Poesia & Conto

Poemas | Fernando Chagas Duarte

Foto de Annie Spratt na Unsplash

fábula conhecida da vida

 

havia um passarinho que nasceu com

uma única asa

ainda assim era pássaro e ousava sonhar

não, não queria voar, sabia que tinha

uma só asa

o seu sonho era ter duas asas

e ser pássaro completo.

um dia acordou com as duas asas

e não era dentro do sonho. Pensou

em ser feliz enquanto pássaro, tal o milagre;

foi quando o homem o viu 

como a qualquer outro

– passarinho, vem cá!…

e torceu-lhe o pescoço

para ter o que jantar.

in “Oblíquos” (2018)

 

Desconstrução,

 

uma revoada de palavras simples, 

guardadas 

ao acaso do bolso das calças

como pedras, como vagas. 

Um veleiro antigo

ou as mãos brandas do destino,

esfolemos a preceito as suas 

almas danadas.

 

in “Os confins de um Lapso” (2023)

 

se este for um poema simples,

 

o mais simples poema existente

será cheio de coisas mudas 

como o começo do próximo Verão

ou um crepúsculo melancólico

imperturbável, ascendente

e filosofal 

e será como só um grão de terra 

em ouvido atento à dimensão da luz, 

ao terno rumor das pessoas

com histórias por contar:

será um verso do tamanho do pó

com a direcção azul do céu.

Poema seja. E que na palavra de

um vento milenar seja poema 

[o meu poema pequenino]

onde as mãos bem saibam tocar 

a infinita dimensão dos dedos

mas se, enfim, for 

o meu poema mais simples 

muito mais saberá 

das frutas doces, jovens e maduras,

de tâmaras, cônjuges, caminhos

frescos à beira das amoras

e saberá de ondas oceânicas

com amizades que levitam, porque

talvez sejam simples amizades

com infância. E saberá este poema 

das antigas canções de embalar 

e do movimento feliz dos pássaros 

que habitam a terra ao entardecer.

E se ainda for este o poema mais 

simples será modesto como o vento 

e o mais simples poema estará 

cheio de coisas que só são sábias 

geométricas e mudas

e as palavras não serão para ler.

 

in “Os confins de um Lapso” (2023)

 

Fotografia de Fernando Chagas Duarte

Fernando Chagas Duarte (n.1964, Lisboa), geógrafo, escritor, poeta, fotógrafo amador, viajante do mundo e das particularidades. Autor de seis livros de poesia, publicados entre 2014 e 2023, e do romance No fim de um lugar (Ed. Kotter, 2022), tem participação em cerca de duas dezenas de colectâneas poéticas e revistas literárias de vários países.

 

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