Cultura

15 minutos en el agua | Elisa Scarpa

Foto de Geetanjal Khanna na Unsplash

Rio é a primeira pessoa do singular

Do Presente do Indicativo

Do verbo RIR. EU RIO.

É o espelho das coisas inanimadas

Dos seres anima, que com

Ou sem raízes,

Deslocantes e deslocados,

Molham nele os pés.

 

Tejo_ Tajo_ Tai

Sou Tai, porque perdi

O meu nome e fiquei

Como o início do nome

De onde venho

De onde vim.

 

Sou Tai, Tai no tejo, Tai no Tajo

Sou tai

Entro na água com o balde.

 

Rio_Mar_RioRio_ Mar

Água água rio água mar

Mar-água-rio

Água gua gua gua gua

Água guuuuuuuuuuuua guaa

Àgua.

 

Sou apenas o nome do meu país

Deixei se ser eu 

                           Eu.

 

Não entendo o que dizem os outros 

Enquanto trabalho:

Flúmen, flumine, fluvii, rivus, 

Caelum, coelum, aether,

Não falo, porque eles não me entendem.

Afundo as mãos na água

Tenho que viver.

 

Do ponto de vista da água, o meu

Destino é bastante simples:

As minhas unhas semi-conchas

Nas pontas dos dedos entorpecidas

(acham que seria mais fácil, se eu fosse 

Uma pedra?)

As pontas dos dedos 

Tocam nas conchas-toca

Concentração de tempo e onda

Saturação imponderável

Força vacilação

Toca do tenro ser

Que fará parte de outro ser.

 

Com todos os olhos

Vejo as criaturas.

Os meus olhos estão dentro

Das conchas a filtrar sal, limos,

Desmedo do mundo,

A desintimidar a vida da

Ferocidade atlética,

Que me matará à fome,

Se eu renunciar à escravatura.

 

No interior da água sou

O feto impiedoso que terá

De a deixar.

Não tenho intimidade

Com o mundo.

 

O animal que me vem às mãos

Quando dobrada sob o sol

E a névoa

Carrega em si o momento da sobrevida

O en-si-mês-ma-men-to do so-bre-vi-ver

Em si mesmo momento .

A  natureza naturopata

Dentro de água

Os pés lambidos

Pela lama.

 

Sou desta terra-líquida_ TAI

Que me cobre e me furta _ TAI

Do céu ao cinzel do vento_ TAI

Pura presença compacta_ TAI

De ser tomado pelo sol_TAI

Amadurecida amolecida compelida

Pela líquida essência.

 

A minha filha ficará sem mãe

Eu ficarei sem mim.

 

Água gua gua gua gua

Água guuuuuuuua  guuuuua

Água Água (dizer como quem fica sem fôlego)

 

Sou TAI, Tejo, Tajo

Num momento dobrada

Num momento tomada

O balde está cheio

A paga vai tapar-me a fome

Num momento dobrada

Num momento tomada

Não vejo a margem

(Acham que se esticar a mão, chego

À ponte?)

Num momento dobrada

Num momento tomada

 

Sou TAI, Tejo, Tajo

O balde está cheio

Saio sem balde.

O Tejo Tajo Tejo

É o exílio e eu lhe pertenço.

A insatisfação do exílio

Subtrai-me à margem.

Guarda-me na concha do teu 

Liqué. Estou fora do mundo.

Se sou estrangeira na terra,

Serei menos estrangeira na

Água?

Estou tão distante OH Tejo

Estou tão distante oh Tajo

 

Eleva-me, ascende-me

Dá-me levitação, mar

Faz-me subtil

Com os olhos virados para te ver

Água, para ti, para a terra.

Subo ao sol

E magnificente

Reflicto-me sobre o teu prato.

 

Sou o sol que se reflecte

Sobre o teu prato.

 

Auto-dissolvo-me

Dever de ser mar, ar com M

No início

M de mãe no início

E daquela palavra semelhante a

Marte

Que não pronunciarei jamais.

 

Trabalha trabalhei trabalha trabalhei trabalha trabalhei

Por qualquer preço.

Sou TAI, de passo fracassado na lama

Sou TAI

Sem barbatanas e guelras

Este Tejo Tajo vai fechar

TAI na sua concha.

 

SERÃO QUINZE MINUTOS; OU QUINZE
SEGUNDOS
AQUELES QUE FARÃO DE TAI, UM    AI   !?

 

Vejo rio, água vem

Ai ai quem vem entra vai

Ai vai que quem vai vem

Ai ai quem vem não sai

Rio_mar-Ar de M

Adeus, adio, rio de mar

Ar

Ai ai quem vem não sai

 

(Acham que se esticar a mão chego

À ponte?)

 

Não sou a primeira pessoa

Do singular do Presente do

Indicativo do verbo rir. NÃO RIO.

Não rio.

 

SERÃO QUINXE MINUTOS, OU QUINZE

SEGUNDOS

AQUELES QUE FARÃO DE TAI, UM  AI   !?

 

Vai-se    perco   o balde    cheio

No meio do mar_rio, sei-o

 

Acham que chore?

Choraria,

Se alguém dos que

Aqui não estão

Soubessem

Onde 

Estou.

 

Não choro, não oro.

O sol me aquece

Com suas lâminas

Quentes

E irei com ele

Para longe

E serei longe

Na concha

Na língua

No prato.

 

Sou um sol

Que se reflecte em

Cada prato

luz

Desluz

E repete

O círculo

Que se inicia

E acaba

No mesmo

Prato.

 

Por um prato de fome

Morri

Por um prato de fome

Vivi.

 

FORAM QUINZE MINUTOS

QUE FIZERAM DE TAI, um AI!

 

SOU O SOL
QUE SE REFLECTE

Sobre o TEU
PRATO!  

AI  !

 

 

 

Nota : De elisa scarpa escrito para o Festival Kerouac de 2024, a propósito das pessoas que morrem a apanhar bivalves no rio Tejo.

 

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer.

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