
fábula conhecida da vida
havia um passarinho que nasceu com
uma única asa
ainda assim era pássaro e ousava sonhar
não, não queria voar, sabia que tinha
uma só asa
o seu sonho era ter duas asas
e ser pássaro completo.
um dia acordou com as duas asas
e não era dentro do sonho. Pensou
em ser feliz enquanto pássaro, tal o milagre;
foi quando o homem o viu
como a qualquer outro
– passarinho, vem cá!…
e torceu-lhe o pescoço
para ter o que jantar.
in “Oblíquos” (2018)
Desconstrução,
uma revoada de palavras simples,
guardadas
ao acaso do bolso das calças
como pedras, como vagas.
Um veleiro antigo
ou as mãos brandas do destino,
esfolemos a preceito as suas
almas danadas.
in “Os confins de um Lapso” (2023)
se este for um poema simples,
o mais simples poema existente
será cheio de coisas mudas
como o começo do próximo Verão
ou um crepúsculo melancólico
imperturbável, ascendente
e filosofal
e será como só um grão de terra
em ouvido atento à dimensão da luz,
ao terno rumor das pessoas
com histórias por contar:
será um verso do tamanho do pó
com a direcção azul do céu.
Poema seja. E que na palavra de
um vento milenar seja poema
[o meu poema pequenino]
onde as mãos bem saibam tocar
a infinita dimensão dos dedos
mas se, enfim, for
o meu poema mais simples
muito mais saberá
das frutas doces, jovens e maduras,
de tâmaras, cônjuges, caminhos
frescos à beira das amoras
e saberá de ondas oceânicas
com amizades que levitam, porque
talvez sejam simples amizades
com infância. E saberá este poema
das antigas canções de embalar
e do movimento feliz dos pássaros
que habitam a terra ao entardecer.
E se ainda for este o poema mais
simples será modesto como o vento
e o mais simples poema estará
cheio de coisas que só são sábias
geométricas e mudas
e as palavras não serão para ler.
in “Os confins de um Lapso” (2023)
Fernando Chagas Duarte (n.1964, Lisboa), geógrafo, escritor, poeta, fotógrafo amador, viajante do mundo e das particularidades. Autor de seis livros de poesia, publicados entre 2014 e 2023, e do romance No fim de um lugar (Ed. Kotter, 2022), tem participação em cerca de duas dezenas de colectâneas poéticas e revistas literárias de vários países.










