
O romance “Uanga” (feitiço), de Óscar Ribas é um marco importante na história da literatura angolana, representando um ponto alto da produção ficcional em Angola. Foi, sem dúvida, após sua publicação em 1951, que a crítica guindou seu autor, como o pai da moderna ficção literária angolana.
Segundo afirmou Martins dos Santos, na sua obra “Primeiras Letras em Angola”, edição da Câmara Municipal de Luanda, publicado em 1973, “Uanga” de Óscar Ribas formava, no período colonial, juntamente com “Cenas de África, romance íntimo” do também escritor luandense Pedro Félix Machado (1860-1906), publicado em 1892, e o “Segredo da Morta” de António de Assis Júnior (1887-1960), publicado em 1934, os mais expressivos contributos ficcionais de alma e ambiente angolense.
Contextualização
A trama de “Uanga” centra-se no feitiço e na relação que este fenómeno estabelece, no âmbito da cosmovisão da sociedade indígena de Luanda, na segunda metade do século XIX.
Na sua introdução, Óscar Ribas revela-nos que “tal trabalho exigiu dele uma penetrante investigação, e acrescenta, se não fosse a preciosa coadjuvação de familiares, o mesmo esbarraria no indecifrável, por lhe faltar verdadeira intimidade com o meio” que explorou.
A seguir alerta-nos que, “se a obra não satisfazer o recreio espiritual do leitor, que servisse, ao menos, de repositório etnográfico dos curiosos”. Em nosso entender esta afirmação é reveladora do duplo projecto – literário e etnológico – do autor aquando da produção da referida obra. Esta é, pois, o cerne da nossa abordagem, que incide em dissecar o diálogo entre o literário e o etnológico no romance “Uanga”, e percorrer a intermitente fronteira que os separa de forma ora abstrata, ora concreta; uma fronteira que se entrelaça e desenlaça, sem prejudicar a essência literária, resultando numa narrativa especial e sedutora, quer na forma como no conteúdo.
Na entrevista que Óscar Ribas concedeu a Michel Laban, no I volume do livro “Angola: Encontro com Escritores”, quando lhe foi questionado se se considera mais escritor ou etnólogo, Ribas remete a resposta à análise do leitor, sugerindo, entretanto, que talvez se considere mais como etnógrafo. Evidentemente, a resposta do autor encerra o conjunto da sua obra, não olhando somente para a obra “Uanga”.
Com efeito, tal abordagem coloca-nos ante a clássica consideração sobre o campo literário e as fronteiras que delimitam o fenómeno literário, convidando-nos a olhar para a perspectiva do ensaísta e professor português Carlos Reis, na sua obra “O Conhecimento da Literatura: Introdução aos Estudos Literários”, quando reflecte sobre o que cabe no campo literário, afirmando que “a inclusão de certos textos dentro do campo literário e a exclusão de outros, não se anula a possibilidade de haver situações híbridas (como é, em nosso entender, o caso de “Uanga”), que desvanecem a fixidez com que eventualmente se poderia postular a existência de um campo literário com margens rigidamente determinadas”.
Na verdade, mantendo-nos na linha do pensamento do citado académico, “Uanga” se enquadra na condição institucional da literatura, repartidas em três âmbitos autónomos, nomeadamente a dimensão sociocultural, como prática ilustrativa de uma certa consciência colectiva – no caso vertente, da sociedade africana luandense da época – a dimensão histórica e a dimensão estética.
Outrossim, propomo-nos buscar analisar a componente fundamental da estrutura da narrativa em “Uanga” e alguns dos seus elementos no processo de tessitura literária, e noutra vertente, fazer uma análise desprovida do prisma literário, para compreendermos a outra face da mesma realidade, onde o romance é visto como produto etnológico.
Entretanto, antes de nos debruçarmos sobre as questões acima enunciadas, julgamos pertinente que, para uma melhor compreensão do assunto, objecto da nossa análise, façamos um enquadramento histórico do cenário da obra e, por outro lado, exploremos as múltiplas perspectivas do conceito de fronteira, tendo o referido romance como pano de fundo.
Enquadramento Histórico da Narrativa em “Uanga”
A Planta de Luanda, levantada por Francisco Pereira Dutra em 1862, por ordem do Governador-Geral de Angola, Sebastião L. de Calheiros e Meneses, associada às imagens fotográficas, desenhos da cidade e relatos escritos datados de 1882, período em que decorre a trama narrada na obra “Uanga”, constituem fontes que nos permitem testificar que Luanda, na época em que se desenrolam os acontecimentos do citado romance, já possuía uma face dupla, resumida na cidade alta, onde residia o Governador, o Bispo e os principais funcionários públicos, e a cidade baixa, o centro das actividades comerciais. No entanto, a cidade não era incólume às cubatas, pois, como descreveu o Professor Ilídio do Amaral, no seu livro “Luanda: Estudo de Geografia Urbana”, citando J.J. Lopes de Lima, no seu “Ensaios Sobre a Estatística das Possessões Portuguesas”: “por detrás da cortina de edifícios de pedra – sobrados e casas térreas – da baixa, aglomeravam-se as numerosas cubatas dos “nativos e gente pobre da terra. As ligações com a Cidade Alta eram efectuadas através de alguns caminhos de pé posto e de poucas rampas ou calçadas.
Entretanto, as cenas de “Uanga” ocorrem no musseque Casuno, um conglomerado suburbano que, naquela época, estava situado não muito distante do centro do poder colonial em Angola, a Cidade Alta, no local hoje correspondente a área onde está situada a actual rua do Casuno e o Parque Heróis de Chaves. Ora, olhando para o enredo de “Uanga”, que narra e descreve uma realidade tipicamente africana, permite-nos aferir que, não obstante a proximidade territorial entre o centro do poder político, administrativo e religioso colonial (Cidade Alta), e o local dos acontecimentos do trama, o musseque Casuno, estávamos diante de realidades, convivências e mundividências completamente opostas.
As Múltiplas Dimensões do Conceito de Fronteira, em “Uanga”
As fronteiras em “Uanga” não se resumem à dicotomia literário e etnológico. O poeta e ensaísta angolano Mário António Fernandes de Oliveira, um insigne cultor de estudos da cronologia da composição, evolução e configuração dos núcleos humanos em Luanda, no período colonial e autor do livro “Luanda ‘Ilha’ Crioula”, publicado em 1968, defende que a cidade de Luanda foi palco de um processo de cruzamentos culturais, desde o século XVII, entre brancos e negros, o que resultou num grupo intermédio entre europeus da metrópole e a maioria da população negra rural.
Sem querer entrar no mérito dos estudos de Mário António, ainda assim, não podemos perder de vista que, no período correspondente à ocorrência da trama “Uanga” de Óscar Ribas e não só, múltiplas fronteiras objectivas e subjectivas, delimitavam no espaço luandense, separando as comunidades humanas. A fronteira cultural, entre os habitantes de raça branca, juntamente com uma quota-parte de mestiços e negros assimilados, e os negros indígenas maioritários nos musseques, era evidenciada por diferenças de natureza linguísticas, históricas, de crenças e ritos religiosos, códigos morais, éticos, que se constituíam como verdadeiros divisores de águas, resultando no chamado choque cultural ou civilizacional europeu/cristão e africana/animista.
Este contexto remete-nos à identificação de outras fronteiras, tais como a fronteira dos direitos políticos, que já naquele período separava o cidadão europeu aos indígenas, os protagonistas do romance em análise; a fronteira geográfica-demográfica, que demarcava a cidade e o musseque, à semelhança de hoje, os bairros periféricos informais ou assentamentos, que albergavam a reserva de mão-de-obra para os serviços de natureza doméstica ou comerciais praticados na cidade; a fronteira entre a pobreza (sobretudo do africano) e a riqueza (sobretudo do europeu), onde a cidade simbolizava a prosperidade económica e os musseques a pobreza.
Segundo a acima citada Planta de Francisco Dutra, os musseques consolidados e que se destacavam naquela época em Luanda eram o Magalhães Lima, dos Flores, do Torres e do Van-Dúnem e, também, os musseques dos Cabindas, povos do grupo étnico Bacongo, referência demonstrativa de que, não obstante a predominância da etnia Ambundu, já se registava o fenómeno da transetnicidade nos subúrbios de Luanda.
Vale sempre sublinhar que, apesar desta multiplicidade de fronteiras, era inevitável que, de forma mais ou menos intensa, ocorresse o fenómeno do hibridismo e o diálogo intercultural entre os habitantes da cidade e dos musseques, factores que, em muitos casos, acabavam por desconstruir algumas destas citadas fronteiras, sustentando a tese defendida por M. António.
“Uanga”: caracterização literária versos etnológica
A literatura como arte exploradora das emoções e da subjectividade e a ciência, que incide sobre o rigor e a objectividade, partilham entre si a imaginação e a criatividade como motores fundamentais. Neste contexto, a literatura e a etnologia, como actividades humanas, evidenciam traços de confluências quando, dentre outros aspectos, se debruçam sobre contextos sociais e formatos culturais, num dado espaço e época.
Quanto à caracterização literária, o romance “Uanga” contém os aspectos universalmente indispensáveis à organização de uma narrativa, quer ao nível dos acontecimentos quer ao nível da relação que se estabelece entre as personagens e o narrador ou entre a acção e as personagens, bem como nos modos de expressão do texto, nomeadamente, o poder descritivo e narrativo, que reconstitui de modo flagrante a realidade dos musseques luandense daquela época, pois, ao viajarmos na prosa em causa, compreenderemos que o autor não se ampara muito na imaginação ou fantasia, típicas das ficções. Mesmo os diálogos peculiares dos personagens e comentários que se estabelecem ao longo da narrativa reforçam a reconstituição da realidade da época.
Mário António, no seu “Luanda ‘Ilha’ Crioula”, ao se pronunciar sobre “Uanga”, diz que “a observação, a anotação – estádios primeiros da criação literária – têm o lugar maior”, e critica a intriga e a tessitura romanesca, bem como o português um tanto “livresco” adoptado no romance.
Em nosso entender, quando analisamos a faculdade estética do texto, podemos observar que a aguçada sensibilidade investigativa do autor não esvaiu a sua têmpera artística e criativa, porquanto ser possível notar um entrosamento entre a arte literária e a exposição do universo folclórico da região de Luanda.
A qualidade da linguagem é um aspecto importante a ter-se em consideração em “Uanga”, quer quando analisamos a perspectiva do discurso erudito do narrador, como quando olhamos num polo oposto, e deparamo-nos com um contrastante diálogo corrompido das personagens, um factor que emana da condição bilingue das personagens, que dominam uma língua materna, no caso, o quimbundo que, nesta condição, actua como o primeiro instrumento de comunicação das personagens, porém, estão sujeitos a adoptar uma língua segunda, o português, que beneficia oficialmente de um estatuto privilegiado, em virtude de ser a língua veicular, pois a política colonial portuguesa assim impunha.
Por conseguinte, no caso em apreço, verificamos que estamos perante um fenómeno de diglossia, onde uma das línguas, no caso o quimbundo, tinha oficialmente um estatuto sociopolítico inferior ao português.
Entretanto, pelo discurso das personagens, podemos aferir, que as línguas faladas não estão isentas do choque cultural, que se manifesta no espaço onde decorre a acção, pois, a diglossia não impede a interacção e diálogo entre as línguas concorrentes.
Perspectiva etnológica de “Uanga”
Uma das características que notamos em “Uanga”, não muito comum nos romances ou demais géneros narrativos, são as várias notas de rodapé com os quais coabitámos ao longo da nossa leitura, expediente pelo qual o autor lança mão, para elucidar os leitores sobre determinadas realidades e comportamentos típicos do povo em análise. As notas de rodapé nos remetem à função didáctica da obra. De resto, conforme já nos havíamos debruçado, no início da nossa comunicação, Óscar Ribas adverte os leitores, sobre o duplo compromisso literário e etnológico do autor.
Como não poderia deixar de ser, ao contrário dos estereótipos dos discursos dominantes, na época em que a obra foi produzida, onde os valores da cultura ocidental eram elevados aos valores universais, numa perspectiva de etnocentrismo, hoje a análise etnográfica da obra de Óscar Ribas deve ser efectuada na base do princípio do relativismo cultural, onde subjaz a perspectiva antropológica, que se opõe à categorização de cultura “superior” ou “inferior”, olhando para cada grupo social como possuidor de uma cultura específica, que só pode ser analisada a partir dos seus próprios códigos.
Tal princípio analítico contraria a anacrónica teoria do evolucionismo unilinear da cultura que classificava a cultura ocidental como superior e defendia que cada sociedade seguiria uma única trajectória – a partir do estado “primitivo” –, até alcançar o modelo clássico da civilização ocidental. Obviamente, no período em que o romance foi escrito, a conjuntura sociopolítica pendia para este quadro. Não é por acaso que o próprio autor descreve o romance em análise, como sendo um “documentário da sociedade negra inculta”.
Reforçando a tese de que “Uanga” é, efectivamente, um documento etnológico, fazemos um paralelismo com a metodologia de pesquisa etnográfica adoptada por Angel Baztán, e concluiremos mutatis mutandis, que Óscar Ribas segue os mesmos passos, a saber:
- A delimitação do objecto de estudo: a eleição de uma comunidade, no caso, a comunidade negra dos musseques de Luanda no século XIX (lugar e tempo);
- Preparação física e mental: para a pesquisa e as fontes pesquisadas, neste caso, orais;
- Investigação: registo de dados; observação participante.
- A produção da obra.
Para finalizar, citamos a Professora Irene Guerra Marques, prefaciadora de uma das edições de “Uanga
“, quando diz que “a intuição e genialidade raras confirmadas pelo conjunto da sua obra (de Óscar Ribas), garantem o prolongamento dos valores identitários, tornando-o num dos depositários mais fiéis do estudo, da preservação e da divulgação de parte fundamental do património cultural angolano”.
E como afirmámos numa das nossas comunicações sobre o autor de “Uanga”, Óscar Ribas é um orgulho de Angola e dos angolanos e um exemplo de dedicação, resiliência, que deve ser seguido não só pelos pesquisadores e/ou estudantes, mas por toda a população, para que, com a entrega de todos, possamos vencer a batalha do subdesenvolvimento e seguir rumo à felicidade que tanto almejamos.
Referências Bibliográficas:
– DOS SANTOS, Martins – “Primeiras Letras em Angola”, Edição da Câmara Municipal de Luanda, Comemorativa do IV Centenário da Fundação da Cidade, 1973;
– LABAN, Michel – “Angola, Encontro com Escritores” I Vol. Edição Fundação Eng. António de Almeida, 1991;
– REIS, Carlos – “O Conhecimento da Literatura, Introdução aos Estudos Literários”, Almedina Editora, 2.ª Edição e reimpressão, 1999;
– ALMEIDA SANTOS, José – “Crónica da Velha Cidade, Página Esquecida da Loanda de Há Cem Anos”, Edição da Câmara Municipal de Luanda integrada nas Comemorações do IV Centenário da Cidade, 1972;
– LOPES DE LIMA, José Joaquim e BORDALO, Francisco Maria – “Ensaio Sobre A Estatística das Possessões Portuguesas na África Ocidental e Oriental”, Imprensa Nacional Portuguesa, 1846;
– AMARAL, Ilídio do – “Luanda (Estudo de Geografia Urbana)”, Memórias da Junta de Investigação do Ultramar, n.º 53, 1968;
– MOURÃO, Fernando Augusto de Albuquerque – “Configurações dos Núcleos Humanos de Luanda, do Século XIV ao Século XX”, Actas do Seminário Encontro dos Povos e Cultura em Angola, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses, 1995;
– MARCHUETA, Maria Regina – “Conceito de Fronteira na Época da Mundialização”, Edições Cosmos, 2002;
– FOREST, Philippe – “Termos Fundamentais da Cultura Geral”, Publicações Europa-América, 1991;
– BATZAN, Angel, CORREA, Luiz – “A Pesquisa Etnográfica, Teoria Etnográfica e a Festa do Divino Espírito Santo”, 2017.
Nota
1 Comunicação apresentada na Conferência “But now I See, Óscar Ribas e o Seu Legado”, realizada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP).
Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971, em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.
Foi Professor, tendo leccionado História em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores”, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.
Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.















