

 

Ceci e Cecil apaixonaram-se como não podia deixar de ser.

 

A série de fotografias Carnival Spoils venceram prémios e foram expostas pelo mundo.

 

Cecil despediu-se da universidade e vivia com Ceci no morro, colaborando com várias ONG.

 

Um dia, a polícia entrara no morro no encalce de um  garoto acusado de sequestrar uma socialite. Ceci conhecia o menino e interpusera-se.

 

Uma costumeira troca de tiros e uma bala perdida contam o fim abrupto.

 

Ceci morre ali mesmo.

 

Cecil desceu ao inferno e por lá ficou, bebeu, brigou, sofreu. Sem Ceci, o morro era uma insuportável mortalha.

 

Chicago era demasiado longe, desacreditado que estava da ideia de uma economia florescente, onde a riqueza fosse benefício social, chamava-lhe agora trickledeath e não podia regressar.

 

Ponderou a morte, tamanha era a dor.

 

Até ao dia em que na cola do açougueiro encontrara o rapazinho e dele fizera projecto e vida.

 

Garoto quase sem idade, história igual à de milhares de pixotes,  malandrim, gostava mesmo era de fumar, fugir e jogar à bola.

 

Com Cecil, descobrira que casa pode ser um banho e um caldo de ossada.

 

Cecil falou-lhe de política e de música e juntos cantavam e imaginavam a  casa no campo, como na canção da Elis.

 

Desciam todos os dias para fotografar manifestações.

 

Estavam numa manifestação quando o rapaz perguntou a Cecil:

– Tio, do outro lado têm cara de gente ou de demónio?

 

-Vamo ver!

 

Gruda em mim.

 

E  entraram no meio da multidão em contra mão.

 

De repente, a confusão instala-se e o L desenhado com o indicador e o polegar denunciam Cecil e o rapazinho.

 

Alguém se precipita gritando:

– Trombadinha e arrombado a soldo dos pêtistas.

 

Ouvem-se tiros, depois gritos e no final um silêncio. 

 

O homem inerte sobre o rapazinho franzino.

 

As fotografias correram mundo.

 

“Cara de gente” foi o nome da exposição.

 

Foto de Rita Tormenta

Rita Tormenta nasceu no Porto em 1970, cresceu em Lisboa e vive desde 2018 em Almada.

Formação académica superior na área do Teatro.

Já foi professora, estalajadeira, empregada de mesa, coordenadora de projectos, cantoneira digital, actriz e marionetista.

Tem filhos, uma gata, algumas plantas, alguns amigos e alguns ideais, nem sempre acerta na quantidade de água a dispensar a cada um.

Publicou o primeiro livro “Centrifugar angústias a 1600rpm” em 2022, o Segundo “O Pequeníssimo livro de TI” em 2023 e o terceiro, “Jugular exposta” em 2025.

Neste momento mantém ( com Luís Filipe Sarmento) a tertúlia mensal “3 às 4as” em Almada, co-organiza ( com Elisa Scarpa) o evento Anual- AQUI VAI LIVRE- um lançamento literal e colectivo de livros, e tem paricipado desde a 1ª edição na Noite da Literatura Ibero-Americana (curadoria de Lauren Mendinueta).

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