Cultura

Clube dos poetas vivos | Sofia Correia

Foto de ayumi kubo na Unsplash

ao Ricardo Vaz 

do Café Calcinha

 

Entra, empurra a porta

com o que ainda te ergue

Com licença, clube, café

Calcinha — Quinta-

-feira carregada de sacos

a descer a rua, com 

ingredientes para uma sopa,

ingredientes para um rascunho

desesperado de poema,

despenhado de presença 

entre tarefas, entre as escolas

das crianças. Entra, Com 

licença, que o cartaz anuncia 

hoje o Clube dos Poetas 

Vivos. Empurra a porta com o anseio 

de ainda matar a sede, de ser 

iluminada pelas esferas de luz

quente dos antigos candeeiros,

de te veres rodeada pela mais fina 

madeira esculpida, restaurada.

 

Entra, 

senta-te por uns dez, quinze 

minutos. Pede um chá de menta

e uma fatia de bolo de limão 

com sementes de papoila. Pede 

perdão pela irreverente veemência 

ou pela falta dela. Ajeita-te 

a esse metro quadrado de cadeira 

de madeira e tampo de mármore, meio 

de lado. Elogia o delicado trabalho 

do restauro, a suavidade rosada 

das paredes, mas não te denuncies 

com o olhar, não deixes a tua figura

de estilo ser entendida, a metáfora

dos poetas mortos pintados 

de fresco a fazerem-se de vivos. 

 

Poetas, Clube, com 

licença. Pede para ler 

do teu caderno a abarrotar 

de inícios, mas não tremas 

o garfo, não embargues a voz, 

oculta a descomunal cratera 

que os dias te escavam

por dentro, finge esse eco

ser somente vapor de chá,

disfarça com o uso adequado 

do protocolo dos Poetas

estabelecido. Oculta as mangas,

as olheiras, as manchas 

já não cheiram a sangue, 

a sinusite, a fraldas, a leite 

materno, só estão esfoladas 

de tanto esfregar 

com o sabão clarim. 

 

Não pertences 

aqui, mulher mais morta 

que viva, já perdeste a conta 

das vezes que subiste e desceste 

as ruas, as montanhas, as ondas,

que entraste e saíste de cafés,

de cidades, de continentes,

já perdeste a conta das vezes

que morreste afogada ou em chamas,

que mesmo morta-viva continuaste 

a desempenhar as tarefas,

a percorrer os mapas. Mas fica, 

por dez minutos que seja,

a fazer parte do luxo do tilintar

vivo das chávenas, ó Poetisa-

-Mulher-Morta-Viva, dou-te dez 

minutos, quinze, que seja.

 

fotografia de Sofia Correia. Autora da fotografia: Lydia Lee.

Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center.  Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau.

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