Cultura

Maestrias poéticas – Odisseia da alma | Ademir Barros dos Santos

Foto de Sylas Boesten na Unsplash

 

Nenhum título poderia caber melhor nestas páginas em que as maestrias poéticas de Morgado Mbalate e João Timane se completam e interpenetram, mostrando ao leitor que, se a poesia é a pintura posta em letras, os quadros de Timane representam poesias transportadas para a tela.

 

Sim, porque se Morgado se pretende poesia, paisagem, vento, passarinho, tempestade, é porque assim voa sua alma, entre pássaros e plantas, entre sonhos de liberdade.

 

É exatamente esta a liberdade que Timane movimenta em suas telas. Movimenta em suas telas, porque suas telas são cheias de movimento. Não são retratos, nem traços soltos, sem qualquer vaidade; não: antes, transportam, em suas cores trespassadas, os sentimentos de africanidades moçambicanas que Morgado põe em suas sonoras e profundas poesias.

 

Isto porque, se “toda alma é pássaro terno e eterno”, o voo do pássaro de Morgado, prenhe da natureza moçambicana, nos leva ao infinito, ao profundo, ao âmago do sentimento de quem sabe voar. 

 

Mas, não apenas voar. Voar, mas para dentro de si, e tão profundamente que leva Morgado a declarar: “cada alma no mundo se alimenta daquilo que sonha”. Isto, porque quem sonha “está em comunhão com Deus”.

 

Pois bem: é esta a comunhão que Timane consegue captar quando, mais que rostos, representa silhuetas; quando, mais que paisagens, representa sentimentos. Quando, para além da moldura das telas, extrapola o sentimento de nacionalidade, de liberdade, de expansão e universalidade que Morgado traduz, de volta, quando explode em luzes em seus versos que, apenas, declaram “Sou muito da África que sonha”…

 

Que sonha sob o olhar atento e poético de Timane, com suas cores, suas interpenetrações, suas indefinições de limites; o olhar de Timane é, sim, sonhar.

 

Isto, porque apenas quem sonha pode se colocar entre suas imagens, e entrar em seus quadros, e interpenetrar-se de seu mundo de formas tortas, para compreendê-las inteiramente, nas nuances de suas cores e na imbricação de seus sonhos, e sonhos, e sonhos. E muitos, e constantes, e infinitos sonhos, que só quem tem a sensibilidade a revestir a própria alma, pode captar. Se é que se pode captar.

 

Morgado sabe: “ninguém se torna poeta sem a permissão de um passarinho”, porque os passarinhos percorrem os céus, levando o poeta à permanente comunhão com Deus. Este deus das letras, das inspirações, que resolveu, sabe-se lá porquê, abençoar Morgado com o dom da poesia. E Timane, com o dom das cores combinadas. E Morgado e Timane, com o sonho de poderem se completar e se complementar em tons e versos que conformam suas poesias. Pintadas ou escritas. Mas, sobretudo, expostas e sentidas.

 

Que mais dizer se o próprio Morgado confessa: “Deus me batizou perante a lua”, porque também sabe e não nega, quando diz: “passo a passo vou me tornar poesia”.

 

Assim com Morgado. Mas, também com Timane que, sorrindo, nada diz: sua fala e sua poesia estão, nas telas, muito bem escritas.

 

fotografia de Ademir Barros dos Santos

Ademir Barros dos Santos é Doutorando e mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos, pesquisador de negritudes.

 

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