
Disposto a partir para outra, entrou sem destino num autocarro onde conheceu uma senhora farmacêutica, bastante mais velha, que conquistou fazendo-se passar por…sueco. Tinha sido casada com um japonês; levou-o para casa. Um dos filhos, talvez com dez anos, entrou de rompante na sala de luxo e ficou chocado com a visão. O menino, que parecia um nipónico em miniatura, desatou num choro compulsivo enquanto corria pelo iluminado corredor, a mãe atrás compondo o peito, levantando o soutien em desalinho.
Dirigiu-se para a rodoviária. O autocarro seguinte partia para Natal. 45 horas de viagem. “É para aí que vou”, disse para si mesmo enquanto ouvia Cazuza cantar “Pro Dia Nascer Feliz”.
Ainda em Minas Gerais, um carro surgiu de contramão numa curva e embateu com alguma violência no transporte público. Acordou com algumas pessoas gritando, assustadas. Ninguém se feriu.
Esperavam um autocarro substituto chegar de BH para darem continuidade à longa viagem, o dia a nascer no cimo da montanha, tudo verde e esplendoroso, travou amizade com uns jovens igualmente em direção ao nordeste. Ficou amigo da Sóninha de São Paulo que encontrou tempos depois na Avenida Paulista. No dia em que a foi visitar, lembrou-se que anos antes, na sua primeira viagem pela Suíça, conheceu, em Ouchy, perto de Lausanne, no albergue da juventude onde ambos tinham pernoitado, uma moça de São Paulo que lhe chamava Zé da Silva e com quem fez um piquenique em frente ao lago de Genebra e eis que, de repente, ela aparece ali, S. Paulo, mais de 12 milhões de habitantes. “Isto é incrível. Estava a pensar em ti…”, disse à moça. Ela, com uma risada descrente, sem interromper a marcha, limitou-se: “Desculpe, tenho que ir, estou atrasada…”.
Algo amarrotado da viagem, assomou a Natal, de onde era o Severino que trabalhava na plataforma. Como não estava, o irmão fez as honras da hospitalidade nordestina e levou-o para a Praia do Morro do Careca onde cantadores ao desafio provocavam passos descalços de dança ao som dos acordeões. Foi ali que conheceu de perto o forró e o brega, dois géneros que se alimentam um ao outro.
Sandra tinha mais 10 anos que ele, mas isso não foi obstáculo para se deixar encantar com o calor da atmosfera reinante. À noite tiveram que ir a casa da mãe dela pedir-lhe para os deixar sair, com direito a um sermão. Jantaram, divertiram-se, transaram. Quando acordou, viu um papel escrito por Sandra em cima da mesinha de cabeceira: “Meus dias serão saudades por revê-lo. Quero voltar a abraçá-lo, quero tocá-lo, sentir de novo seu corpo, sua pele macia, quero amá-lo. Mesmo o conhecendo tão pouco você me marcou demais, me deu firmeza, me deu carinho, me deu vida em todo o meu ser. É algo que nunca antes tinha tido, que nunca senti por ninguém. Nunca ninguém me tinha tocado tanto. Eu estarei à sua espera para sentir novamente o calor de seus lábios, pele, abraços acolhedores. Quero sentir novamente em minha pele teus amorosos carinhos para que eu os possa retribuir com os meus. Eu quero você. Quero ter você sempre ao meu lado, quero prazer e lhe dar o que você merece. Abraços e beijos de quem muito lhe quer. Sandra”. “Uau, ela gostou mesmo”, pensou.
Divertiu-se em Natal, mas João Pessoa impressionou-o ainda mais. Pelo verde, por um certo ar negligé das pessoas que lhe fez lembrar os alentejanos. Ao chegar ao albergue, na Praia do Tambaú, conheceu a Fabiana Leite, que o atendeu na recepção. Ficaram apaixonados ao primeiro olhar, escreveram-se poemas, juraram-se um ao outro, beijaram-se com muita ternura, mas não ousaram fazer amor, pois ela era virgem.
Quando, após 15 dias de folga, voltou à plataforma, viu que a Anchova estava em escombros, mas ainda a arder. No mar, um imenso “rio” de petróleo escorria de outra plataforma. Estava escrito que “o lançamento de óleo ou detritos em águas brasileiras é considerado pela instrução da diretoria de portos e costas como infração à lei e sujeito a multa”, mas a penalização, se existia, ninguém a aplicava. Diariamente, milhares de litros de óleo, centenas de quilos de lixo, plásticos, latas, eram lançados irresponsavelmente das plataformas para o mar, sem que a fiscalização atuasse. Diziam os engenheiros da Petrobrás que a fuga de óleo para o mar não poderia ser evitada mas que existem produtos químicos capazes de o dispersarem. Estavam igualmente convictos que deveriam existir ações de formação que consciencializassem os trabalhadores para esta realidade, mas na prática nada estava sendo feito para minimizar o problema. Na maioria dos casos, as fugas aconteciam devido a certas operações indispensáveis à produção ou por desgaste de algum equipamento a precisar de ser substituído ou reparado. Existiam ainda situações em que a fuga de óleo para o mar era inevitável, como por exemplo quando as ondas do mar agitavam os navios, as plataformas e as linhas de oleoduto que forçavam as conexões e os engates até estes se romperem parcialmente. O lema era a maximização da produção.
Passava o dia trancado no escritório, escrevendo, ganhando dinheiro a troco de estar preso e engordando. “O que eu mais queria era trabalhar para uma companhia aérea como Comissário de Bordo. Porque sou sociável, me relaciono de forma fácil, falo fluentemente três idiomas, conheço a Europa quase toda, teria possibilidade de viajar pelos cinco continentes, meu maior sonho. Vou lutar com todas as minhas forças para conseguir esse objetivo”, planeava.
O convite veio de outro quadrante. Antes de embarcar como Rádio Operador na SS 32, uma plataforma da Sedicon, na última reunião, antes dos 15 dias de folga, decidiu despedir-se. Falou aos brasileiros de si, deles, das questões sobre segurança na plataforma, da natureza, da necessidade de deixarem uma herança mais limpa para o futuro. Falou de justiça, de bom relacionamento, de compreensão. Pela primeira vez num ano, no meio do mar, recebeu uma enorme salva de palmas. DuArte sentiu-se admirado e ficou orgulhoso. Olhou um a um nos olhos, os americanos menos sociáveis e mais arrogantes, os brasileiros mais humildes e afetuosos, abraçou-os com um enorme sorriso e deixou uma mensagem final: “por favor, cuidem do nosso mar. Respeitem-no, preservem-no para bem do nosso futuro e do futuro dos nossos filhos. Que Deus vos acompanhe todos os dias da vossa vida”. Desceu com as lágrimas nos olhos e o som das palmas e de vivas.
Foi conhecer outros lugares de eleição, como Paraty, Angra dos Reis, Búzios e, crescentemente fascinado pelo Brasil, embarcou na 32, sendo o responsável pelas comunicações com o exterior, o que fazia em várias línguas. Aceitou por ser mais uma área de aprendizagem e por o salário ser realmente atraente. Decidiu trabalhar durante 45 dias seguidos no meio do mar. Seria o seu recorde, mas como ia ganhar a dobrar por ser a quadra natalícia e Ano Novo, fez questão de enfrentar o desafio com redobrada determinação, sabendo que era a última vez que embarcaria. “Trabalhei durante um ano por aqui, seis meses em terra, seis meses no mar; está chegando a altura de partir. Entre ficar rico e louco, e gastar o dinheiro que ganhei numa grande viagem que irá do Brasil aos Estados Unidos por terra, vou optar pela segunda hipótese”, projetou. Ainda no início do que seria a última maratona profissional na plataforma, ligaram-lhe do escritório dizendo que tinham uma surpresa. Era seu pai, acabado de chegar de Portugal: “Estou aqui, em Macaé; vim porque a mãe está doente e com muitas saudades. Quero que voltes para Portugal comigo”. Algo atarantado pensou: caramba, 56 anos depois de aqui ter nascido o meu pai está no Brasil, sem um aviso sequer. Foi verificar o tráfego aéreo na região, viu que um helicóptero ambulância se encontrava a poucas milhas da 32 e ordenou que se dirigisse de imediato para lá. Arranjou um substituto, desceu ao quarto, pegou na roupa em monte, colocou tudo na mochila e quando chegou ao heliporto, o helicóptero estava a pousar.
Tinha ido à plataforma 19 a buscar um serralheiro brasileiro que, com a desculpa de que estava a sentir-se muito mal, pediu para o mandarem ao hospital. Afinal, a indisposição tinha sido inventada para ir passar o Natal em casa com a família.
O sol estava a pôr-se; o céu de um intenso vermelho alaranjado, como nunca antes tinha visto; as plataformas lá embaixo, parecendo fábricas de uma cidade fantasma. “Tive por aqui uma experiência fantástica, mas chegou a altura de ir de vez. Vou passar a quadra festiva com o meu pai e não volto mais”.
José Manuel Simões
José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.










