
SIANINHAS E BRONZE
O Coronel Renato Gomes de Santos
Se encantou. Fui vê-lo.
— Era o chefe daquela terra,
fazendeiro de nome firme,
dono de gado, de gente, de tudo.
Eu era bem mocinha quando o vi de perto.
Quando nossos olhos se acharam,
fui eu quem baixou os meus —
não por recato,
mas porque o mundo veio inteiro de uma vez.
Ali, entre as fruteiras,
cheguei em casa sem sair do lugar.
Minha mãe reparou.
— O que foi, menina? Mudaste de rosto.
Não falei nada.
Ela disse:
— Agora pega firme na costura.
Natal não espera por ninguém.
Depois soube:
iam arranjar o casamento dele
com uma prima da cidade.
Ali acabou o sonho,
antes mesmo de aprender a dizer o nome dele.
Fiquei.
Cercada de sianinhas, sutaches, debruns, tudo de bronze.
Herança de minha mãe:
a máquina de costura
e o costume de engolir
o que nunca teve nome.
FELICITAS JULIA
(Lisboa, assim chamada por Júlio Cesar)
Lisboa é fixa e móvel ao mesmo tempo;
baloiça ao ritmo das pequenas ondas do Tejo,
e as suas casas parecem ter sido esculpidas de dentro da rocha,
muito antes que existisse sequer a palavra casa.
Regresso no tempo à Freguesia da Graça,
onde as velhinhas falantes sobem as escadas
ao compasso secreto de uma valsa.
No Miradouro, surpreendi-me ao perceber
que era o próprio Tejo quem me fitava —
com o olhar líquido da mais funda solidão.
Ante o espanto, apenas balbuciei sílabas dispersas.
As palavras só nasceram depois,
quando em mim se inventou um idioma novo, único,
para nomear aquele instante:
chamei-o de felicidade.
PELOS CAMINHOS EM PENUMBRA
A alma era a estrada mesma a nos conduzir,
unindo poetas de diferentes origens.
Passava o elétrico 15 da Carris
por alfarrabistas debruçados sobre o seu precioso milharal,
homens de bigode postados quais estátuas
atrás dos balcões e à frente de chávenas de café,
barbearias de uma só cadeira,
vielas escondidinhas onde antes se resolviam
ao fio da espada as querelas da traição.
As ruas são metade espaço
e a outra metade, tempo em penumbra.
Esqueci-me um pouco do livro que lia,
sentindo o elétrico a deslizar sobre os trilhos:
a cidade sobreviverá ao passante
que se transporta pelas ruas
trazendo dentro de suas vestes
uma só alma,
um só destino.
SOBRETUDO A POESIA
(Ensaio poético)
A poesia não nasceu quando alguém escreveu o primeiro verso; quando o humano chegou, ela já estava respirando.
Antes da história, havia silêncio em estado de criação.
Ela atravessa pessoas, não se fixa nelas, usa vozes, abandona corpos, permanece. Por isso, não é sobre quem fica ou quem vai. É sobre escuta.
Quem escreve não inventa a poesia: abre passagem. Quem lê de verdade não interpreta: sente no corpo.
A poesia é uma camada da existência, como o ar, como o tempo, como a memória do mundo antes do mundo.
As pessoas partem. Os nomes apagam-se. Mas o poema segue — porque nunca foi posse: a poesia existia antes de nós e seguirá depois, esperando apenas quem tenha coragem de ouvir.
Julia Lemos é poeta, jornalista e atriz, natural de Pernambuco, e mestra em Estudos Brasileiros pela Universidade de Lisboa. Publicou livros de poesia, entre eles Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu (Edições Pirata, 1980), A Casa Estrelada (FUNDARPE/CEPE, 1997) e A Exposição dos Sóis (Editora Penalux, 2017). Mantém presença ativa nas redes sociais, onde partilha textos poéticos e ensaios reflexivos. A sua escrita explora a memória e a experiência, entrelaçando vivências pessoais e personagens imaginários, cruzando realidade e ficção em reflexões sobre a existência.










