Ciência

Breve história do contributo dos animais de companhia para a saúde humana | Sílvia Vasconcelos

Imagem: inataa.org.br

“Breve história do contributo dos animais de companhia para a saúde humana”

Face ao desafio do Dr. Henrique Prior para que pudesse contribuir para a InComunidade — A Revista Online (o que muito me honrou), e após ter dado uma vista de olhos à mesma, optei, face às opções possíveis (para mim) como a opinião política ou a poesia, pela ciência, mais concretamente pela componente que mais me tem absorvido na última década: o contributo dos animais de companhia para a saúde humana. Muito há a referir sobre esta matéria, mas em vez de a tornar desde logo exaustiva, reservo este primeiro artigo para uma introdução ao assunto, abordando o seu conceito e a sua história sem entrar já nos benefícios concretos dos animais para a saúde física e mental de pessoas. 

 

Este contributo, técnica e cientificamente, denomina-se de Intervenções Assistidas por Animais (IAA) e define-se como um conjunto de intervenções que incorporam animais e que são orientadas para objetivos multidisciplinares como a saúde, a educação ou atividades meramente lúdicas e recreativas, com impacto positivo nos seres humanos. Esta conceção insere-se no tão propalado movimento One health (“uma só saúde para todos”), que tem em conta tanto as necessidades das pessoas como as dos animais, dado que não é possível isolar os benefícios de uns de outros.

 

E antes de detalhar o seu conceito, significado ou fundamento, talvez valha a pena conhecer, mesmo que sumariamente, a história deste tipo de intervenções com recurso a animais para fins de saúde humana, a denominada de Terapia Assistida por Animais, até porque é evidente que o contributo dos animais de companhia para a sociedade, nos nossos dias, vai muito além da “mera” companhia e companheirismo.

 

As terapias assistidas por animais (TAA) poderão remeter ao século IX AC, havendo dessa época registos nos quais Homero escreveu sobre Asclépio, o Deus grego da saúde cujo poder divino se estendia aos cães sagrados que, se lambessem uma pessoa cega a deixariam curada de imediato. Este, mesmo sendo um registo literário, faz-nos extrapolar para a ideação da época relativamente ao poder curativo dos animais.

 

Mas foi muito mais tarde, em 1792, em Inglaterra, que surgiram as primeiras anotações técnicas sobre o recurso a animais para fins terapêuticos num asilo psiquiátrico, o Retiro York criado por William Tuke. Aqui, os animais eram mantidos nos pátios por onde os doentes passeavam, e constituíam -se como auxiliares terapêuticos, encorajando os pacientes a movimentarem-se e a comunicar entre si, enquanto tratavam das galinhas, dos coelhos, ou de outros animais.

 

Já em 1867, em Bielefeld, na Alemanha, surge o primeiro registo oficial de TAA, em que os animais eram aplicados como forma de tratamento. Depois, em 1942, nos EUA, incluíram-se animais nos programas de reabilitação de soldados convalescentes da Força Aérea, que recuperavam de lesões no Army Air Corps Hospital Convalescent.

 

Mais recentemente, nos anos 60 do século XX, surgiram novos registos oficiais sobre as possibilidades de intervenções clínicas assistidas por animais, mais concretamente sobre os efeitos benéficos obtidos em sessões terapêuticas com crianças na presença de um animal, através de artigos como “O cão como coterapeuta” (1962) de Boris Levinson em que o autor relata a primeira experiência que teve com a participação do seu cão “Jingles” numa consulta, e em que este interagiu com um rapaz com autismo [“enquanto eu recebia a mãe, Jingles correu em direção à criança e começou a lambê-lo. Para minha surpresa o menino não se assustou; ao invés abraçou o cachorro e começou a acariciá-lo” e após várias sessões “parte do afeto que a criança sentia pelo cachorro recaiu sobre mim e (…) lentamente atingimos uma forte compenetração que possibilitou o meu trabalho para resolver os problemas da criança”], ficando assim, este psiquiatra, conhecido como o precursor e pai das TAA. Neste caso, a presença do cão no processo terapêutico acelerou o relacionamento entre o terapeuta e o seu paciente, funcionando como um processo denominado por Levinson por “facilitação social”. De referir ainda que antes, também Freud chegou a documentar que os seus pacientes se sentiam “mais confortáveis, seguros e aceites, na presença do seu cão Chow-chow”.

 

Na década de 1970 realizou-se um estudo em doentes de uma unidade de cuidados coronários, que concluiu que a longevidade de vida aumentava nos pacientes que detinham ou que interagiam regularmente com animais. Nesta mesma década, em Nova Iorque, foi criado um lar-escola para crianças, conhecido por “Chaminés verdes”, inovador quando decidiu integrar animais e promover interações entre estes e as crianças da instituição. Em 1975 está descrito o primeiro programa com animais em prisões no The Oakwood Forensic Center (hospital penitenciário) em Lima, Ohio, quando o seu diretor se apercebeu de efeitos benéficos na saúde mental dos reclusos não responsivos a outros programas, ao verificar que estes se dedicaram a cuidar de um pardal que encontraram ferido no pátio da prisão.

 

A partir dos anos 80, no decurso de novas investigações e estudos científicos relevantes, continuou a comprovar-se o benefício para a saúde humana da interação com animais, difundindo-se esta modalidade terapêutica com recurso a animais rapidamente, sobretudo no Reino Unido e Estados Unidos.

 

No Brasil, o interesse pelas TAA surge também nesta mesma altura com a psiquiatra Nise da Silveira por esta discordar das técnicas que considerava agressivas para os pacientes psiquiátricos, e por se ter apercebido da melhoria de um paciente a quem delegara os cuidados a uma cadela abandonada no hospital, que não só desenvolveu responsabilidade pelo animal como também lhe atribuiu uma referência afetiva estável.

 

Só a partir dos anos 90 são implantados os primeiros Centros de Atendimento de terapia assistida por animais e efetuados relevantes estudos científicos. Ainda neste país, segundo dados do presidente da Associação Internacional das Organizações Homem-Animal (IAHAIO), 30% dos psiquiatras e psicoterapeutas envolvem animais nas suas práticas clínicas.

 

Presentemente, esta modalidade terapêutica estendeu-se também à educação (sobretudo no que respeita à Leitura Assistida por Animais- LAA) e a outras áreas, e tem sido alvo crescente de aplicação prática em diferentes pessoas e múltiplos contextos, e de estudos académicos relacionados.

 

Num próximo artigo, conto desenvolver algumas das expressões de intervenções assistidas por animais e a base científica que as fundamenta. Para mais, porque este tipo de trabalhos têm crescido substancialmente, inclusive, no nosso país, sendo mesmo fundamental que se implemente uma legislação que estabeleça parâmetros de segurança nas IAA por forma a garantir a saúde, bem-estar e segurança quer dos “animais-coterapeutas” quer dos utentes assistidos.

Foto: Sílvia Vasconcelos

Sílvia Vasconcelos, médica veterinária, doutorada, e a finalizar um pós-doutoramento em ciências veterinárias, ramo biomédico. Tem incidido a sua investigação no ramo da microbiologia alimentar, mas sobretudo, nos últimos dez anos, na díade ser humano-animal aprofundando a investigação sobre os  benefícios dos animais de companhia para a saúde física e mental do ser humano, tendo investigado os mesmos, até agora, quer na população prisional quer na população idosa, de onde resultou o livro de sua autoria “Benefícios dos animais de companhia para a saúde mental dos idosos” .

  

Paralelamente, fez teatro no TEF; foi  autora e co-autora de publicações técnicas e científicas  e publicou um livro de poesia “Arestas”, além de escrever regularmente no Jornal da Madeira e no Jornal Económico.

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