
azuis celestiais debruados a alcatrão e a jasmim por entre as flores
demorarei na auréola crepuscular, e as cores de notre-dame desvendarão os meus olhos e a minha atitude
tenho pressa de não chegar ao cume e à hora vespertina, lugar onde as papoilas raiam de sangue os ventos do oeste e as asas da guilhotina ardem no pomar ao fundo da casa
sigo nua ao lado dos infames das prostitutas e dos desacreditados da fé e dos patronatos desgovernados
voo sem fim cheia de andorinhas nos cabelos e nos ângulos que me dão pelo flanco o preço das auroras e o passe do autocarro
verto o vazio e o insondável deserto de noivas e de besouros encantados por potros fecundados de éguas
bato à porta de gente anã, escondida da podridão da terra (in)culta, crua de abecedários e de palavras inaugurais, ágrafa de toda a ternura, sedenta dos ferros, do gás, do chicote e dos nove minutos da morte sobre o asfalto
contudo, não sou eu a guardiã dos segredos nocturnos, nem das vozes vociferadas cheias de luciferes e de anjos proibidos
apenas sinto o cheiro das carnes depostas por cima da pureza original
(…)
e assim me abro à corola dos dias gastos e fastos de melancolia
altura em que os divãs se quebram na cabeça da psicanálise
e as mães se expõem à artilharia das infâncias filiais
impludo ais, escrevo
até que a morte me liberte da condição
da culpa
do lugar dos outros, da língua dos outros e da sua ausência.
Legenda: “Alcatrão _1”: fotografia de Maria Adelina Amorim.
Maria Adelina Amorim:
PALAVRAS-CHAVE: LITERATURA; POESIA; LITERATURA PORTUGUESA; POESIA PORTUGUESA









