
-Gruda em mim!
Disse o homem ao rapazinho enquanto entravam multidão adentro.
A turba clamava vinganças e empunhava ódios.
Ouviram-se tiros, depois gritos e no final silêncio.
Dispersada, a multidão revelou-se, no meio da Avenida, o homem inerte sobre o rapazinho franzino.
Um velho atirou para o ar uma frase:
– Quem mandou proteger trombadinha?
Agora danou-se.
O homem e o rapaz tinham-se conhecido numa cola em frente ao açougueiro, eu como quem diz, na fila do talho, para comprar ossos.
O homem estava há mais de uma hora na rua estreita e escura quando o rapaz tentou lhe roubar a carteira.
O homem, excepcionalmente calmo, agarrou- lhe no braço e falou pausadamente, fixando-o nos olhos:
-É fome?
O rapaz tentou soltar-se para fugir, fugia desde pequeno, aprendeu a andar fugindo.
Mas o homem, de olhos muito mar, não dava sinais de pretender deixá-lo escapar.
– Se é fome fique, vou fazer um caldo, vem comigo e dividimos.
O rapaz também conhecia estas propostas, homens mais velhos a convidarem-no para ir com eles, não gostava, preferia fugir.
Mas o homem, de olhos muito mar, insistiu e acabaram juntos no morro a comer sopa de ossos.
O rapazinho não entendia como é que aquele homem vivia ali.
– Porquê çê vive no morro?
Tu se droga tio?
Bandido tu não é. Não tem nota nem arma.
O homem sorriu:
– Garoto, é uma longa história de amor.
E era, uma daquelas histórias com clichés, bilhetes postais e tudo o que se tem direito.
Professor de economia em Chicago e fotógrafo amador, chegara ao Brasil para fotografar o Carnaval.
Calcorreada a cidade e o sambódromo, tinha apenas conseguido chapas bilhete postal.
Já depois do desfile, desiludido por nada ter conseguido, seguira uma sambista à toa.
E foi assim que tropeçou em Maria Cecília.
Ceci.
Ceci crescera na Barra da Tijuca, fizera faculdade e por convicção juntara-se ao MST( movimento dos sem terra) no início dos anos 80, invadira, ou melhor ocupara terras, dera aulas, participara em reuniões, roçara a terra e feito um pouco de tudo o que havia para fazer.
Uma doença feia e súbita levou-a de volta ao Rio e quando se livrou da doença mudara-se para o morro Joana d’arc para trabalhar numa ONG.
Ceci e Cecil apaixonaram-se como não podia deixar de ser.
A série de fotografias Carnival Spoils venceram prémios e foram expostas pelo mundo.
Cecil despediu-se da universidade e vivia com Ceci no morro, colaborando com várias ONG.
Um dia, a polícia entrara no morro no encalce de um garoto acusado de sequestrar uma socialite. Ceci conhecia o menino e interpusera-se.
Uma costumeira troca de tiros e uma bala perdida contam o fim abrupto.
Ceci morre ali mesmo.
Cecil desceu ao inferno e por lá ficou, bebeu, brigou, sofreu. Sem Ceci, o morro era uma insuportável mortalha.
Chicago era demasiado longe, desacreditado que estava da ideia de uma economia florescente, onde a riqueza fosse benefício social, chamava-lhe agora trickledeath e não podia regressar.
Ponderou a morte, tamanha era a dor.
Até ao dia em que na cola do açougueiro encontrara o rapazinho e dele fizera projecto e vida.
Garoto quase sem idade, história igual à de milhares de pixotes, malandrim, gostava mesmo era de fumar, fugir e jogar à bola.
Com Cecil, descobrira que casa pode ser um banho e um caldo de ossada.
Cecil falou-lhe de política e de música e juntos cantavam e imaginavam a casa no campo, como na canção da Elis.
Desciam todos os dias para fotografar manifestações.
Estavam numa manifestação quando o rapaz perguntou a Cecil:
– Tio, do outro lado têm cara de gente ou de demónio?
-Vamo ver!
Gruda em mim.
E entraram no meio da multidão em contra mão.
De repente, a confusão instala-se e o L desenhado com o indicador e o polegar denunciam Cecil e o rapazinho.
Alguém se precipita gritando:
– Trombadinha e arrombado a soldo dos pêtistas.
Ouvem-se tiros, depois gritos e no final um silêncio.
O homem inerte sobre o rapazinho franzino.
As fotografias correram mundo.
“Cara de gente” foi o nome da exposição.
Rita Tormenta nasceu no Porto em 1970, cresceu em Lisboa e vive desde 2018 em Almada.
Formação académica superior na área do Teatro.
Já foi professora, estalajadeira, empregada de mesa, coordenadora de projectos, cantoneira digital, actriz e marionetista.
Tem filhos, uma gata, algumas plantas, alguns amigos e alguns ideais, nem sempre acerta na quantidade de água a dispensar a cada um.
Publicou o primeiro livro “Centrifugar angústias a 1600rpm” em 2022, o Segundo “O Pequeníssimo livro de TI” em 2023 e o terceiro, “Jugular exposta” em 2025.
Neste momento mantém ( com Luís Filipe Sarmento) a tertúlia mensal “3 às 4as” em Almada, co-organiza ( com Elisa Scarpa) o evento Anual- AQUI VAI LIVRE- um lançamento literal e colectivo de livros, e tem paricipado desde a 1ª edição na Noite da Literatura Ibero-Americana (curadoria de Lauren Mendinueta).










