Cultura

A arte poética como semente de luz para germinação do bem: a propósito do poemário O guardador da chuva: 50 canções para Angola de F. Tchikondo. | Bendinho Freitas

Foto F. Tchikondo, Francisco Queiroz

O guardador da chuva, 50 canções para Angola de F. Tchikondo_1”

 

Após ter-se estreado no mercado literário com o romance de ficção científica e futurologia, intitulado ‘O Grande Império Kassitur na Dinastia Sekele’, edição da União dos Escritores Angolanos (UEA), em 2020, tendo sido editado em Portugal pela Primeiro Capítulo Editora, eis que desta feita, F. Tchikondo dá mais um passo na sua contribuição para o mosaico literário angolano, agora explorando o género lírico (poesia), apresentando-nos uma proposta, com um título sugestivo ‘O Guardador da Chuva, 50 Canções para Angola’, edição da Imprensa Nacional de Angola em parceria com a UEA. A obra visa homenagear os cinquenta anos de independência de Angola.

 

São várias as perspectivas de abordagem do texto literário; dentre elas, destacamos a perspectiva do leitor, a temporal, a formal, estética, psicológica, moral, histórica e a perspectiva biográfica.

 

Para efeitos de análise de “O Guardador da Chuvas, 50 Canções para Angola”, lançamos mão a algumas destas perspectivas, com o intuito de compreendermos a proposta poética de F. Tchikondo.

 

A perspectiva formal, cuja teoria foi cultivada pelos chamados formalistas russos, a partir de 1914, vindo a ser muito difundida no ocidente, entre os anos cinquenta aos anos oitenta/noventa do século passado, é caracterizada por incidir a sua atenção no texto, como artefacto literário, e não já para o autor, para a sua biografia, o contexto socio-histórico, que deram origem ao texto. No entanto, em “O Guardador da Chuva”, a nossa análise vem em contraponto a esta escola, cujos críticos, no período decadente o consideraram limitada, porque parte de uma base insuficiente.

 

Neste contexto, começaremos à guisa de introdução, por destacar a perspectiva biográfica, aquela em que o texto é estudado e percebido, quer na sua construção, no recurso estético e nas modalidades de expressão como resultado da personalidade do autor e da sua biografia.

 

Com efeito, apresentamos alguns rasgos biográficos de F. Tchikondo, pseudónimo literário do Doutor Francisco Manuel Monteiro Queiroz: jurista, diplomata, acadêmico e brigadeiro na reforma. Desempenhou funções de alto nível junto da Presidência da República de Angola e ocupou o cargo de Ministro da Geologia e Minas e de Ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, sendo actualmente membro do Conselho da República.

 

É Professor Associado da Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto, Membro da União dos Escritores Angolanos e Vice-Presidente para Angola, da Academia de Letras do Brasil, Ordem de Platão, para além de ser detentor de várias condecorações, quer em Angola como no exterior.

 

Seu percurso de contribuições à sociedade angolana, nas mais variadas vertentes, evidencia experiência, maturidade, associado a um capital intelectual, que lhe permitiu franquear as portas do círculo literário angolano para com as suas obras, constituir-se num dos seus protagonistas.

 

Ao lermos os seus textos poéticos, notamos um temperamento lírico dotado de uma faculdade estética orientada em três vectores, a saber: 

 

– Uma inteligência perspicaz, que lhe permite produzir as ideias, juízos e raciocínios, a partir quer do mundo exterior, com destaque para a realidade angolana, quer do seu mundo interior, por via da revelação das suas emoções, seus sentimentos ou sentimentos alheios, apresentados como seus;

 

– Uma imaginação produtiva e criadora e

 

– Uma sensibilidade traduzida em sentimentos orientados para a solidariedade, o amor e a cidadania, três eixos temáticos explorados pelo autor no poemário “O Guardador da Chuva, 50 Canções para Angola”.

 

Tais eixos, na verdade, constituem valores humanos, que nos remetem à crítica moralista, uma aplicação da teoria platónica que estabelece um estreito laço entre o bem e o belo. A crítica moralista impõe aos escritores a obrigação de tornarem os homens melhores, baseando-se em princípios éticos ou de utilidade social, estimulando, assim, um debate social e seu impacto na moralidade pública.

 

Numa altura em que, em tempos de paz, Angola ainda exercita a cura das suas feridas de longas guerras, quer pela independência, como, e sobretudo, a guerra civil entre irmãos da mesma Pátria, que resultou mais violenta e, consequentemente, ceifou mais vidas;

 

Numa altura em que o sonho que animou a luta dos pais das independências africanas ainda está longe de se concretizar, porque nem sempre soubemos levantar bem alto a bandeira da solidariedade, do amor e da cidadania;

 

Numa altura em que a África e o mundo ainda se debatem com guerras regionais, a poesia, como a de F. Tchikondo, é uma semente de luz para germinar o bem nos corações dos homens; é um farol que nos pode levar à colheita de bons frutos, que as árvores da solidariedade, do amor e da cidadania proporcionam; é um sinal de que, por via da arte, podemos cultivar estes valores.

 

A poesia de F. Tchikondo, é, pois, um bálsamo literário que proporciona não só o prazer do texto, mas também a sua fruição, como comparou Roland Barthes, para além de nos oferecer uma função educativa e social, constituindo-se como uma das formas contemporâneas de produção de arte engajada, por via da consciencialização humanística, sem prejuízo dos pilares da literariedade que, segundo a Professora brasileira Laura da Silveira Paula, no seu livro Teoria da Literatura (Ibepex, 2011), resumem-se didacticamente no estabelecimento de alguns padrões constituintes, tais como:

 

  1. A subjectividade;

 

  1. A conotação poética evidenciada;

 

 

  1. A criatividade acentuada;

 

  1. Imaginário activado;

 

  1. Exigências subjacentes do conhecimento;

 

  1. Plurissignificação vigorosa;

 

  1. A força transformadora; etc.

 

Por meio da sua obra, F. Tchikondo, não só agrega os elementos ora citados, mas também promove valores como o da solidariedade, ao dar voz a realidades marginalizadas; do amor ao explorar empatias e conexões humanas e da cidadania ao estimular o pensamento crítico.

 

Importa chamar à liça o discurso de Agostinho Neto sobre a cultura nacional, na cerimónia de tomada de posse dos primeiros corpos gerentes da UEA, realizada a 8 de Janeiro de 1979, onde Neto realça a dado passo sobre o papel do escritor, orientando-os que trabalhem, produzam e observem cada canto do espaço geográfico nacional, vivendo a vida do povo. Ora, em certa medida, com a temática que nos dá à estampa, F. Tchikondo segue esta senda, sem perder de vista a função poética da linguagem, quando amplia os sentidos da mensagem, mediante uma variação da sua estrutura, da sua entoação dos seus ritmos, juntando àquela a função emotiva e a apelativa.

 

Vale frisar que F. tchikondo não é alheio ao pensamento universal, pois poemas como “Os donos do mundo” e “desgarra global”, onde presta homenagem a ícones de relevo internacional, como Martin Luther King, Nelson Mandela e Mahatma Gandhi, são exemplos de que a visão do poeta, não é só local, mas global.

 

Breve Análise das Técnicas de Composição Literária

 

Segundo afirmou Georges- Louis Leclerc, Conde de Buffon (1707-1788), le style c’est l’homme, o estilo é o homem, ou seja, a forma como alguém escreve e se expressa é o reflexo directo da sua personalidade, carácter, sentimento e intelecto.

 

Ora, como expressão verbal do pensamento, a linguagem é, literalmente, a matéria-prima do autor, por conseguinte, ao estabelecermos uma relação com o estilo imprimido em ‘O Guardador da Chuva”, identificamos na obra originalidade de concepção e uma naturalidade, porquanto não há rebuscamento, nem extravagância, factos que nos permitem obter uma expressividade e criatividade da linguagem bem conseguidas. Poemas como “relógio do tempo”, página 17, “Kaluanda”, página 16 ou “ainda” página 23, são exemplos desta realidade.

 

No que concerne à qualidade da linguagem do texto, o autor adopta o princípio da vernaculidade e correcção. Salvo raríssima excepção, de anglicismo identificado num dos poemas, que é atendível na poesia contemporânea, sobretudo num mundo que todos os dias confirma ser uma aldeia global, os textos poéticos adoptam o princípio vernacular na expressão verbal, na medida em que não são identificados vícios de linguagem, tais como o idiotismo, o arcadismo, o neologismo, o plebeísmo, provincianismo e nem mesmo o purismo, pois o estilo é equilibrado.

 

Quanto ao princípio da correcção, apesar do texto poético, no âmbito da sua liberdade, permitir enveredar para transgressões propositadas, para criar mais ênfase ao próprio texto, as chamadas licenças poéticas e desvios estilísticos, tais transgressões não ocorrem, tornando a sua escrita fiel às regras gramaticais.

 

No que concerne à qualidade da linguagem nos textos, apesar da conotatividade, que resulta na plurissignificação e subjectividade, própria dos textos poéticos, a linguagem é clara, sem obscuridade, com concisão das ideias.

 

Sendo as palavras elementos sonoros, quanto às suas propriedades, os textos de “O Guardador de Chuva”, de forma geral têm musicalidade na linguagem, resultantes de melodia e ritmo. Os versos não apresentam dissonância e monotonia, permitindo-nos obter uma harmonia expressiva.

 

Pelo acima exposto, desejamos que a leitura da obra literária “O Guardador da Chuva, 50 Canções para Angola” proporcione não só fruição e prazer, mas que seja uma ferramenta essencial para a construção de um mundo melhor, desenvolvendo empatias, expandindo as nossas visões crítico-reflectivas, estimulando sensibilidade.

 

Referências Bibliográficas:

– HATZFELD, Adolfo – Crítica Literária, Sua natureza e suas modalidades, ARGO 1941.

 

– BARTHES, Roland – O Prazer do Texto, Edições 70, 2001.

 

– WELLEK e WARREN, René e Austin – Teoria da Literatura, Publicações Europa América, 1988;

 

– TODOROV, Tzvetan, Teoria da Literatura I, Textos dos Formalistas Russos, Edições 70, 1989.

 

– PAULA, Laura – Teoria da Literatura, Editora IBPEX, 2011.

 

– CHACON, Lourenço – Ritmo da Escrita, Martins Fontes Editora, 1998.

 

– Guia do Professor de Língua Portuguesa, I Volume, Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.

 

Nota

 

1 Texto apresentado no lançamento do livro ‘O Guardador da Chuva, 50 Poemas para Angola”.

 

fotografia de F. Tchikondo.

 

fotografia de Bendinho Freitas

Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971, em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.

 

Foi Professor, tendo leccionado História em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.

 

É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores”, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.

  

Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.

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