Poesia & Conto

Trecho do livro “Meu nome é Laura” | Alex Andrade

Foto de Tania Melnyczuk na Unsplash

 

Lençóis esparramados sobre o colchão, flutuando em torno do corpo que se move em lento movimento, enquanto as molas se retorcem a cada passo e a cada salto, sobre a cama a alma, as imagens de dentro e de fora em conexão com alguma coisa que cresce e que pode até ser feita de medo, mas era feita de coragem e de um tanto de amor. Quando o lençol escorregava pelos ombros e tocava a pele fina do corpo magro e longilíneo, uma flor em algum jardim no mundo se abria.

 

A natureza das coisas que se expandem e obedecem ao querer, 

ser fluído e ser, 

abastecer o coração e ficar sem receio de nada.

Pedrinho deitava-se ao chão, exausto de tanto.

A mão escorregando devagar entre os contornos do corpo que estava vazio de tudo, ele sentiu um calafrio, era a voz que soprava um silêncio em seus ouvidos.

O que você quer? – Ele perguntou.

E a voz foi se deitando ao seu lado, os braços do menino a abraçando para reconfortar, e suavemente lhe sussurrando 

Vem

– Pedrinho! 

O menino deu um pulo enquanto o corpo se equilibrava para alcançar o colchão, escorregando e caindo em seguida, desequilibrando-se entre os lençóis que foram desabando um a um por cima de si.

 

Era a mãe. 

Olharam-se frente a frente.

– Onde você quer chegar com essas brincadeiras?

Pedrinho não respondeu, foi ajeitando um lençol que agarrou no meio da confusão para cobrir o corpo nu e recostou-se no canto do quarto, enquanto a mãe acendia as luzes e vasculhava o ambiente com fúria.

Heloísa não disse sequer mais nenhuma palavra. O menino ficava observando cada movimento que ela fazia com brutalidade enquanto lançava os lençóis longe.

 

– De novo essa coisa de

 

– Não tem nada demais, eu só estava brincando.

– Seja homem! Onde já se viu, porque você não está lá fora brincando com os meninos?

– Eu não gosto!

– A vontade que eu tenho é de internar você em um hospício.

– Eu não sou um louco.

– Então é o que?

– Eu sou eu!

– Um esquisito.

Meu nome é Laura, Alex Andrade, setembro de 2024

RELEASE DE APRESENTAÇÃO DO LIVRO MEU NOME É LAURA

Alex Andrade é escritor, nascido no Rio de Janeiro.

 

Em 2023, o autor foi um dos semifinalistas do Prêmio Oceanos de Literatura, selecionado entre mais de dois mil e seiscentos autores dos países lusófonos, o romance “Para os que ficam “ também publicado pela editora Confraria do Vento ficou entre os dez melhores segundo o corpo de jurados.

 

Em 2024, Andrade nos apresenta, com sensibilidade e empatia, um romance que nos permite uma aproximação profunda do difícil e libertador exercício de se descobrir a própria identidade: Meu nome é Laura.

 

Este é o décimo quinto livro do escritor, entre literatura infantil, infantojuvenil e adulta, e o quinto livro em parceria com a editora Confraria do Vento.

 

Andrade nos leva a conhecer a história da construção de uma identidade.

 

A questão da busca de quem somos, o que somos e o que podemos ser, leva o leitor a acompanhar o descortinar da sexualidade de um menino que pouco a pouco vai encontrando os caminhos, muitas vezes dolorosos, para ser o que realmente é.

 

Meu nome é Laura é um livro cheio de lirismos e preenchido de imagens.

 

Alex Andrade retorna ao romance para nos fazer refletir, mais uma vez, como cidadãos em uma sociedade injusta e cheia de preconceitos.

 

A trama é contada a partir das perspectivas de Pedro, o pai, Pedrinho, seu filho e Laura. A história se inicia com Pedro refletindo sobre a infância difícil, marcada pela figura de um pai abusivo e alcoólatra. Conhecido pelo sobrenome “Pacheco” e por suas longas ausências devido à pescaria, o avô de Pedrinho tinha um comportamento negligente e destrutivo, que moldou profundamente a vida de seu pai. Ele costumava dar conselhos sobre como enfrentar o mundo com coragem, mas sua ausência e vício tiveram um impacto negativo na criação dos filhos.

Quando Pedro se torna pai, ele se depara com questões não resolvidas de sua própria infância. Seu filho, Pedrinho, que com o tempo se revela trans, enfrenta um ambiente familiar hostil, especialmente em relação à sua mãe, Heloísa, que demonstra rejeição e falta de compreensão em relação à sua condição. A visão conservadora e a crueldade de Heloísa e da avó de Pedrinho exacerbam o seu sofrimento, tornando sua vida ainda mais dolorosa.

Apesar dos desafios, Pedro se empenha em oferecer a Pedrinho o apoio que ele mesmo não recebeu, esforçando-se para superar os padrões prejudiciais de sua própria criação. A principal diferença entre Pedro e seu pai é que, mesmo diante de um tema delicado como a transexualidade, ele visa construir um ambiente de aceitação e compreensão para Pedrinho (futuramente Laura).

A abordagem de Andrade é notável pela sua reflexão sobre as consequências de uma paternidade nociva e a descoberta da transexualidade. Ele explora não apenas os desafios enfrentados devido à falta de aceitação social da identidade de gênero, mas também os efeitos nocivos da rejeição e da ausência de informação. O romance oferece um retrato cru e sincero da luta por reconhecimento e da necessidade de amor incondicional, destacando a importância do apoio familiar em momentos de vulnerabilidade.

“Meu Nome é Laura” proporciona uma visão sincera e empática dos desafios enfrentados por aqueles que buscam ser aceitos em suas identidades. Por meio de uma narrativa complexa e sensível, Alex Andrade nos lembra da importância de confrontar nossos próprios preconceitos e de apoiar nossos entes queridos na busca pela autenticidade e pelo afeto: Vivo pensando no amor, e isso me faz ultrapassar todas as fronteiras, e me deixa com mais vontade de ser da próxima vez novamente o nome de uma mulher, e mais forte para enfrentar o medo de ser. Vivo abrindo os espaços, feito o animal que ronda pela floresta fugindo do golpe de um tiro certeiro, corro tão rápido que meu corpo vai ficando para trás, primeiro vão chegando as minhas vontades. E me lanço no mar como quem vai ao encontro do horizonte, mas você, meu pai, me faz seguir o caminho de volta, para viver, para se transformar. A minha alma é amorosa e ouço o meu pai me dizendo bem baixinho, como se estivéssemos na esquina esperando encontrar oásis no fim das ruas, vá, ainda é cedo, voa a luz das certezas, e não canse de lutar.

Link para pré-venda do livro: clique aqui

 

Meu nome é Laura 

Editora Confraria do Vento 2024

Alex Andrade 

www.alexlivrosearte.blogspot.com.br

 

fotografia de Alex Andrade

Escritor e arte-educador. 

Alex Andrade foi um dos 20 semifinalistas do Prêmio Oceanos de Literatura 2023 com o romance “Para os que ficam” editado pela Confraria do Vento Editora em 2022.

Nascido no Rio de Janeiro, Andrade escreve desde pequeno. A sua relação com a literatura vem da infância como um ouvinte das histórias que a mãe contava e que alimentou o seu gosto pelos livros e pelas músicas.

Publicou os romances Antes que Deus me esqueça, Longe dos olhos, Para os que ficam e os livros de contos A suspeita da imperfeição, As horas, Poema, Amores, truques e outras versões, e os livros para as infâncias O Gigante, A menina que entrou na história, A menina e a sapatilha/O menino e a chuteira, A história do menino, O pequeno Hamlet, A galinha malcriada. 

Em setembro de 2024 lançou o romance “Meu nome é Laura “, que traz, segundo as palavras do premiado escritor Alexandre Vidal Porto, um livro sensível e comovente e muito bom de ler. O livro trata da Construção de uma identidade. 

E também o infantojuvenil O menino e as ideias pela editora Pé de palavra, livro que segue a linha do anterior A menina que entrou na história, publicado em 2023.

Tem contos publicados em diversas revistas e periódicos de literatura e alguns destes contos foram publicados em inglês, espanhol, francês e chinês. Desenvolve vários projetos ligados à educação e literatura voltados ao incentivo à leitura e ao livro em comunidades e escolas municipais.

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