Cultura

O papel confidente e a escrita psicanálise | José Manuel Simões

Imagem de Moshe Harosh por Pixabay

DuArte parecia outro. Não se entusiasmou com a carta nem ficou interessado em sair com os amigos poetas de Macaé. Insistia em ficar sozinho, escrevia muito: “Meu coração dói-me, triste, por não ter quem amar, por não encontrar alguém a quem dar, receber, trocar, partilhar o ser amado, adorado, aventurado no corpo de uma mulher, entregue ao prazer de ser amor”. Entre os poemas, frequentemente chorava, sentia saudades dos pais, dos amigos da infância, da terra onde o tinha visto nascer, saudades do tempo em que jogava bola na rua, em que era livre, subia às árvores, sorria ao ver as andorinhas chegarem de África. Voltava a escrever: “Sou forte, tenho que ser forte, porque estou dependendo dessa força para minha salvação”; como se o papel fosse um confidente, como se a escrita fosse psicanálise. Passava noites a fio acordado, quase sempre a escrever, pensando que a sua dor não era nada se a comparasse à de outros, com os que não tinham nem pão nem amor. “Caminho cansado pela noite escura e silenciosa, carregando minha fábrica de engraxar. Continuo a caminhar. Hoje só ganhei vinte paus. Não posso ir para casa. Talvez possa pedir socorro a alguém por minha fome. Mas o mundo não tem pena, Desconhece-me, Vê-me apenas como sendo mais um vadio que vive na sarjeta do desespero de ter que carregar minha fábrica de engraxar até ao dia feliz de meu adeus”. Então lembrou Manoel Bandeira, “Vi ontem um bicho Na imundice do pátio Catando comida entre os detritos Quando achava alguma coisa Não examinava nem cheirava Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem.” Pink Floyd continuava a tocar “Wish You Were Here”; a caneta não parava de escrever: “Tu tristeza tens um lugar reservado em meu coração”.

 

Estava deprimido e ficou ainda mais deprimido quando ouviu na rádio local uma notícia que o chocou. Herbert Viana, líder da banda Paralamas do Sucesso, pilotava um bimotor que se despenhou no mar, ficando tetrapléguico. Aparentemente, tinha visto, impotente, a esposa que o acompanhava morrer lentamente. Ficou perturbado. Herbert não era propriamente um amigo, na verdade, quando se conheceram, tinha achado o jeito dele meio estranho, mas a situação era de fato catastrófica. Tetraplégico? Lembrou-se da canção “Lanterna dos Afogados” e associou-a ao acontecido: “Quando está escuro e ninguém te ouve, quando chega a noite e você pode chorar, há uma luz no túnel dos desesperados, há um cais de porto pra quem precisa chegar, eu tô na lanterna dos afogados, eu tô te esperando, vê se não vai demorar”, e recorreu a exclamar: “…O mundo enlouqueceu! Hoje, Deus é a autoimagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Celulite é falta de educação. FDP bem-sucedido é exemplo de sucesso”. Mais à frente, no mesmo tom, lamentava que nos nossos dias os sentimentos não interessassem mais. “Não importa o outro, o coletivo. Jovens não têm mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada”. No final, advertia: “Cuide bem do seu amor, seja ele quem for”. 

 

Para levar as pedras semipreciosas para a plataforma, Kadafi comprou um estojo de veludo e, como se fosse um penso higiénico, passou o controle com aquilo entre as pernas, por baixo das cuecas igualmente vermelhas. Apanhou a catamarã e percebeu que o mar estava invulgantemente bravo. A maioria dos operários não aguentou os saltos e começou a vomitar. DuArte mantinha-se a um canto, aparentemente impávido, indiferente à intemperie e aos odores nauseabundos.

 

Nessa mesma manhã, ao chegar ao quarto da plataforma, o cara do beliche de cima disse-lhe que ele iria viver por muitos e bons anos, pois era uma pessoa muito bem-humorada. DuArte não concordou. Felicidade era o que buscava, mas, cada vez mais, se sentia indeciso. A plataforma fazia-lhe mal. Deixava-o crescentemente inseguro. Havia algo de imensamente triste nas paredes que olhava vagamente. Queria fugir dali, mas, como ainda faltavam 14 dias para voltar a ver terra, dedicava a maior parte do tempo a ler e a escrever, percebendo que a tristeza tinha passado a ter um lugar reservado em seu coração. No Sânscrito, leu um apelo: “Cuide da própria vida de sua vida.” Constatou que, no percurso dos homens, “se encontram todas as verdades e realidades de sua existência, a alegria do crescimento, o esplendor da beleza, pois o ontem é só um sonho de felicidade e de cada amanhã uma visão de esperança”. Assim, olhe bem para dentro de si e veja o dia de hoje”.

 

Pousou o livro no chão frio da plataforma e pensou que tudo o que fazia saía-lhe do fundo do peito. “E amo. Mas meu coração fecha os olhos e chora”, disse para si mesmo, deixando escorregar lentamente uma lágrima pelo rosto.

 

À tarde, foi entregar as pedras ao Mr. Maurice, que ficou encantado com a qualidade do produto, pedindo-lhe que, quando fosse de folga, voltasse à mesma fonte para comprar mais.

 

Desiludido com a vida, cabisbaixo, batia o corpo nas paredes de ferro dos corredores da plataforma. Foi então que decidiu tentar, pôr cobro à dor que deveras sentia e escrever uma carta a Vera: “Já não aguento tamanho sofrimento. Conheci-te e, de imediato, pensei que fosses a mulher da minha vida. Enganei-me e agora estou passando por uma das piores crises de que tenho memória. A barba revela isso mesmo, pois, apesar de ser proibido usá-la na plataforma, não há proibição capaz de impedir meus sentimentos de transparecerem no rosto. Infelizmente, para nós dois, não será mais possível continuar a nossa relação, que, afinal de contas, ainda agora começou. Digo-o porque o sinto e sei que teu momento não está de acordo com o que quero e preciso nesta fase da minha vida. Acredito que, se nos tivéssemos encontrado noutra altura, seríamos muito felizes juntos. Não é o caso, e assim resta-nos a dúvida sobre o que seria ou poderia vir a ser. É sempre difícil dizer adeus a quem gostamos. Contudo, a despedida é muitas vezes necessária para o bem do nosso futuro. Não vou guardar nenhuma má recordação da nossa curta relação, mas sou obrigado a dizer-te adeus para sempre. DuArte.” 

 

José Manuel Simões

 

Fotografia de José Manuel Simões

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos. 

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