
Rio é a primeira pessoa do singular
Do Presente do Indicativo
Do verbo RIR. EU RIO.
É o espelho das coisas inanimadas
Dos seres anima, que com
Ou sem raízes,
Deslocantes e deslocados,
Molham nele os pés.
Tejo_ Tajo_ Tai
Sou Tai, porque perdi
O meu nome e fiquei
Como o início do nome
De onde venho
De onde vim.
Sou Tai, Tai no tejo, Tai no Tajo
Sou tai
Entro na água com o balde.
Rio_Mar_RioRio_ Mar
Água água rio água mar
Mar-água-rio
Água gua gua gua gua
Água guuuuuuuuuuuua guaa
Àgua.
Sou apenas o nome do meu país
Deixei se ser eu
Eu.
Não entendo o que dizem os outros
Enquanto trabalho:
Flúmen, flumine, fluvii, rivus,
Caelum, coelum, aether,
Não falo, porque eles não me entendem.
Afundo as mãos na água
Tenho que viver.
Do ponto de vista da água, o meu
Destino é bastante simples:
As minhas unhas semi-conchas
Nas pontas dos dedos entorpecidas
(acham que seria mais fácil, se eu fosse
Uma pedra?)
As pontas dos dedos
Tocam nas conchas-toca
Concentração de tempo e onda
Saturação imponderável
Força vacilação
Toca do tenro ser
Que fará parte de outro ser.
Com todos os olhos
Vejo as criaturas.
Os meus olhos estão dentro
Das conchas a filtrar sal, limos,
Desmedo do mundo,
A desintimidar a vida da
Ferocidade atlética,
Que me matará à fome,
Se eu renunciar à escravatura.
No interior da água sou
O feto impiedoso que terá
De a deixar.
Não tenho intimidade
Com o mundo.
O animal que me vem às mãos
Quando dobrada sob o sol
E a névoa
Carrega em si o momento da sobrevida
O en-si-mês-ma-men-to do so-bre-vi-ver
Em si mesmo momento .
A natureza naturopata
Dentro de água
Os pés lambidos
Pela lama.
Sou desta terra-líquida_ TAI
Que me cobre e me furta _ TAI
Do céu ao cinzel do vento_ TAI
Pura presença compacta_ TAI
De ser tomado pelo sol_TAI
Amadurecida amolecida compelida
Pela líquida essência.
A minha filha ficará sem mãe
Eu ficarei sem mim.
Água gua gua gua gua
Água guuuuuuuua guuuuua
Água Água (dizer como quem fica sem fôlego)
Sou TAI, Tejo, Tajo
Num momento dobrada
Num momento tomada
O balde está cheio
A paga vai tapar-me a fome
Num momento dobrada
Num momento tomada
Não vejo a margem
(Acham que se esticar a mão, chego
À ponte?)
Num momento dobrada
Num momento tomada
Sou TAI, Tejo, Tajo
O balde está cheio
Saio sem balde.
O Tejo Tajo Tejo
É o exílio e eu lhe pertenço.
A insatisfação do exílio
Subtrai-me à margem.
Guarda-me na concha do teu
Liqué. Estou fora do mundo.
Se sou estrangeira na terra,
Serei menos estrangeira na
Água?
Estou tão distante OH Tejo
Estou tão distante oh Tajo
Eleva-me, ascende-me
Dá-me levitação, mar
Faz-me subtil
Com os olhos virados para te ver
Água, para ti, para a terra.
Subo ao sol
E magnificente
Reflicto-me sobre o teu prato.
Sou o sol que se reflecte
Sobre o teu prato.
Auto-dissolvo-me
Dever de ser mar, ar com M
No início
M de mãe no início
E daquela palavra semelhante a
Marte
Que não pronunciarei jamais.
Trabalha trabalhei trabalha trabalhei trabalha trabalhei
Por qualquer preço.
Sou TAI, de passo fracassado na lama
Sou TAI
Sem barbatanas e guelras
Este Tejo Tajo vai fechar
TAI na sua concha.
SERÃO QUINZE MINUTOS; OU QUINZE
SEGUNDOS
AQUELES QUE FARÃO DE TAI, UM AI !?
Vejo rio, água vem
Ai ai quem vem entra vai
Ai vai que quem vai vem
Ai ai quem vem não sai
Rio_mar-Ar de M
Adeus, adio, rio de mar
Ar
Ai ai quem vem não sai
(Acham que se esticar a mão chego
À ponte?)
Não sou a primeira pessoa
Do singular do Presente do
Indicativo do verbo rir. NÃO RIO.
Não rio.
SERÃO QUINXE MINUTOS, OU QUINZE
SEGUNDOS
AQUELES QUE FARÃO DE TAI, UM AI !?
Vai-se perco o balde cheio
No meio do mar_rio, sei-o
Acham que chore?
Choraria,
Se alguém dos que
Aqui não estão
Soubessem
Onde
Estou.
Não choro, não oro.
O sol me aquece
Com suas lâminas
Quentes
E irei com ele
Para longe
E serei longe
Na concha
Na língua
No prato.
Sou um sol
Que se reflecte em
Cada prato
luz
Desluz
E repete
O círculo
Que se inicia
E acaba
No mesmo
Prato.
Por um prato de fome
Morri
Por um prato de fome
Vivi.
FORAM QUINZE MINUTOS
QUE FIZERAM DE TAI, um AI!
SOU O SOL
QUE SE REFLECTE
Sobre o TEU
PRATO!
AI !
Nota : De elisa scarpa escrito para o Festival Kerouac de 2024, a propósito das pessoas que morrem a apanhar bivalves no rio Tejo.
Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.










