Cultura

Carta para Drummond | Letícia Ferro

“Gilda Nunes, Administradora do Impossível”, de Carlos Eduardo Drummond

Rio de Janeiro, 8 de março de 2026.

 

Drummond, querido,

 

Com tua acuidade de costume em (re)descobrir, biograficamente1, verdadeiros tesouros, pude tomar nota de Gilda Nunes (1945-1996): primeira mulher a presidir o Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro (CRA-RJ). Sabê-la, por tuas tintas minuciosas, sobretudo no mês três, fez com que me fosse entregue uma indistinção de fundo entre o comprometido dia das mulheres (data que elegi para te escrever esta carta) e a presença dela por escrito. A bio-grafada fez-se espelhar sol em meio ao anuviado cotidiano ao qual, de modo assaz infausto, asfixiante, muitas (a maioria) de nós somos sucumbidas, em que pese todo os esforços reativos à cata do que se nos apresenta, igualmente, “impossível”. Eis-me diante de uma obra exigente de (re)conhecimento. De astúcia e aguda sensibilidade. E as aspas para o adjetivo citado acima e substantivamente acionado ‒ em tua acertada fórmula, meu querido ‒ justifica-se não apenas (o que, por si só, já seria demasiado) pelo pioneirismo profissional de Gilda, mas também por seu modo de ser-estar no mundo, afigurando retrato vivo da força feminina que pulsa, inspira, resiste. A começar pelo modo com que aclimataste os meandros do Plano Collor: este, em sendo eivado de muita desolação e desesperança para os brasileiros, colocaria em suspeição nossos sonhos e planos, como o que Nunes, especialmente, ensejava ‒ o de conferir sede própria ao Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro. Tal feito reclamava grandes recursos financeiros, o que demandaria de Gilda o possível e o “impossível” para que seu malogro fosse evitado.

 

Carioca do dia 6 de julho de 1945, Gilda, cujo nome curto ‒ “pragmático como os bons administradores” ‒ far-se-ia lembrar por seu escorreito talento não somente no exercício de gerir como, também, na sua destreza com as artes (a costura, por exemplo), nos estudos, com disposição desde em atender às dificuldades do irmão mais velho à satisfatória resultância em seleções concorridas, como a dos cargos públicos. Pauso aqui, meu querido, para pensar que se, já em meninice, Nunes se insurgiria contra as margens da história, parece-me inevitável não secundar Lilia Schwarcz ‒ em sua observação sempre atenta ‒ voltada para a questão de ser exatamente este o lugar para o qual as mulheres, não raro, são destinadas. Gilda impressiona, em teu livro, pela assertiva pujança, o modo com que viria posicionar-se à frente do seu tempo, desnudando, no disparate de gênero, um debate inflamado e urgente do presente: o estado misógino de nossa sociedade. E, só por isso, saber dessa figura feminina representa uma lufada de ar para todas, sem exceção. Trunfo que, quiçá, nem mesmo ela poderia cogitar tamanho e longevo alcance. É, como diria seu homônimo na poesia, uma flor a perfurar “o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Sim, Nunes foi flor. Atendeu aos hábitos comumente arrolados ao nosso universo, mas também o excedeu, atendendo ao chamado da “liberdade”, que se traduziria, a princípio, na conquista de sua autonomia financeira ao ser aprovada no concurso para o cargo de Escriturária do Estado. Interessante que anotaste bem que Gilda seria corolário dos pais não apenas genético ‒ como, por óbvio, é de se esperar ‒, mas vocacional e comportamental, sobremaneira. Filha de Joaquim Nunes da Fonseca (nato administrador dos negócios da família) e de Silvia Tayt-Sohn (grafado posteriormente como Tayt Solon, administradora exemplar do ambiente doméstico), ela não tardaria a dar mostras do bom uso que faria com a herança recebida: a aguerrida e perseverante disposição frente aos obstáculos encontrados no curso de toda uma vida. Seguir com os estudos mesmo após o nascimento da filha e do desencorajamento exercido pelo pai da menina, seu primeiro marido, para pouco citar, é a prova de uma identidade que soube assomar a tantas conquistas incomensuráveis: seu ingresso no meio acadêmico na Faculdade de Administração de Empresas da Estácio de Sá. (Uma observação: o que deveria ter ficado nos registros do século xx irrompe no xxi; a cultura opressora que domina a mulher dispondo-a ao bel-prazer do desejo e escolha masculinos segue sendo (em alguns casos de modo, inclusive, fatal) perpetuada. Como gostaria que esta carta de impressão fosse endereçada apenas ao passado. Mas não, não: a mesma violação de gênero de antes, contemporaneamente, reproduz-se.).

 

Gilda persistia sendo Gilda, não é verdade? Com ar maduro e nada saciado, soube passar muito bem por provações as mais diversas. Os seus sonhos deram-lhe o ar diário, cada passo se transformava numa expressão íntima e histórica ao mesmo tempo. Soube dividir-se entre a decoração do álbum de fotografias e a liderança empresarial, chegando a estampar “seu nome no restrito clube de celebridades da Administração brasileira”. (“Uma faixa na frente do prédio [do Conselho] dizia: ‘Esta obra é fruto da obstinação da Presidente Gilda Nunes ‒ O reconhecimento do Plenário. CRA-RJ’”.)

 

De mais a mais, precisou seguir cobrindo os custos da criação da filha após o divórcio. (Outro dado que mesmo seguindo ao arrepio da lei, lamentavelmente, vem se repetindo nos dias de hoje.) Por outro lado, me foi inspirador saber que, malgrado todas as pedras no meio do caminho de Nunes, ela conseguiria alçar voos cada vez mais longevos: a sua brilhante passagem pela Fesp (Fundação Escola do Serviço Público), a sua participação como conferencista, moderadora e presidenta de sessão no 9º Congresso Mundial de Treinamento e Desenvolvimento. Que dizer, então, de sua palestra até fora do Brasil, como a que viria realizar no Equador, em Quito… “A voz de Gilda chegava para um público multinacional, no âmbito da Primeira Conferência Latino-Americana sobre a Problemática de Treinamento de Servidores Públicos”: sim, ela foi realmente uma mulher nada absorta; uma potente presença.

 

Voz que soube perfazer-se condensando o princípio da igualdade em determinação sempre desperta ‒ ainda que à base de muito café e Charm (“três maços e meio por dia”…). E, claro, combativa: a sua incessante luta contra a demissão ocorrida na Fesp, em virtude da postura contrária que adotaria com relação a uma série de atos do presidente da época. A iniciativa de se divorciar, igualmente, malquista por uma sociedade machista e patriarcal, e de lidar com o dissenso de tantos, confeririam à Gilda contornos ainda mais áridos à sua trajetória. E oque dizer do casamento com Wagner Siqueira2, em dupla valoração ‒ profissional-pessoal ‒, que impulsionaria o crescimento do Conselho de Administração, contribuindo, inclusive, para o aumento do “número de registrados a partir da atuação de Administradores em centros foral da capital”. Bem como quando Siqueira, em sendo eleito presidente do Conselho e Gilda, vice, a reputaria posição antes nunca vista. Com a saída dele para fins de candidatura ao cargo de deputado estadual pelo Rio de Janeiro, Nunes, finalmente, assumiria sua função, isto é, o protagonismo a suscitar, no órgão, a abertura de “um novo horizonte”, capaz de promover “mudanças significativas e um crescimento quase exponencial”.

 

Contra aqueles que a desejavam lucinar, que bonito foi saber que Gilda entregou, sem hesitar, autoconfiança no brilho dos olhos, porque segura estava de que cumpriria com seus objetivos, quais fossem os travões que ali pudessem se manifestar contra o maior sonho de nossa administradora. E, como bem pontuaste, meu querido, não foram poucos nem isola dos, né? Pois além da escassez de recurso para custear a obra da nova sede, em meio às medidas econômicas tomadas pelo governo Collor, Nunes, ainda, descobriria um câncer de mama… (Como todos que já passaram por isso ou que assistiram, contíguo, alguém do convívio diário, sabe como é: os dias sempre vêm carreados de sentimentos os mais sortidos, com considerável destaque aos de insegurança e medo, além das drásticas consequências sentidas na qualidade de (sobre)vida do paciente.)

 

Mas, era inconteste que, uma vez presidenta, Gilda não se furtaria em matematizar força-tarefa que desse conta de “controlar atividades, ações e pendências” como “dominar técnicas de investimentos que potencializa[ssem] os ganhos de capital do Conselho”. À Nunes, também reputar-se-ia o trunfo de ter amplificado o número de mulheres no quadro de funcionários, de forma a conceder direitos de igualdade de gênero na profissão. Admirável, louvável, necessária postura que, mesmo em 2026, o país segue carecendo de tantas e tantas outras “Gildas”.

 

Aqui, um relevante adendo que mesmeriza: ao batalhar por uma sede própria para o Conselho, Gilda almejava, sobretudo, que além de deixar de pagar aluguel, o espaço pudesse acolher “todos os departamentos do Conselho, o Sindicato dos Administradores e a Associação Brasileira dos Administradores, além de preparar, para o futuro, um ambiente propício a atividades de formação de estudantes e professores”. Ao ler isso, me fez trazer à vida, de novo, a figura de uma outra mulher, igualmente forte, inspiradora e em completa assintonia com seu tempo, dessas que parecem oferecer o próprio coração para ser dilacerado, sabe?, e que atendia pelo nome de Maria Inês da Silva (in memoriam). Uma dia te conto sobre ela… É que agora me requereria linhas por demais excedentes, além de talento e domínio de técnica que tu tens ‒ eu não, rs ‒ no ofício de biografar. Entretanto, não me lembrar dela, aqui, me pareceu tarefa “impossível”. Lindamente, Drummond, me proporcionaste adivinhar Gilda em Marias, Clarices, Graças…, e, na urgência do hoje, com a escrita do passado, a necessidade de rodear o fim das desigualdades erguidas pelo machismo estrutural de “voz grossa”, “dedo em riste” e “estatura elevada”. Obrigada por isso. Obrigada por tanto. Fique bem…

 

… Com o beijo de sempre,

 

Letícia Ferro

 

Notas

 

1 DRUMMOND, Carlos Eduardo. Gilda Nunes: administradora do impossível. Rio de Janeiro: Conselho Regional de Administração do Rio de Janeiro, 2025. Disponível gratuitamente, também, na versão e-book em: <https://share.google/2HLVtkNHHFVSHYWIb>.

 

2 Atual Presidente do Conselho Regional de Administração RJ (CRA-RJ).

 

Fotografia de Letícia Ferro

 Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística pela UFG. E-mail: let_ras@hotmail.com

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